Depois da declaração de Patrícia, a investigação tomou um novo caminho.
Durante dias, Henrique Vasconcelos acreditou que Marcelo Ferraz Montenegro era o homem por trás de toda a traição.
E ele tinha motivos.
Marcelo estava ligado aos contratos falsos.
Aparecia nas imagens próximas ao carro de Helena.
Participava dos desvios financeiros.
Mas agora havia uma pergunta que ninguém conseguia responder.
Quem dava as ordens?
Porque Patrícia tinha deixado uma coisa clara.
Marcelo não era o responsável final.
Ele era apenas uma peça.
Henrique voltou para a sede da Vasconcelos Participações acompanhado de Lucas e da Delegada Mariana Ribeiro.
Pela primeira vez em décadas, a empresa parecia diferente.
Os corredores que antes representavam orgulho agora pareciam esconder segredos.
Funcionários conversavam em voz baixa.
Diretores evitavam contato visual.
Todos sabiam que algo grave estava acontecendo.
Lucas reuniu os principais documentos encontrados durante a investigação.
"Existe uma coisa que precisamos analisar."
Henrique olhou para ele.
"O quê?"
"Os contratos falsos não foram criados apenas para retirar dinheiro."
Lucas abriu alguns arquivos no computador.
"Eles tinham outro objetivo."
Mariana se aproximou.
"Qual objetivo?"
Lucas mostrou uma sequência de documentos.
"Controle acionário."
Henrique ficou em silêncio.
Ele entendeu imediatamente.
O plano nunca foi apenas roubar dinheiro.
Era tomar a empresa.
Alguém estava preparando uma maneira de enfraquecer a Vasconcelos Participações até o momento certo.
Depois, essa pessoa assumiria o controle.
Henrique sentiu um peso no peito.
Helena não estava investigando apenas um roubo.
Ela estava tentando impedir que toda a família perdesse o próprio império.
"Eles queriam tirar a empresa de nós."
Lucas confirmou.
"E provavelmente planejavam fazer isso depois da sua morte."
O silêncio foi imediato.
Henrique olhou para ele.
"Minha morte?"
Lucas respirou fundo.
"Se Helena morreu e você assumisse todas as responsabilidades sozinho, a empresa ficaria vulnerável."
A ideia era assustadora.
Mas fazia sentido.
Primeiro eliminar Helena.
Depois criar uma crise financeira.
Depois assumir o controle.
Um plano construído lentamente.
Durante anos.
Mariana analisou os documentos.
"Precisamos descobrir quem dentro da empresa tinha poder suficiente para executar isso."
Lucas abriu uma lista.
Os nomes dos principais diretores apareceram.
Alguns eram antigos funcionários.
Outros haviam sido contratados recentemente.
Até que um nome apareceu.
Henrique parou de respirar por alguns segundos.
Eduardo Vasconcelos.
Seu próprio pai.
O fundador da família.
O homem que construiu o primeiro negócio antes de entregar a liderança para Henrique.
Lucas percebeu a reação dele.
"Henrique..."
Ele levantou a mão.
"Não."
Sua voz estava baixa.
"Não pode ser."
Eduardo sempre foi uma figura de autoridade na família.
Um homem rígido.
Difícil de agradar.
Mas também alguém que Henrique admirava.
Depois da morte de Helena, foi Eduardo quem esteve ao lado dele.
Foi ele quem disse que a família precisava permanecer unida.
Foi ele quem aconselhou Henrique a não destruir a própria vida procurando respostas.
Agora, pela primeira vez, uma dúvida apareceu.
Por que ele tinha tentado impedir a investigação?
Enquanto Henrique tentava aceitar aquela possibilidade, Mariana recebeu uma informação.
"Encontramos uma ligação entre uma das empresas falsas e uma conta antiga."
Lucas perguntou:
"De quem?"
A delegada olhou para os documentos.
"De alguém ligado ao conselho administrativo."
Henrique ficou em silêncio.
"Quem?"
Mariana respondeu:
"Eduardo Vasconcelos."
Aquela confirmação foi ainda mais dolorosa.
Porque agora não era apenas uma suspeita.
Era uma conexão.
Henrique saiu da sala e foi até o antigo escritório do pai.
O lugar permanecia exatamente como sempre foi.
Livros antigos.
Fotografias da família.
Prêmios conquistados ao longo de décadas.
Tudo representava a história dos Vasconcelos.
Mas naquele momento, Henrique olhava para aquele lugar tentando descobrir se tudo era uma mentira.
Ele encontrou uma gaveta trancada.
Nunca tinha visto aquela chave antes.
Depois de alguns minutos, conseguiu abrir.
Dentro havia documentos antigos.
Relatórios.
Conversas impressas.
E uma pasta com o nome de Helena.
Henrique sentiu o coração acelerar.
Ele abriu.
A primeira página dizia:
"Projeto de Controle Vasconcelos."
Suas mãos começaram a tremer.
Helena havia encontrado aquilo antes de morrer.
Ela sabia.
Ela sabia que alguém dentro da própria família estava envolvido.
Ele virou mais algumas páginas.
E encontrou anotações escritas pela esposa.
"Eduardo sabe mais do que admite."
Henrique deu um passo para trás.
A dor era quase física.
Sua própria esposa desconfiava do pai dele.
Mas por que ela nunca contou?
Por que ela tentou investigar sozinha?
Naquele momento, ele ouviu passos atrás dele.
Era Sofia.
Ela segurava o pequeno telefone antigo.
"Papai?"
Henrique rapidamente fechou a pasta.
Ele não queria que a filha carregasse mais uma preocupação.
"Você está bem?"
Sofia percebeu a expressão dele.
"Você descobriu alguma coisa sobre a mamãe?"
Henrique olhou para a menina.
A mesma menina que havia guardado a verdade durante dez meses.
"Descobri que sua mãe era mais corajosa do que todos imaginavam."
Sofia se aproximou.
"Ela sabia que algo ruim ia acontecer?"
Henrique ficou em silêncio.
Porque a resposta era sim.
Mas dizer aquilo em voz alta tornava tudo ainda mais real.
Naquela noite, Henrique tentou conversar com Eduardo.
Mas seu pai não estava em casa.
O celular estava desligado.
E ninguém sabia informar onde ele tinha ido.
Aquilo aumentou ainda mais a desconfiança.
Enquanto isso, Patrícia continuava sob custódia.
Mas antes de ser levada para outra sala, pediu para falar com Henrique.
Ele aceitou.
Quando ficou frente a frente com ela, não havia mais amizade.
Não havia confiança.
Apenas uma história destruída.
"Por que você fez isso com Helena?"
Patrícia baixou o olhar.
"Eu achei que estava escolhendo o lado vencedor."
Henrique sentiu desprezo.
"Você destruiu uma família por dinheiro."
Patrícia respondeu:
"Não foi só por dinheiro."
Henrique ficou atento.
"O que quer dizer?"
Ela hesitou.
Então falou:
"Helena descobriu algo sobre Eduardo antes de morrer."
Henrique ficou imóvel.
"Meu pai?"
Patrícia assentiu.
"Ela sabia que ele fazia parte de algo maior."
O coração de Henrique acelerou.
"Você está dizendo que meu pai mandou matar Helena?"
Patrícia desviou o olhar.
"Eu não disse isso."
"Então diga a verdade."
Ela ficou em silêncio.
Porque havia algo que ainda não tinha contado.
Algo que poderia mudar completamente a visão de Henrique sobre a própria família.
Naquela madrugada, quando Henrique voltou para casa, encontrou um envelope deixado na porta da mansão.
Não havia remetente.
Não havia assinatura.
Apenas uma frase escrita na frente.
Ele abriu lentamente.
Dentro havia uma única folha.
E nela estava escrito:
"Seu pai sabia de tudo."