《O Segredo Que Minha Filha Guardou》Parte 3

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Naquela noite, Henrique Vasconcelos não conseguiu dormir.

A mansão do Jardim Europa estava em silêncio.

Mas, pela primeira vez em dez meses, aquele silêncio não parecia representar apenas saudade.

Parecia esconder uma verdade.

Ele ficou sentado no escritório da família, olhando para uma fotografia de Helena sobre a mesa.

Na imagem, ela sorria durante uma viagem que os dois fizeram para Campos do Jordão.

Era um sorriso que Henrique conhecia muito bem.

O sorriso de uma mulher que acreditava nas pessoas.

E talvez esse tivesse sido o maior erro dela.

Confiar em quem estava ao seu redor.

Henrique abriu novamente os arquivos do telefone.

Cada gravação revelava uma parte de um quebra-cabeça que ele nunca imaginou existir.

Helena desconfiava de alguém.

Helena estava investigando a própria empresa.

Helena sabia que algo perigoso estava acontecendo.

E agora ele precisava descobrir o que realmente aconteceu naquela estrada naquela noite.

Na manhã seguinte, Henrique chamou seu advogado de confiança.

Lucas Ferreira chegou cedo à mansão.

Ele era responsável pelos assuntos jurídicos da família Vasconcelos há quase quinze anos.

Conhecia a empresa.

Conhecia Helena.

E principalmente conhecia Henrique.

Assim que entrou no escritório, percebeu que algo estava errado.

"Henrique, você me ligou às seis da manhã. O que aconteceu?"

Henrique colocou o telefone sobre a mesa.

"Eu descobri que a morte da Helena pode não ter sido um acidente."

Lucas ficou em silêncio.

Por alguns segundos, ele apenas olhou para o amigo.

Aquela era uma frase difícil de aceitar.

A polícia havia encerrado o caso.

Todos haviam aceitado a versão oficial.

Helena perdeu o controle do carro.

A pista estava molhada.

O acidente aconteceu rapidamente.

Mas agora tudo parecia diferente.

Henrique mostrou os áudios.

Lucas ouviu cada palavra sem interromper.

Quando terminou, respirou profundamente.

"Você tem certeza de que esse telefone era da Helena?"

"Sofia recebeu dela antes da morte."

Lucas olhou para o aparelho.

"Então Helena sabia que estava em perigo."

Henrique fechou os punhos.

"E eu não estava lá para protegê-la."

Lucas percebeu a dor no olhar dele.

Mas naquele momento, eles não podiam pensar apenas como amigos.

Precisavam pensar como investigadores.

"Vou revisar todos os documentos do acidente."

Henrique levantou os olhos.

"Você acha que existe algo errado?"

Lucas demorou para responder.

"Eu acho que sua esposa era uma mulher muito cuidadosa. Se ela deixou essas gravações, é porque acreditava que ninguém ouviria a verdade se algo acontecesse."

As palavras ficaram na cabeça de Henrique.

Ninguém ouviria a verdade.

Mas Sofia ouviu.

E guardou.

Enquanto Lucas começava a investigar, Henrique foi até a antiga sala de Helena.

O quarto permanecia exatamente como ela havia deixado.

Os livros organizados.

As roupas no armário.

O perfume dela ainda estava sobre a penteadeira.

Por meses, Henrique evitou entrar ali.

Porque cada detalhe lembrava que ela não voltaria.

Mas agora ele procurava respostas.

Não lembranças.

Ele abriu algumas gavetas.

Encontrou documentos antigos.

Anotações.

Relatórios da empresa.

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E uma pequena agenda.

Na última página escrita por Helena havia apenas uma frase:

"Não confie em quem conhece todos os seus passos."

Henrique sentiu um arrepio.

Naquele momento, percebeu que Helena estava sendo observada.

Alguém sabia o que ela fazia.

Alguém acompanhava suas investigações.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Patrícia Montenegro estava completamente diferente da mulher calma que Henrique conhecia.

Dentro do apartamento dela em Moema, ela andava de um lado para o outro.

O rosto que sempre demonstrava elegância agora mostrava desespero.

Ela havia perdido o controle.

Henrique tinha o telefone.

Henrique tinha as gravações.

E pior.

Ele tinha começado a fazer perguntas.

Ela pegou o celular e ligou para alguém.

A chamada demorou alguns segundos para ser atendida.

Então uma voz masculina respondeu.

"Você sabe que não deveria me ligar."

Patrícia respirou fundo.

"Você prometeu que ninguém descobriria."

Do outro lado, houve silêncio.

Ela continuou, nervosa:

"Henrique encontrou o telefone da Helena."

A voz do homem mudou.

"Como isso aconteceu?"

"Estava com a menina."

"Você deixou Sofia ficar com aquilo esse tempo todo?"

Patrícia apertou os olhos.

"Eu não sabia que Helena tinha entregado para ela."

O homem ficou irritado.

"Você deveria ter encontrado antes."

Patrícia começou a andar pela sala.

"Você prometeu que tudo estaria resolvido."

"Está ficando nervosa."

"Nervosa? Henrique está investigando a morte dela."

A pessoa do outro lado ficou em silêncio por alguns segundos.

Então respondeu:

"Controle a situação."

Patrícia ficou parada.

"Eu não consigo mais controlar Henrique."

A ligação terminou.

Mas Patrícia não percebeu que, do lado de fora do prédio, alguém estava observando.

Henrique.

Depois de sair do escritório com Lucas, ele decidiu seguir alguns passos de Patrícia.

Não porque já tinha provas.

Mas porque agora sabia que havia algo escondido.

Ele precisava descobrir com quem ela estava falando.

E naquele momento conseguiu a primeira confirmação.

Patrícia não estava sozinha.

Naquela mesma tarde, Lucas voltou para a mansão com uma pasta.

Henrique percebeu imediatamente pela expressão dele que havia encontrado algo.

"Lucas."

O advogado colocou os documentos sobre a mesa.

"Eu revisei o relatório técnico do acidente."

Henrique se aproximou.

"E?"

Lucas abriu uma página marcada.

"O carro da Helena passou por uma manutenção três dias antes do acidente."

Henrique franziu a testa.

"Isso não apareceu no relatório policial."

"Porque a oficina informou apenas uma revisão comum."

Lucas apontou para os documentos.

"Mas existe uma alteração."

Henrique ficou em silêncio.

"O sistema de freios foi mexido."

Aquelas palavras destruíram a última esperança que ele tinha.

Durante dez meses, ele tentou acreditar que Helena apenas teve azar.

Que foi uma tragédia sem culpados.

Mas agora havia uma possibilidade muito pior.

Alguém poderia ter causado aquilo.

"Quem autorizou essa manutenção?"

Lucas olhou os registros.

"O pedido foi feito por uma pessoa ligada à empresa."

Henrique sentiu o coração acelerar.

"Quem?"

Lucas respirou fundo.

"Marcelo Ferraz Montenegro."

O nome caiu como uma pedra.

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Marcelo era seu amigo.

Seu sócio.

O homem que esteve ao lado dele durante anos.

Henrique pegou o telefone novamente.

Havia uma gravação de Helena mencionando que alguém dentro da empresa estava envolvido.

Agora existia um nome.

Naquela noite, Henrique chamou Patrícia para conversar.

Mas antes disso, ativou o gravador do próprio relógio.

Ele precisava ouvir a verdade sem que ela percebesse.

Patrícia entrou no escritório tentando parecer tranquila.

"Henrique, eu acho que essa situação saiu do controle."

Ele permaneceu olhando para os documentos.

"Você sabia que Helena investigava a empresa?"

Patrícia ficou imóvel por um instante.

"Não."

Henrique observou cada reação.

Cada movimento.

Cada pausa.

"Tem certeza?"

Ela tentou sorrir.

"Claro que tenho."

Mas Henrique já sabia.

Pessoas inocentes não precisavam pensar tanto antes de responder.

Ele deixou a conversa seguir.

Fez perguntas.

Ela negou tudo.

Disse que Helena estava confusa.

Disse que os áudios poderiam estar fora de contexto.

Mas quanto mais Patrícia falava, mais ela se entregava.

Quando Henrique perguntou sobre Marcelo, ela mudou completamente.

Um segundo.

Foi apenas um segundo.

Mas ele viu.

Depois que ela saiu do escritório, Henrique abriu a gravação.

A voz dela estava registrada.

Ele ouviu novamente.

E então percebeu algo.

Patrícia tinha medo de Marcelo.

Não era apenas uma parceria.

Era uma ligação baseada em culpa e medo.

No dia seguinte, Lucas conseguiu acesso a uma antiga câmera de segurança próxima ao local do acidente.

A imagem estava danificada.

Mas ainda era possível recuperar alguns segundos.

Henrique e Lucas assistiram juntos.

A estrada apareceu na tela.

O carro de Helena parado.

Alguns minutos antes do acidente.

Então uma pessoa surgiu caminhando perto do veículo.

Henrique se aproximou da tela.

Seu rosto perdeu a cor.

Lucas aumentou a imagem.

E naquele instante, a verdade começou a aparecer.

No vídeo, exatamente no dia da morte de Helena...

Marcelo Ferraz Montenegro estava parado ao lado do carro dela.

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