Depois da revelação sobre o computador de Carolina e a ligação dela com o vazamento para a imprensa, a Mansão Montenegro nunca mais voltou a ser a mesma.
A casa que antes representava poder e segurança agora parecia um campo de batalha.
Funcionários evitavam olhar nos olhos uns dos outros.
Seguranças permaneciam espalhados pelos corredores.
E Dante Montenegro Vasconcelos havia tomado uma decisão.
Ele não confiaria mais em palavras.
Apenas em provas.
No centro do escritório principal, dezenas de documentos estavam espalhados sobre a mesa.
Relatórios financeiros.
Contratos antigos.
Movimentações bancárias.
Tudo relacionado à Montenegro Participações.
Rafael estava diante do computador enquanto Dante observava em silêncio.
"Eu quero saber para onde foi cada centavo perdido nos últimos cinco anos."
Rafael assentiu.
"Estamos analisando todas as contas."
Bruno entrou na sala segurando uma pasta.
"Encontramos algo estranho."
Dante levantou o olhar.
"O quê?"
Bruno colocou os documentos sobre a mesa.
"Transferências internas que foram autorizadas pelo Eduardo."
Dante pegou os papéis.
No começo, pareciam apenas movimentações empresariais comuns.
Mas conforme avançava nas páginas, sua expressão mudava.
"Essas transferências..."
Rafael completou:
"Somam doze bilhões de reais."
O silêncio tomou conta do escritório.
Dante permaneceu parado.
Doze bilhões.
Um valor grande demais para desaparecer sem deixar rastros.
"Como isso não apareceu nos relatórios oficiais?"
Rafael respondeu:
"Porque o dinheiro não saiu diretamente da Montenegro Participações."
Ele abriu outra tela.
"Foram criadas várias empresas intermediárias."
Dante se aproximou.
"Empresas fantasmas?"
"Exatamente."
Ele mostrou os registros.
"Nomes diferentes, endereços diferentes, mas todas ligadas ao mesmo grupo."
Dante analisou os documentos.
"Quem controla essas empresas?"
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
Então abriu o último arquivo.
"Dante..."
O tom de voz chamou sua atenção.
"Fala."
Rafael virou a tela.
O nome apareceu.
Almeida Participações.
Dante ficou completamente imóvel.
O sobrenome parecia uma provocação.
Almeida.
O mesmo sobrenome de Mariana.
"O que isso significa?"
Bruno respondeu:
"A empresa foi criada há dez anos."
Dante olhou para Mariana através da janela do escritório.
Ela estava no jardim com Sofia.
Conversando.
Tentando recuperar uma vida normal depois de tudo que aconteceu.
Mas naquele momento, uma dúvida começou a crescer dentro dele.
"Ela sabia."
Rafael olhou para ele.
"Dante?"
"Mariana sabia."
A frase saiu baixa.
"Ela entrou nessa casa sabendo exatamente o que estava procurando."
Rafael não respondeu.
Porque pela primeira vez ele também tinha dúvidas.
Dante pegou os documentos.
"Almeida Participações recebeu parte desse dinheiro."
"Sim."
"E quem assinou?"
Rafael hesitou.
"Mariana Almeida."
O mundo de Dante pareceu parar por alguns segundos.
Todas as peças começaram a se misturar.
A investigação.
O passado de Lucas.
A caixa escondida.
A fotografia de Augusto.
Agora uma empresa ligada ao desaparecimento de bilhões.
Ele fechou os olhos.
Tentando organizar os pensamentos.
A mulher que dizia querer salvá-lo talvez estivesse escondendo algo maior.
Naquele momento, Mariana entrou no escritório.
Ela percebeu imediatamente que algo estava errado.
"Dante."
Ele não respondeu.
Ela olhou para os documentos sobre a mesa.
E seu rosto perdeu a cor.
"Você encontrou."
Dante levantou o olhar.
"Então é verdade."
Mariana ficou em silêncio.
"Almeida Participações é sua empresa."
Ela respirou fundo.
"Sim."
A resposta direta deixou Dante ainda mais desconfiado.
"Por que você nunca me contou?"
"Porque eu sabia que você não entenderia."
Dante deu uma risada curta, sem humor.
"Você espera que eu entenda?"
Ele levantou os documentos.
"Minha família perde doze bilhões de reais e o dinheiro vai parar em uma empresa com seu nome."
Mariana deu um passo à frente.
"Dante, não é isso que parece."
"Então me explique."
Ela tentou falar.
Mas ele continuou.
"Você passou três anos dentro da minha casa."
Sua voz ficou mais dura.
"Você sabia quem eu era."
Mariana abaixou o olhar.
"Sim."
"Você sabia sobre meu pai."
"Sim."
"E agora descubro que existe uma empresa sua ligada ao dinheiro desaparecido."
Mariana sentiu a dor na voz dele.
Não era apenas acusação.
Era decepção.
"Dante, eu nunca roubei nada da sua família."
"Então por que seu nome está nos documentos?"
Ela ficou em silêncio.
Porque existia uma parte da história que ela ainda não tinha contado.
"Porque essa empresa foi criada pelo Lucas."
Dante parou.
"Seu marido?"
Mariana assentiu.
"Antes de morrer, Lucas abriu essa empresa."
"Para quê?"
"Para proteger provas."
Dante franziu a testa.
"Proteger provas?"
Mariana se aproximou.
"Lucas descobriu que havia dinheiro sendo desviado da Montenegro Participações."
Ela apontou para os documentos.
"Ele criou a Almeida Participações para rastrear o caminho desse dinheiro."
Dante ficou em silêncio.
"Então por que o dinheiro passou pela sua empresa?"
"Porque era a única forma de seguir o rastro sem que descobrissem."
Dante olhou para ela.
Mas a dúvida continuava.
"Você sabia dos doze bilhões?"
Mariana demorou.
Essa pequena demora machucou Dante.
"Sim."
Ele desviou o olhar.
"Então você sabia."
"Eu sabia que existia algo errado."
"Mas não me contou."
Mariana tentou se aproximar.
"Porque eu não sabia quem estava envolvido."
Dante respondeu:
"Você sabia que era perigoso."
"Sim."
"E mesmo assim ficou aqui."
Ela olhou para Sofia.
"Eu precisava proteger minha filha."
A frase fez Dante lembrar de tudo.
Mariana não era apenas uma investigadora.
Era uma mãe tentando sobreviver.
Mas ainda havia uma pergunta.
Se ela tinha tantas provas...
Por que continuava escondendo?
Naquela noite, enquanto todos dormiam, Mariana voltou sozinha ao antigo escritório de Augusto Montenegro.
Ela carregava a pequena chave que estava dentro da caixa de madeira.
Durante anos, Lucas havia dito que aquela chave abriria a última resposta.
Ela caminhou até um antigo armário escondido atrás dos livros.
Retirou alguns objetos.
Até encontrar uma pequena porta de metal.
Com as mãos tremendo, colocou a chave.
A fechadura abriu.
Dentro havia um cofre antigo.
Mariana ficou parada.
Ela sabia que aquele momento mudaria tudo.
Porque aquele cofre não guardava apenas documentos.
Guardava a verdade que Lucas tentou proteger.
Ela abriu lentamente.
Dentro havia apenas uma coisa.
Um envelope envelhecido.
Na frente estava escrito:
"Para Dante Montenegro Vasconcelos."
Mariana segurou o envelope.
Porque reconheceu imediatamente a letra.
Era de Augusto Montenegro.
O pai de Dante.
Ela abriu a primeira página.
E leu a primeira frase.
"Meu filho, se você recebeu esta carta, significa que finalmente descobriu a verdade sobre nossa família."
Mariana sentiu o coração acelerar.
Mas antes que pudesse continuar lendo, ouviu passos atrás dela.
Ela virou lentamente.
Alguém estava parado na porta do escritório.
Observando tudo.
E aquela pessoa sabia que ela havia encontrado a carta.