A manhã ainda nem havia terminado, mas a Mansão Montenegro parecia estar vivendo uma guerra silenciosa.
Mariana estava em um quarto reservado para funcionários antigos da família, recebendo cuidados médicos enquanto Sofia permanecia ao seu lado sem soltar sua mão.
Depois de três dias presa na adega subterrânea, o corpo dela estava fraco, mas sua mente permanecia alerta.
Ela sabia que aquele ataque não tinha sido um acidente.
E sabia que a pessoa responsável ainda estava dentro daquela casa.
No escritório principal da mansão, Dante Montenegro Vasconcelos estava diante de uma enorme mesa de madeira escura.
Na sua frente estavam relatórios de segurança, imagens das câmeras e registros digitais da propriedade.
Ao lado dele estavam Rafael Souza e Bruno Carvalho.
Do outro lado da sala, Eduardo Vasconcelos permanecia em silêncio.
Pela primeira vez em dezessete anos, Dante não via aquele homem como um irmão.
Via como um desconhecido.
"Abra todos os registros da adega desde a noite em que Mariana desapareceu."
Rafael abriu o computador.
"Já estamos analisando, senhor."
Poucos minutos depois, a expressão dele mudou.
"Dante..."
O tom de voz chamou a atenção de todos.
"O que foi?"
Rafael virou a tela.
"A câmera do corredor oeste foi desligada por quase quatro horas naquela noite."
Dante se aproximou.
"Quem desligou?"
Bruno respondeu imediatamente.
"O sistema registra todos os acessos. Apenas pessoas autorizadas conseguem fazer isso."
Dante olhou para a tela.
"Mostre o código."
Rafael digitou algumas informações.
Então ficou completamente imóvel.
"Não pode ser."
Dante estreitou os olhos.
"Fale."
Rafael respirou fundo.
"O acesso usado para desligar a câmera veio da conta principal de segurança."
"Minha conta?"
"Não."
Rafael levantou os olhos.
"Foi o login biométrico do Eduardo."
O silêncio tomou conta do escritório.
Dante não demonstrou surpresa.
Pelo menos não por fora.
Por dentro, algo começava a se quebrar.
Durante dezessete anos, Eduardo Vasconcelos tinha sido mais do que um sócio.
Ele tinha sido o homem que estava ao seu lado nos momentos mais difíceis.
Quando Dante perdeu sua primeira esposa.
Quando precisou assumir o controle da empresa após a morte do pai.
Quando enfrentou inimigos que queriam destruir o nome Montenegro.
Eduardo sempre estava lá.
Ou pelo menos era isso que Dante acreditava.
Ele virou lentamente para o homem que estava perto da janela.
"Quer explicar?"
Eduardo manteve a calma.
"Dante, você sabe que existe uma explicação."
"Então explique."
Eduardo respirou fundo.
"Eu tive acesso ao sistema porque sou seu braço direito. Você me deu essa autorização há anos."
Dante continuou encarando.
"Autorização para proteger minha casa."
Eduardo assentiu.
"Exatamente."
"Não para prender uma mulher dentro da minha adega."
A frase atingiu o ambiente como uma lâmina.
Eduardo ficou sério.
"Você está tirando conclusões antes de saber a verdade."
Dante caminhou até a mesa.
"Então me ajude a entender."
Ele jogou uma fotografia impressa sobre a madeira.
Era o registro da nova fechadura instalada na porta da adega.
"Essa fechadura foi instalada um dia antes de eu voltar."
Eduardo olhou para a imagem.
"Foi uma decisão da Carolina."
Dante ficou parado.
"Você está dizendo que minha noiva também está envolvida?"
Antes que Eduardo respondesse, a porta do escritório se abriu.
Carolina Ferraz Montenegro entrou.
Ela estava usando um vestido elegante, com os cabelos perfeitamente arrumados.
Mesmo diante de uma investigação, ela parecia preparada para uma entrevista de revista.
"Dante, eu soube o que aconteceu."
Ela se aproximou.
"Estou chocada. Mariana sempre foi uma pessoa instável."
Dante virou o rosto.
"Instável?"
Carolina fez uma expressão de tristeza.
"Ela tinha problemas emocionais. Talvez tenha criado essa situação para chamar atenção."
Por alguns segundos, Dante apenas observou.
Ele conhecia pessoas manipuladoras.
E naquele momento percebeu algo.
Carolina não estava preocupada com Mariana.
Ela estava preocupada com o que Mariana poderia revelar.
"Por que você pediu a troca da fechadura da adega?"
Carolina hesitou.
Apenas um instante.
Mas foi suficiente.
"Eu já expliquei. Tinha medo que alguém roubasse as garrafas antigas."
Dante se aproximou.
"Você sabia que Mariana estava lá?"
Carolina arregalou os olhos.
"Claro que não."
Mas sua resposta veio rápido demais.
Dante percebeu.
Nesse momento, Rafael recebeu uma nova informação no computador.
"Dante."
Todos olharam para ele.
"Encontramos algo no histórico do sistema."
Ele abriu outro arquivo.
"Na mesma noite em que a câmera foi desligada, alguém entrou no escritório principal."
Dante franziu a testa.
"O escritório estava trancado."
"Sim."
Rafael ampliou a imagem.
"Mas alguém usou uma chave digital."
Dante olhou.
"E quem tinha acesso?"
Rafael respondeu:
"Eduardo."
Eduardo fechou os olhos por um segundo.
A máscara de homem leal começou a desaparecer.
Dante percebeu.
"Por que você entrou no meu escritório naquela noite?"
Eduardo ficou em silêncio.
"Eduardo."
A voz de Dante ficou mais fria.
"Responda."
O homem finalmente falou.
"Eu estava procurando uma coisa."
"Que coisa?"
Eduardo olhou para ele.
"Um documento."
"Qual documento?"
Eduardo não respondeu.
Dante deu um passo à frente.
"Você passou anos ao meu lado. Dormiu na minha casa. Conheceu minha família. Eu confiei em você."
Ele fez uma pausa.
"E agora descubro que você estava entrando escondido no meu escritório?"
A tensão aumentou.
Eduardo respirou fundo.
"Você quer mesmo saber a verdade?"
Dante ficou em silêncio.
"Sim."
Eduardo olhou para Carolina.
Ela abaixou os olhos.
Era a primeira vez que Dante via medo nos dois.
"Mariana encontrou algo enquanto limpava seu escritório."
Dante ficou imóvel.
"O quê?"
Eduardo respondeu:
"Um livro de registros."
"Que registros?"
"Movimentações financeiras."
Dante estreitou os olhos.
"Minha empresa tem milhares de documentos financeiros."
Eduardo balançou a cabeça.
"Não eram documentos comuns."
Ele se aproximou lentamente.
"Era um livro escondido atrás de uma parede falsa."
O coração de Dante acelerou.
Aquela parede.
O antigo esconderijo do pai.
Augusto Montenegro sempre dizia que algumas informações nunca deveriam ser colocadas em computadores.
Porque papel não podia ser invadido.
"Ela encontrou esse livro?"
Eduardo confirmou.
"Sim."
"E o que tinha nele?"
Eduardo ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
"Contas secretas. Empresas de fachada. Transferências que nunca apareceram nos relatórios oficiais."
Dante sentiu o rosto endurecer.
"Você está dizendo que alguém dentro da minha família roubava dinheiro?"
Eduardo soltou uma risada sem humor.
"Não é tão simples."
Dante encarou aquele homem.
"Então me diga a verdade."
Eduardo deu um passo para trás.
"Ela descobriu coisas que poderiam destruir todos nós."
A frase ficou ecoando no escritório.
Dante olhou para a porta.
Pensou em Mariana.
Pensou em Sofia.
Pensou em tudo que acreditou durante anos.
"Você prendeu Mariana porque ela encontrou esse livro?"
Eduardo não respondeu.
Mas o silêncio respondeu por ele.
Dante fechou as mãos.
A raiva que sentia não era apenas pelo crime.
Era pela traição.
Um homem que ele chamava de irmão havia colocado uma mãe dentro de uma adega e deixado uma criança esperar três dias por uma resposta.
"Eu salvei sua vida."
A voz de Dante saiu baixa.
"Eu te dei uma família."
Eduardo levantou o rosto.
"E eu te ajudei a construir um império."
"Então por que destruir tudo?"
Eduardo sorriu de forma fria.
"Porque esse império nunca foi realmente seu."
Dante ficou imóvel.
Eduardo caminhou até a porta.
Antes de sair, virou novamente.
Seus olhos estavam diferentes.
Sem culpa.
Sem medo.
Apenas ambição.
"Você acha que seu pai era um homem honesto."
Ele fez uma pausa.
"Mas você não sabe quem realmente era Augusto Montenegro."
Dante permaneceu parado.
Pela primeira vez em muitos anos, ele sentiu que toda a história da própria família poderia ser uma mentira.