"Papai, a mamãe está desaparecida há três dias..."
A chuva fina caía sobre os jardins do Jardim Europa, em São Paulo, naquela manhã cinzenta em que a Mansão Montenegro parecia ainda mais silenciosa do que o normal.
Os enormes portões de ferro se abriram lentamente enquanto três carros pretos entravam na propriedade. O primeiro veículo parou diante da escadaria de mármore, e Dante Montenegro Vasconcelos desceu usando um terno escuro perfeitamente alinhado.
Depois de uma semana viajando entre reuniões, negociações e conflitos dentro do império que carregava seu sobrenome, ele finalmente estava de volta para casa.
Dante era conhecido por todos como um homem impossível de derrubar.
Aos quarenta e cinco anos, comandava a Montenegro Participações, uma das maiores empresas de logística e investimentos de São Paulo. Seus funcionários respeitavam sua inteligência. Seus inimigos temiam sua frieza.
Mas havia uma coisa que quase ninguém sabia.
Por trás daquele homem poderoso existia alguém cansado de perder pessoas.
Sua primeira esposa havia morrido anos antes em um acidente que nunca foi totalmente explicado.
Desde então, Dante havia fechado seu coração.
Até aquele momento.
Assim que colocou os pés na entrada da mansão, ele percebeu algo estranho.
Nenhum funcionário veio recebê-lo.
Nenhum sorriso.
Nenhuma voz dizendo que sua casa estava novamente cheia.
Apenas silêncio.
Dante franziu a testa.
"Por que ninguém está aqui?"
Antes que seu segurança pudesse responder, uma pequena figura apareceu correndo pelo enorme corredor.
Era uma menina de quatro anos.
Ela usava uma camisola amarela amassada, os cabelos castanhos estavam completamente bagunçados e seus pés descalços estavam vermelhos pelo frio do mármore.
Dante parou imediatamente.
A menina correu até ele e segurou sua perna com força.
Era Sofia Almeida.
A filha de Mariana Almeida, a responsável pela organização da equipe doméstica da mansão.
Dante olhou para aquela criança assustada e, pela primeira vez em muitos anos, esqueceu todos os problemas do mundo.
Ele se abaixou.
"Quem aconteceu, Sofia?"
A menina levantou o rosto.
Seus olhos estavam inchados de tanto chorar.
Ela segurava uma pequena boneca contra o peito.
"Dante..."
A voz dela saiu tremendo.
"Minha mãe sumiu há três dias."
Por alguns segundos, ninguém respirou.
Os seguranças olharam uns para os outros.
Dante ficou imóvel.
"Repita."
Sofia apertou ainda mais a mão dele.
"Minha mãe sumiu há três dias."
A expressão de Dante mudou.
Mariana Almeida trabalhava naquela casa havia três anos.
Ela não era apenas uma funcionária.
Ela conhecia cada detalhe da rotina da mansão.
Sabia quando Dante precisava de silêncio.
Sabia qual café ele gostava.
Sabia quais convidados tinham alergia a determinados alimentos.
E principalmente...
Nunca deixava Sofia sozinha.
"Quem disse que sua mãe desapareceu?"
A menina olhou para o corredor.
"Todos disseram que ela foi visitar uma família em Minas Gerais."
Dante ficou sério.
"Ela falou isso para você?"
Sofia balançou a cabeça.
"Não."
"Então por que disseram isso?"
A menina respirou fundo.
"Porque a Carolina falou."
O nome fez Dante levantar os olhos.
Carolina Ferraz Montenegro.
Sua noiva.
Uma mulher elegante, filha de uma das famílias mais tradicionais de São Paulo.
O casamento dos dois estava marcado para dali a poucas semanas.
Dante se levantou lentamente.
"Carolina disse que sua mãe foi embora?"
Sofia confirmou.
"Mas ela está mentindo."
O corredor inteiro ficou em silêncio.
Um dos funcionários tentou se aproximar.
"Senhor Dante, talvez seja apenas um mal-entendido. Mariana realmente comentou que precisava resolver alguns assuntos pessoais."
Dante virou o rosto.
"Ela comentou com quem?"
O funcionário abaixou os olhos.
"Com Eduardo."
Eduardo Vasconcelos.
Seu braço direito.
Seu conselheiro.
O homem que estava ao seu lado há quase vinte anos.
Dante sentiu um desconforto crescer dentro do peito.
"Chame Eduardo."
Antes que alguém pudesse responder, uma voz masculina surgiu atrás deles.
"Dante."
Eduardo apareceu no corredor usando uma camisa branca impecável e uma expressão de preocupação cuidadosamente preparada.
"Você chegou mais cedo."
Dante observou cada movimento dele.
"Você sabe onde está Mariana?"
Eduardo suspirou.
"Ela decidiu visitar parentes. Não achei necessário incomodar você durante a viagem."
Dante ficou olhando para ele.
"Minha funcionária desaparece por três dias e você decide que não era necessário me avisar?"
Eduardo tentou manter a calma.
"Ela não desapareceu. Ela saiu por vontade própria."
Nesse momento, Sofia segurou a mão de Dante.
"Não saiu."
Todos olharam para ela.
A menina estava tremendo.
"Minha mãe nunca iria embora sem me dar um beijo."
A frase atingiu Dante mais forte do que qualquer ameaça.
Porque ele conhecia Mariana.
Ela podia esquecer qualquer coisa.
Menos Sofia.
"Ela sempre me abraça antes de dormir", continuou a menina. "Mesmo quando está cansada."
Dante olhou para Eduardo.
Depois para os funcionários.
Depois para toda aquela mansão enorme.
Pela primeira vez, aquele lugar pareceu estranho.
Como se escondesse algo.
"Sofia."
Ele se ajoelhou novamente.
"Você viu sua mãe pela última vez?"
A menina demorou alguns segundos para responder.
"Ela estava com a Carolina."
O rosto de Eduardo mudou levemente.
Foi apenas um segundo.
Mas Dante percebeu.
"Quando?"
"Na noite que ela sumiu."
Dante levantou.
"Leve Sofia para o quarto."
"Não!"
A menina segurou a mão dele.
"Eu quero ajudar."
Dante olhou para aquela criança.
Ela tinha sido ignorada por três dias.
Nenhum adulto acreditou nela.
Mas ela continuou tentando encontrar a própria mãe.
"Você vai ficar comigo."
Sofia assentiu.
Dante chamou seus seguranças.
"Rafael, Bruno."
Os dois homens apareceram imediatamente.
"Ninguém entra ou sai dessa mansão até eu descobrir o que aconteceu."
Eduardo tentou interromper.
"Dante, você está exagerando."
Dante virou lentamente.
"Uma mulher desapareceu dentro da minha casa."
A voz dele era baixa.
Mas carregava uma ameaça.
"Eu ainda não decidi quem está mentindo."
O grupo começou a procurar pela mansão.
Quartos.
Escritórios.
Salas privadas.
Até que Sofia parou diante de um corredor antigo na parte oeste da propriedade.
Ela apontou para uma pequena porta de ferro.
"Foi aqui."
Dante olhou para a porta.
Era a entrada da antiga adega subterrânea da família Montenegro.
Ele se aproximou.
E imediatamente percebeu algo errado.
Um cadeado novo estava preso na porta.
Dante tocou no metal.
Ele conhecia aquela adega.
Aquela fechadura não existia antes da viagem.
"Quem colocou isso aqui?"
Ninguém respondeu.
Eduardo permaneceu alguns passos atrás.
Silencioso demais.
Dante olhou para ele.
"Eduardo?"
O homem respirou fundo.
"Carolina pediu para trocar. Ela ficou preocupada com algumas garrafas antigas."
Dante continuou olhando para o cadeado.
"Ela pediu?"
"Sim."
Sofia se aproximou.
Sua voz saiu baixa.
"Minha mãe está aí."
O silêncio tomou conta do corredor.
Eduardo soltou uma pequena risada nervosa.
"Sofia, querida, sua mãe não está aí."
A menina olhou para ele.
"Eu ouvi ela."
Dante virou imediatamente.
"O que você ouviu?"
A menina segurou seu braço.
"Batidas."
Todos ficaram imóveis.
"Batidas de onde?"
Ela apontou para a porta.
"De dentro."
Dante não falou mais nada.
Apenas fez um sinal para Rafael.
O segurança trouxe um cortador de metal.
O primeiro golpe ecoou pelo corredor.
O cadeado resistiu.
O segundo golpe fez o som do ferro quebrando se espalhar pela mansão.
Eduardo deu um passo para trás.
Dante percebeu.
No terceiro golpe, o cadeado caiu no chão.
Dante abriu a porta.
Um cheiro forte saiu imediatamente.
Umidade.
Madeira velha.
Vinho estragado.
E algo mais.
Algo que fez seu coração acelerar.
Sofrimento.
Ele entrou primeiro.
A luz fraca da adega piscava no teto.
No fundo do cômodo, atrás das antigas prateleiras de vinho, havia uma pessoa caída no chão.
Dante parou.
"Mariana..."
Ela estava encostada na parede de pedra.
Suas mãos estavam presas.
Seu rosto estava pálido.
Seus lábios estavam secos.
Ela havia sobrevivido três dias naquele lugar.
"Sofia..."
Mesmo fraca, a primeira preocupação dela não era ela mesma.
Era sua filha.
A menina correu até ela.
"Mãe!"
Dante cortou as cordas imediatamente.
Ele tirou o próprio casaco e colocou sobre os ombros de Mariana.
Ela abriu lentamente os olhos.
Por alguns segundos, parecia não reconhecer onde estava.
Então viu Dante.
E seu rosto mudou.
Não era alívio.
Era medo.
Mariana segurou fracamente o braço dele.
Sua voz quase não saiu.
"Dante..."
Ele se aproximou.
"Quem fez isso com você?"
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Ela olhou para Sofia.
Depois olhou para trás de Dante.
Como se tivesse medo de alguém ouvir.
Então sussurrou:
"Dante..."
Ela segurou a mão dele com toda a força que ainda tinha.
"Não confie em ninguém dentro desta casa..."