《O Segredo Que Minha Filha Guardou》Parte 4

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A imagem de Marcelo Ferraz Montenegro parado ao lado do carro de Helena ficou gravada na mente de Henrique.

Ele assistiu ao vídeo várias vezes naquela noite.

Uma.

Duas.

Dez vezes.

Mas em todas elas a sensação era a mesma.

Dor.

Raiva.

E uma pergunta que não conseguia desaparecer.

Por quê?

Como alguém que ele considerava um irmão poderia estar envolvido na morte da mulher que ele amava?

Marcelo não era apenas um sócio.

Ele era alguém que frequentava sua casa.

Alguém que brincava com Sofia.

Alguém que abraçou Henrique no dia do funeral de Helena.

Naquele momento, Henrique percebeu uma coisa terrível.

Às vezes, as pessoas mais próximas são justamente aquelas que conhecem melhor a maneira de destruir você.

Na manhã seguinte, Henrique decidiu que não esperaria mais.

Ele precisava olhar Marcelo nos olhos.

A reunião aconteceu na sede da Vasconcelos Participações, na região da Vila Olímpia.

O prédio inteiro carregava o nome da família.

Um símbolo de poder construído durante décadas.

Mas naquele dia, Henrique entrou naquele lugar sentindo que tudo estava ameaçado.

Marcelo estava em sua sala.

Como sempre.

Terno impecável.

Expressão tranquila.

O mesmo homem que todos os funcionários admiravam.

Quando Henrique entrou, Marcelo sorriu.

"Henrique, eu não esperava sua visita."

Henrique fechou a porta atrás dele.

"Precisamos conversar."

Marcelo percebeu imediatamente que havia algo diferente.

"O que aconteceu?"

Henrique colocou uma pasta sobre a mesa.

Dentro dela estavam as cópias dos documentos da manutenção do carro.

E uma imagem congelada do vídeo.

Marcelo olhou.

Por alguns segundos, seu rosto mudou.

Mas rapidamente recuperou a calma.

"Você está investigando minha vida agora?"

Henrique permaneceu parado.

"Estou tentando descobrir quem matou minha esposa."

O silêncio tomou conta da sala.

Marcelo respirou profundamente.

"Henrique, cuidado com as acusações que você faz."

"Eu ainda não acusei ninguém."

Henrique se aproximou.

"Mas você estava perto do carro da Helena no dia do acidente."

Marcelo soltou uma pequena risada.

"Então é isso?"

"Isso o quê?"

"Você viu uma imagem ruim de uma câmera antiga e decidiu que eu sou culpado?"

Henrique apertou os olhos.

"Você sabe explicar por que estava lá?"

Marcelo se levantou.

"Eu já expliquei. Eu estava trabalhando."

"Naquele horário?"

"Sim."

"Próximo ao carro dela?"

Marcelo ficou em silêncio.

Foi apenas por alguns segundos.

Mas Henrique percebeu.

Aquele silêncio dizia mais do que qualquer resposta.

Marcelo passou a mão pelo rosto.

"Henrique, você está sofrendo."

Essa frase irritou Henrique.

"Não use a minha dor para se defender."

Marcelo continuou:

"Você perdeu Helena. Eu entendo. Mas agora está procurando um culpado porque não aceita a realidade."

Henrique ficou olhando para ele.

"Você não sabe nada sobre o que eu aceito."

Marcelo deu um passo à frente.

"Eu sei que você está destruindo sua própria família por causa de uma criança confusa."

A frase atingiu Henrique como um golpe.

Por alguns segundos, ele não respondeu.

Não porque não tinha palavras.

Mas porque aquela frase revelou exatamente o que Marcelo pensava.

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Para ele, Sofia era apenas uma criança.

Uma criança que poderia ser ignorada.

Uma criança que não deveria ser ouvida.

Henrique sentiu a raiva crescer.

"Não fale da minha filha dessa maneira."

Marcelo tentou manter a calma.

"Henrique, eu estou tentando ajudar você."

"Não."

A voz de Henrique ficou firme.

"Você está tentando me fazer duvidar dela."

Nesse momento, a porta da sala abriu lentamente.

Os dois homens olharam para trás.

Sofia estava parada ali.

Ela tinha vindo com Lucas até a empresa.

E tinha ouvido tudo.

Os olhos dela estavam cheios de lágrimas.

"Eu não estou confusa."

A voz pequena da menina fez Henrique perder completamente a expressão de raiva.

Ele se aproximou imediatamente.

"Sofia..."

Mas ela olhava para Marcelo.

"Minha mãe disse que ninguém acreditaria em mim."

Marcelo ficou desconfortável.

Henrique se ajoelhou diante da filha.

"Por que você veio aqui?"

A menina segurava algo nas mãos.

Um pequeno cartão de memória.

"Porque ainda tinha outra coisa."

Henrique ficou imóvel.

"Outra coisa?"

Sofia assentiu.

"Eu escondi porque fiquei com medo."

O coração de Henrique apertou.

Mais uma vez, sua filha tinha carregado um segredo sozinha.

Ela entregou o cartão.

"Minha mãe colocou isso dentro do telefone."

Lucas pegou o objeto com cuidado.

Alguns minutos depois, eles estavam novamente na sala de reunião.

O arquivo foi aberto.

A tela mostrou Helena.

Era um vídeo gravado provavelmente poucos dias antes da morte dela.

Henrique sentiu os olhos encherem de lágrimas ao ver a esposa novamente.

Ela parecia cansada.

Preocupada.

Mas determinada.

Helena olhou diretamente para a câmera.

"Henrique, se você está vendo esse vídeo, significa que eu não consegui contar tudo pessoalmente."

Ele segurou a mão de Sofia.

A voz de Helena continuou:

"Eu descobri coisas dentro da empresa que podem colocar nossa família em perigo."

Marcelo ficou parado.

Pela primeira vez, parecia realmente preocupado.

Helena continuou:

"Mas existe algo que você precisa saber sobre Sofia."

Henrique olhou para a filha.

A menina abaixou a cabeça.

Como se aquela lembrança ainda doesse.

Helena respirou fundo.

"Minha filha viu algo que ninguém viu."

A sala inteira ficou em silêncio.

Henrique sentiu o coração acelerar.

O vídeo continuou.

"Eu tentei proteger Sofia porque ela era apenas uma criança. Mas ela estava no lugar errado na hora errada."

Henrique olhou para a filha.

Então percebeu.

Sofia não guardou aquele telefone apenas porque a mãe pediu.

Ela guardou porque havia visto alguma coisa.

Algo relacionado à morte de Helena.

Lucas pausou o vídeo.

Ninguém falou por alguns segundos.

Marcelo desviou o olhar.

E aquele pequeno movimento não passou despercebido.

Henrique percebeu.

"Você sabia."

Marcelo levantou a cabeça.

"Sabia o quê?"

"Que Sofia tinha visto alguma coisa."

Marcelo ficou em silêncio.

Sofia começou a chorar.

Henrique a abraçou.

"Filha, você precisa me contar."

A menina fechou os olhos.

Durante dez meses, ela carregou aquela lembrança.

Durante dez meses, acreditou que falar poderia destruir sua família.

Mas agora ela estava diante do pai.

Diante da verdade.

"Sofia..."

A menina respirou profundamente.

Então abriu os olhos.

"Na noite que a mamãe morreu..."

Ela parou.

Henrique segurou sua mão.

"O que você viu?"

Sofia olhou para o vídeo da mãe.

Depois olhou para Marcelo.

E seu rosto mudou.

Era medo.

Mas também era uma lembrança voltando.

"Eu vi alguém perto do carro da mamãe antes dela sair."

Ninguém se moveu.

Henrique sentiu o corpo inteiro ficar gelado.

Porque naquele instante ele percebeu que a morte de Helena escondia algo muito maior.

Sua filha não era apenas alguém que guardou uma mensagem.

Ela poderia ser a única testemunha daquele dia.

A única pessoa que viu o que realmente aconteceu antes do acidente.

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