《O Amor Que Eu Deveria Ter Deixado Pra Trás》Capítulo 4

Ultimamente, a cidade parecia viver sob chuva constante.

O ar carregava um frio úmido.

O vento da noite soprava suave, trazendo gotículas que tocavam meu rosto.

Ao longe, vi Diego se aproximando com um guarda-chuva.

— Lena… eu sei que não tenho o direito de ficar ao seu lado te consolando… mas você pode parar de chorar por ele? Isso me dói…

Eu o encarei com frieza, o olhar duro:

— Diego, para de fingir. Isso me irrita.

Mesmo mancando, ele se aproximou, com um olhar suplicante.

Eu o observei por alguns segundos… e o empurrei.

No instante seguinte, ele me puxou para um abraço.

Eu me contraí…

Mas, de repente—

Vi ele caído no chão… coberto de sangue.

Só então percebi.

Um caminhão estava parado logo à minha frente.

O motorista se curvava, pedindo desculpas.

Minha mente ficou em branco.

O som da ambulância se aproximava cada vez mais.

Vi levarem Diego na maca…

Até que a voz de uma enfermeira me alcançou:

— Você é da família dele?

Só então voltei a mim.

Assenti, meio atordoada.

— Diego… Diego…

Não importava o quanto eu chamasse…

Ele não respondia.

O trajeto até o hospital durou apenas dez minutos.

Mas… pareceu uma eternidade.

Duas horas depois, o médico saiu da sala, tirando a máscara.

— Doutor… como ele está?

O médico suspirou, com pesar:

— Por enquanto, ele está fora de perigo… mas… não conseguimos salvar as pernas dele.

Mesmo já esperando…

Eu ainda perdi o equilíbrio.

O médico explicou que as pernas dele já estavam lesionadas antes…

E o impacto foi o golpe final.

Fiquei parada do lado de fora da UTI.

Observando Diego, cheio de tubos, imóvel na cama.

A única coisa que indicava que ele ainda estava vivo…

Era o som do monitor cardíaco.

Ele ficou uma semana na UTI…

Antes de ser transferido para um quarto comum.

No dia em que acordou…

A primeira coisa que perguntou foi se eu estava bem.

Todas as emoções que eu vinha reprimindo…

Desabaram de uma vez.

— Diego… por que você me salvou?

— Quer que eu fique em dívida com você?

O rosto dele estava pálido como papel.

A dor fantasma quase o fazia desmaiar.

Mas ainda assim, ele tentou me consolar:

— Lena… eu que te devo… isso é o mínimo…

— Você não me deve nada… entendeu?

Ele levantou a mão, querendo tocar meu rosto…

Mas recuou.

Sabia que eu não deixaria.

Depois disso, eu transferi a cafeteria.

No dia em que fechei as portas…

Encontrei Lucas.

Fazia tempo que não o via.

Ele estava com a barba por fazer.

— Lena… você emagreceu…

Ele disse que não estava bem.

Que pensava em mim todos os dias.

Entreguei a ele uma xícara de café e me sentei à sua frente.

— Lucas, você escolheu ela. Então seja responsável por essa escolha.

— Não faça promessas que não consegue cumprir.

Ele tentou falar…

Mas eu o interrompi:

— O que você não pôde me dar… dê a ela por completo.

— E, por favor… não me procure mais.

Ele segurou meu pulso.

A voz saiu quebrada:

— A gente… não pode mesmo voltar?

Olhei para aquele homem de um metro e oitenta… chorando como uma criança.

Fechei os olhos, segurando a dor:

— Lucas… você sabe.

— No momento em que você me traiu… acabou.

Me soltei dele e corri para a cozinha.

A voz dele ecoou, rouca e desesperada:

— Lena… você sabe? Casar com você era o sonho da minha vida…

— Eu só… destruí esse sonho…

Cobri o rosto com as mãos… e chorei.

Lucas…

Talvez você nunca tenha amado a mim de verdade.

Mas sim… a ideia que tinha de mim.

Eu vou guardar o que tivemos…

Mas nunca mais vou tocar nesse sentimento.

Dois meses depois…

Eu empurrava a cadeira de rodas de Diego em um parque.

E, por acaso…

Encontramos Lucas e Marina.

Ela estava agarrada ao braço dele.

Lucas olhou para Diego na cadeira de rodas…

E ficou em choque por alguns segundos.

Foi Diego quem falou primeiro:

— Lucas… quanto tempo.

Lucas assentiu.

Marina soltou o braço dele e veio até mim:

— Srta. Helena… quer dar uma volta?

Fiquei surpresa.

Mas, depois de pensar um pouco…

Assenti.

Caminhei ao lado dela.

Ela sorriu:

— Sabe… eu tenho inveja de você.

— O Lucas está comigo… mas o coração dele ainda é seu.

Fiquei em silêncio.

Ela continuou, como se estivesse contando uma história:

— Eu sei que vocês cresceram juntos… e que ele sempre te amou muito.

— Mas você não quer saber por que ele te traiu?

— Ele disse que eu parecia você… aos dezesseis anos.

— E que, no momento em que me viu… não conseguiu evitar se apaixonar.

— Nosso relacionamento durou seis meses…

— Mas eu sempre soube… que era só um substituto.

Ela riu, com amargura:

— Eu sou mais jovem, mais bonita…

— Então não aceitei ser sua sombra.

— No dia do aniversário de casamento de vocês…

— Fui eu que escolhi aquele hotel.

— Eu sabia que você sempre ia naquela confeitaria.

Soltei um riso frio:

— E daí?

— Vocês se casaram… e mesmo assim ele te traiu.

Ela ficou em silêncio por um instante.

Depois disse que, desde o nosso divórcio…

Nunca mais viu Lucas realmente feliz.

Que ele gritava meu nome durante a noite.

Que, bêbado, confundia ela comigo.

Mas…

O que isso tinha a ver comigo?

Não foi ele quem escolheu tudo isso?

O vento passou.

E levou com ele…

O garoto que um dia me amou.

Sorri levemente.

E fui embora, empurrando Diego.

Diego disse que queria ir para o exterior.

Procurar o tio dele.

Ajoelhei diante dele e disse:

— Então eu vou com você. Vou te acompanhar no tratamento.

Ele pensou por um longo tempo…

E assentiu.

No dia do embarque…

Estávamos sentados na sala de espera.

Lucas não sei como descobriu.

E correu até o aeroporto.

Ele procurou por mim…

E, sem me encontrar, foi até a sala de controle.

Pegou um microfone…

E começou a gritar meu nome.

— Helena! Eu te imploro, não vai embora…

— Eu não vou mais te pedir pra me perdoar… só não vai embora…

— Lena, você está me ouvindo? Eu errei… não vai…

— Lena… por favor…

As pessoas ao redor começaram a comentar.

Dizendo que ainda existiam homens assim.

Franzi a testa… olhando na direção da voz.

Diego se aproximou, segurando minha mão:

— Lena…

Olhei para nossas mãos entrelaçadas…

E disse suavemente:

— Eu vou com você.

— Eu te devo isso.

Ele balançou a cabeça:

— Não é isso… você não precisa fazer isso… sou eu quem te deve…

Fiquei em silêncio.

— Moça… essa pessoa na tela é você?

Algumas garotas apontaram.

Olhei.

Minha foto estava nos telões do aeroporto.

“Helena, não vá embora. Eu errei.”

Soltei a mão de Diego…

E corri até a sala de controle.

Lucas ainda falava ao microfone.

Quando me viu…

Seu rosto ficou silencioso e devastado.

Como alguém implorando… ou completamente destruído.

Ele me encarou por muito tempo.

— Lena…

Deu um passo.

Eu recuei.

— Lucas… não me obrigue a te odiar.

— Você pode voltar atrás…

— Mas eu não vou ficar esperando no mesmo lugar.

— Antes de fazer uma escolha… você deveria ter pensado nas consequências.

Respirei fundo.

E disse, palavra por palavra:

— Se você tivesse sido um pouco menos cruel comigo…

— Talvez não fôssemos mais amantes… mas poderíamos ser amigos.

— Tudo o que eu te peço… é que desapareça da minha vida.

Eu já tinha dito isso duas vezes.

Uma… cinco anos atrás.

Outra… agora.

Mas desta vez…

Eu realmente queria que ele desaparecesse.

Porque, mesmo depois de me trair…

Ele ainda dizia palavras bonitas.

Isso só provava…

Que ele nunca me amou de verdade.

Virei as costas.

E fui embora.

Lucas veio atrás de mim.

— Não me segue… ou eu vou viver o resto da vida te odiando.

Ele parou.

Mas continuou me seguindo de longe.

Ignorei.

Então—

PLUF!

Lucas caiu de joelhos.

— Uau… isso parece novela!

As pessoas começaram a filmar.

Mas eu não olhei para trás.

O som do desespero dele ecoava claramente.

Os soluços… quebrados…

Soavam ainda mais dolorosos naquele espaço enorme.

Ele chorava, rastejando de joelhos atrás de mim:

— Lena… não vai embora…

— Lena… volta… olha pra mim… eu errei… de verdade…

Faltou tão pouco…

Para envelhecermos juntos.

Mas o homem que mais me amava…

Já tinha desaparecido há muito tempo.

Epílogo — Depois de partir

Três anos depois…

Sob meus cuidados, Diego já conseguia andar com próteses.

Naquela noite…

Ele preparou um jantar para mim.

Disse que era uma despedida.

E também… um agradecimento.

Brindamos com vinho.

Depois de um gole, ele disse:

— Lena… lembra daquele dia no parque?

Olhei para ele, confusa.

— Naquela época… eu achava que era um filho ilegítimo abandonado pelo pai do Lucas…

— Então usei você… como parte da minha vingança…

— Você deve ter me odiado muito, não é?

Mexi distraidamente na comida:

— Já faz tanto tempo… eu nem lembro mais.

Ele disse que nunca conseguiu esquecer.

E que, naquele dia, Lucas havia dito a ele:

Que era um verdadeiro monstro.

Que me tirou de um abismo…

Só para me empurrar em outro.

E que ele… era pior do que Diego.

Mas, para mim…

Os dois eram iguais.

Depois disso…

Eu deixei Diego.

Fui para um lugar onde nenhum dos dois existia.

Passei a trabalhar como voluntária em um orfanato.

O chão estava coberto de folhas de outono.

E, olhando para elas…

Pensei…

Talvez aquele garoto…

Também estivesse fazendo a mesma coisa em algum lugar.

Fim.

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