Patrícia Montenegro Ferraz entrou na sala de interrogatório tentando manter a mesma postura elegante que sempre teve.
Durante anos, ela conseguiu esconder suas verdadeiras intenções atrás de roupas caras, palavras gentis e um sorriso cuidadosamente treinado.
Para todos na família Vasconcelos, ela era a amiga fiel de Helena.
A mulher que ajudou depois da tragédia.
A pessoa que ficou ao lado de Sofia quando Henrique precisava viajar.
Mas agora, sentada diante da Delegada Mariana Ribeiro, Patrícia não tinha mais uma mansão, uma taça de vinho ou uma aparência de controle.
Ela tinha apenas perguntas.
E provas contra ela.
Mariana colocou alguns documentos sobre a mesa.
Transferências bancárias.
Contratos falsos.
Registros de comunicação.
Tudo apontava para o mesmo lugar.
Patrícia Montenegro.
"Você sabe por que está aqui."
Patrícia manteve o olhar firme.
"Eu sei que vocês querem transformar uma situação financeira em uma acusação de assassinato."
A delegada observou a reação dela.
"Então você admite que houve movimentações ilegais?"
Patrícia ficou em silêncio.
Era a primeira vez que ela parecia sem resposta.
Mariana abriu uma pasta.
"Diversos valores saíram da Vasconcelos Participações através de empresas criadas para esconder dinheiro."
Ela empurrou os documentos na direção dela.
"Essas empresas possuem ligação direta com pessoas próximas a você."
Patrícia olhou para os papéis.
Sua expressão mudou.
Mas ela ainda tentou negar.
"Eu nunca matei ninguém."
Mariana permaneceu calma.
"Eu não perguntei sobre isso ainda."
A frase deixou Patrícia desconfortável.
Porque, pela primeira vez, ela percebeu que a investigação tinha chegado muito mais longe do que imaginava.
A delegada continuou:
"Durante anos, você teve acesso à família Vasconcelos. Você sabia da rotina de Helena. Sabia quando ela estava sozinha. Sabia quando Henrique viajava."
Patrícia respirou fundo.
"Eu era amiga dela."
Mariana inclinou levemente a cabeça.
"Exatamente."
O silêncio ficou pesado.
A palavra "amiga" parecia ter outro significado naquele momento.
Uma porta de entrada.
Uma forma de se aproximar.
Uma maneira de descobrir tudo.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Henrique acompanhava parte do interrogatório junto com Lucas.
Ele precisava entender até onde aquela mentira chegava.
Sofia estava na mansão com Ana Clara.
Depois de tudo que aconteceu, Henrique não queria que a filha ouvisse mais detalhes dolorosos.
Mas ele sabia que uma coisa ainda estava faltando.
A verdade completa.
Na sala de interrogatório, Mariana mostrou uma nova prova.
Uma gravação de uma conversa entre Patrícia e Marcelo.
A voz dos dois estava clara.
Falavam sobre dinheiro.
Sobre documentos.
Sobre Helena.
Patrícia fechou os olhos ao ouvir.
Ela sabia que não tinha mais como negar.
Mariana perguntou:
"Você vai continuar dizendo que não sabe de nada?"
Patrícia ficou em silêncio.
Então soltou uma respiração longa.
"Eu sabia dos contratos."
Henrique, assistindo pela tela, ficou imóvel.
Ela finalmente tinha admitido.
Patrícia continuou:
"Eu sabia que Marcelo estava retirando dinheiro da empresa."
Lucas olhou para Henrique.
"Ela confessou."
Mas Henrique não comemorou.
Porque sabia que aquela não era a verdade completa.
Mariana continuou:
"Qual era o seu papel?"
Patrícia olhou para baixo.
"Eu ajudava."
A resposta caiu como uma pedra.
Henrique fechou os punhos.
A mulher que ele deixou entrar em sua casa.
A mulher que abraçou sua filha.
Estava confessando que participou de um golpe contra sua família.
Mariana perguntou:
"Você se aproximou de Helena por causa disso?"
Patrícia demorou para responder.
Então disse:
"Sim."
Henrique sentiu uma dor profunda.
Não era apenas pela empresa.
Era por Helena.
Sua esposa confiou naquela mulher.
Ela abriu sua casa.
Sua vida.
Sua família.
E foi traída.
Mas então Patrícia levantou o rosto.
E sua expressão mudou.
Ela parecia querer dizer algo.
Algo que estava guardando há muito tempo.
Mariana percebeu.
"Existe mais alguma coisa."
Patrícia ficou em silêncio.
"Patrícia, você está escondendo alguém."
A mulher desviou o olhar.
A delegada continuou:
"Marcelo não agia sozinho."
Henrique se aproximou da tela.
Essa era a resposta que ele procurava.
Durante dias, tudo apontava para Marcelo.
Mas Helena havia dito que existia algo maior.
Patrícia respirou fundo.
"Eu não matei Helena."
A sala ficou em silêncio.
Ela repetiu:
"Eu não matei Helena."
Mariana observou cuidadosamente.
"Então quem matou?"
Patrícia apertou as mãos.
"Eu não sei se ele queria matar."
A frase deixou todos confusos.
"Ele?"
Patrícia fechou os olhos.
"Marcelo não era o único responsável."
Henrique sentiu um arrepio.
Lucas ficou sério.
Mariana perguntou:
"Quem mais estava envolvido?"
Patrícia olhou para a mesa.
"Eu descobri depois."
"Descobriu o quê?"
Ela demorou alguns segundos.
"Que alguém estava controlando tudo por trás."
Henrique levantou.
"Quem?"
Mas Patrícia não conseguia ver Henrique.
Ela apenas continuou falando com a delegada.
"Marcelo recebia ordens."
A sala ficou completamente silenciosa.
Durante todo aquele tempo, eles acreditaram que Marcelo era o responsável.
Mas agora aparecia uma nova possibilidade.
Ele também poderia ser apenas uma peça.
Mariana perguntou:
"Você está dizendo que existe uma terceira pessoa?"
Patrícia assentiu lentamente.
"Sim."
Henrique passou a mão pelo rosto.
A morte de Helena.
Os contratos falsos.
O acidente.
Tudo parecia fazer parte de um plano muito maior.
Mariana se aproximou.
"Quem é essa pessoa?"
Patrícia ficou em silêncio.
O medo apareceu novamente em seus olhos.
Não era medo da prisão.
Era medo de alguém.
"Se eu falar, minha vida também acaba."
Mariana respondeu:
"Você já está envolvida."
Patrícia respirou profundamente.
"Eu sei."
Então olhou diretamente para a delegada.
"Mas vocês ainda não entenderam uma coisa."
Mariana ficou em silêncio.
Patrícia falou:
"Marcelo não tinha poder suficiente para fazer tudo isso sozinho."
Henrique sentiu o coração acelerar.
Porque aquela frase mudava toda a investigação.
Durante meses, todos procuraram um culpado.
Mas talvez estivessem procurando no lugar errado.
Patrícia abaixou a cabeça.
E antes que a sala terminasse em silêncio, ela disse:
"Vocês estão procurando o homem errado."