《O Trono de Cinzas: No Limite da Paixão》Capítulo 1

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O som da chuva castigava as vidraças daquela cobertura colossal no Rio de Janeiro como chicotes invisíveis. O ar dentro do quarto de teto alto cheirava a caro, a um misto de sândalo escuro, eletricidade estática e o travo metálico do próprio sangue.

Lucas abriu os olhos lentamente, lutando contra o peso de uma modorra química que ainda entorpecia suas veias e embaralhava seus pensamentos.

A penumbra da suíte era cortada apenas pelos relâmpagos intermitentes que lá fora rasgavam o céu carioca. Suas pálpebras pesavam, mas o instinto primário de supervivencia gritou mais alto do que qualquer entorpecente.

Ele tateou o lençol de cetim negro com dedos trêmulos, buscando um ponto de apoio. Em vez de tecido macio, seus dedos fecharam-se sobre algo duro, facetado e terrivelmente cortante.

O fragmento pontiagudo de um frasco de cristal esmagado rasgou a carne de sua palma com facilidade. A dor aguda, crua e imediata foi o único estímulo necessário para varrer os resquícios da tontura de sua mente.

Lucas sibilou entredentes, sentindo o sangue quente escorrer pela própria pele e pingar pesadamente sobre a cama. Ele ergueu o tronco com dificuldade, ignorando o suor frio que colava seus cabelos negros à testa, e focou o olhar na figura sentada na poltrona do outro lado do aposento.

Na penumbra, envolto pelas sombras da noite, Gabriel von Strauss o observava com uma quietude aterrorizante. O magnata alemão-brasileiro parecia fundir-se ao couro escuro do móvel, emanando a autoridade intocável de quem comanda impérios sem precisar levantar a voz.

Os olhos de Gabriel brilhavam com aquele tom de azul glacial, frios e impenetráveis como o gelo de um abismo. Não havia pressa nele, tampouco qualquer traço de confusão; apenas uma curiosidade mórbida e calculista voltada inteiramente para o rapaz ferido.

Lucas engoliu em seco, sentindo a garganta arranhar como se estivesse engolindo vidro moído. As lembranças começaram a estilhaçar-se em sua cabeça, encaixando-se em um mosaico de ódio puro e cristalino.

Matheus. O seu melhor amigo de anos, o irmão de palco com quem dividia sonhos e suor nos becos e estúdios baratos de São Cristóvão.

Foi Matheus quem insistiu para que ele aceitasse aquele convite para a festa VIP na Zona Sul. Foi Matheus quem sorriu, empurrou a taça de champagne em suas mãos e o conduziu, passo a passo, para aquela armadilha de veludo e álcool adulterado.

Dez milhões de reais e a vaga de destaque na primeira linha de estreia da gravadora Apex Media. Esse foi o preço estipulado pelo melhor amigo para vender sua dignidade, seu corpo e seu futuro a uma rede de luxúria corporativa.

A traição queimou em seu peito com mais intensidade do que qualquer substância química jamais conseguiria. O desespero ameaçou sufocá-lo, mas durou apenas o espaço de um suspiro antes de ser completamente esmagado por uma sede de vingança implacável.

Gabriel inclinou o corpo ligeiramente para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos alinhados com perfeição germânica. A luz fraca de um relâmpago revelou o perfil cortado a刀 de seu rosto e a linha firme de seus lábios finos.

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"Você demorou a acordar, garoto", a voz de Gabriel cortou o silêncio do quarto com uma gravidade cortante, sem carregar qualquer julgamento, apenas puro tédio aristocrático.

Lucas não recuou. Pressionou o caco de cristal com mais força na palma da mão ferida, usando a dor física como escudo contra o terror daquele momento.

"Se veio terminar o serviço do meu querido amigo, não perca seu tempo com discursos", Lucas sibilou, a voz rouca e arrastada rasgando o ar da suíte. "Pode disparar ou me mandar de volta para a sarjeta."

Gabriel emitiu um som curto que beirava o escárnio, embora seus olhos azuis permanecessem perigosamente atentos. Ele não esperava submissão, mas a altivez selvagem daquele jovem de cabelos revoltos claramente o surpreendia.

"Eu não compro mercadoria estragada, e muito menos aceito o lixo que os outros jogam na minha porta de traseira", retrucou o magnata, o tom de voz perigosamente suave e controlado.

O olhar de Gabriel desceu lentamente do rosto pálido de Lucas, rastreando a linha do pescoço esguio até parar exatamente no colar de prata que repousava sobre a clavícula do cantor. Era uma corrente simples, desgastada pelo uso, que destoava completamente da ostentação obscena daquele quarto.

Por uma fração de segundo, a máscara de gelo do empresário oscilou. Um lampejo de reconhecimento ou talvez de uma empatia profunda e secreta cruzou aquelas pupilas claras, suavizando por um milésimo de segundo a dureza daquela fisionomia implacável.

Lucas percebeu o desvio no olhar do homem. Ele entendeu, com a clareza cortante de quem já sobreviveu a muita miséria, que sob aquela casca de poder absoluto existia algo que podia ser tocado, ou melhor, manipulado.

Ele não era mais a presa indefesa que foi arrastada para aquela cama. Naquele exato segundo, a metamorfose estava completa: ele passara de vítima a um sobrevivente disposto a negociar com o próprio diabo.

"Eles acharam que eu seria apenas um fantoche descartável para limpar a ficha deles", Lucas falou mais alto, endireitando os ombros e sustentando o peso daquele olhar glacial. "Pensaram que eu acordaria chorando e rastejando."

"E pelo visto erraram feio no cálculo", constatou Gabriel, endireitando a postura na poltrona e cruzando as pernas com elegância letal. "Você está sangrando na minha cama e, em vez de implorar por misericórdia, me olha como se quisesse arrancar a minha jugular."

"Porque os verdadeiros monstros desta história não estão sentados aqui comigo", Lucas devolveu sem pestanejar, a raiva destilada em cada sílaba brilhando em seus olhos cor de âmbar. "Matheus e aquela corja de executivos pensam que ganharam o jogo. Eles mal sabem o que os espera."

"Ousadia fascinante para quem foi vendido por trocados e jogado como um bicho", ironizou o alemão, erguendo uma sobrancelha escura com um interesse genuíno faiscando em seu interior.

"Não vim aqui para ser resgatado, senhor von Strauss", Lucas declarou com uma firmeza que desafiava a própria lógica daquela madrugada chuvosa. "Vim propor um negócio. Um acordo que vai estilhaçar a Apex Media e destruir cada um dos vermes que tentaram me enterrar."

O silêncio voltou a despencar sobre o aposento, denso e carregado de eletricidade. Fora da janela, o estrondo de um trovão sacudiu as estruturas do edifício, parecendo coroar a aliança sombria que começava a se desenhar ali.

Gabriel levantou-se da poltrona com movimentos fluidos e felinos. Sua altura imponente e a imponência de seu terno perfeitamente cortado projetaram uma sombra fria e esmagadora sobre o colchão onde Lucas repousava.

Ele cruzou o espaço em poucos passos curtos, parando exatamente à beira da cama, ignorando completamente o perigo do vidro que o cantor mantinha em riste.

Com uma lentidão deliberada, Gabriel estendeu a mão. Seus dedos longos, frios e implacáveis envolveram o pulso ensanguentado de Lucas, apertando a pele ferida com uma força absoluta e possessiva que não permitia fuga.

"Eles te venderam como se você fosse nada, Lucas", Gabriel sussurrou, inclinando-se até que sua boca estivesse a centímetros do ouvido do cantor, fazendo o ar ao redor parecer rarefeito. "Como você quer destruí-los?"

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