《“É Só Uma Criança”… Até Ela Destruir O Voo Inteiro》Parte 5

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Depois daquela conversa em Recife, Gabriel passou a pensar muito em Mariana e Sofia.

Ele poderia simplesmente seguir sua viagem.

Poderia esquecer tudo.

Afinal, aquele problema não era dele.

Mas havia algo naquela história que não saía da sua cabeça.

Não era a discussão no avião.

Não era o vídeo.

Era o olhar de Sofia.

Um olhar de uma criança que parecia acreditar que sempre haveria alguém para apagar seus erros.

Gabriel não via uma menina maldosa.

Via uma criança que nunca tinha aprendido onde terminava sua liberdade e começava o respeito pelo outro.

Por isso, antes de voltar para São Paulo, ele decidiu procurar algumas informações.

Não para prejudicar Mariana.

Mas porque precisava entender.

Ele começou conversando com Henrique, o advogado dos documentos molhados.

Depois falou com alguns passageiros que estavam no voo.

E descobriu algo que o surpreendeu.

O comportamento de Sofia não tinha começado naquele avião.

Era apenas mais um episódio.

Henrique contou que, durante o voo, havia percebido uma coisa.

"Sua filha não parecia arrependida. Ela parecia apenas esperar alguém resolver."

Aquela frase ficou na mente de Gabriel.

Ele então tentou descobrir mais sobre a rotina da menina.

Foi quando encontrou uma antiga professora de Sofia.

O nome dela era Patrícia Mendes.

Ela trabalhava em uma escola particular de São Paulo, no bairro de Moema.

Quando Gabriel explicou o motivo da conversa, a professora ficou alguns segundos em silêncio.

Como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.

"Eu não gosto de falar mal de uma mãe."

Gabriel respondeu:

"Eu não estou tentando encontrar alguém para culpar."

Patrícia respirou fundo.

"Então você precisa entender uma coisa. Sofia não é uma criança ruim."

Gabriel ouviu atentamente.

"Ela é uma criança inteligente, carinhosa e muito criativa. Mas ela aprendeu que, quando algo dá errado, sempre haverá alguém para defendê-la."

Aquelas palavras confirmavam exatamente o que ele tinha percebido.

A professora continuou:

"Durante meses tentei conversar com Mariana."

"E o que ela dizia?"

Patrícia abaixou o olhar.

"Que Sofia estava passando por uma fase difícil."

Gabriel ficou em silêncio.

A professora pegou alguns papéis antigos.

"Eles eram registros de situações que aconteceram na escola."

Gabriel analisou.

Havia pequenos acontecimentos.

Sofia interrompia colegas constantemente.

Não aceitava perder jogos.

Ficava irritada quando recebia uma correção.

Uma vez, durante uma atividade em grupo, ela pegou o material de outra criança sem pedir.

Quando a professora chamou atenção, Sofia respondeu:

"Minha mãe vai falar com você."

Gabriel fechou os olhos por alguns segundos.

Não era uma ameaça de uma criança.

Era uma frase aprendida.

Patrícia continuou:

"Eu chamei Mariana para conversar."

"E como foi?"

A professora hesitou.

"Ela chorou."

Gabriel ficou surpreso.

"Chorou?"

"Sim. Ela disse que estava fazendo tudo sozinha. Que depois da morte de Felipe, ela tinha medo de falhar como mãe."

Naquele momento, Gabriel entendeu que existia uma história muito maior por trás.

Mariana não era uma mãe indiferente.

Muito pelo contrário.

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Ela amava Sofia profundamente.

Talvez até demais.

O problema era que aquele amor vinha acompanhado de medo.

Medo de perder a filha.

Medo de ver a menina sofrer.

Medo de repetir a dor que sentiu quando perdeu Felipe.

Mas ao tentar evitar todo sofrimento, ela acabou impedindo Sofia de aprender.

Quando Gabriel saiu da escola, recebeu uma ligação inesperada.

Era Camila Ribeiro, irmã de Mariana.

Ele não sabia como ela tinha conseguido seu contato.

"Eu preciso falar com você."

Gabriel percebeu o tom de urgência.

"Sobre o quê?"

"Sobre minha irmã."

Eles se encontraram em uma cafeteria próxima à Avenida Paulista alguns dias depois.

Camila chegou nervosa.

Desde o começo, deixou claro que estava do lado de Mariana.

"Eu sei que todo mundo está criticando minha irmã."

Gabriel ficou calado.

"Mas ninguém sabe o que ela passou."

Ele concordou.

"Eu sei que ela ama Sofia."

Camila pareceu surpresa.

"Então por que você está tentando destruir a imagem dela?"

Gabriel respondeu:

"Eu não estou tentando destruir ninguém."

Camila cruzou os braços.

"Mas foi isso que aconteceu."

Gabriel olhou para ela.

"Camila, você acha que uma criança cresce bem acreditando que nunca está errada?"

Ela demorou para responder.

"Eu acho que uma criança precisa se sentir amada."

"E você acha que colocar limites significa não amar?"

Camila ficou em silêncio.

Porque aquela pergunta também era difícil para ela.

Ela sempre havia defendido Mariana.

Sempre dizia que Sofia merecia tudo.

Mas talvez nunca tivesse parado para pensar no motivo.

Enquanto isso, em Recife, Mariana tentava reconstruir sua rotina.

Mas a pressão continuava.

Ela evitava redes sociais.

Não queria ler mais comentários.

Não queria ver pessoas julgando sua família.

Sofia percebeu.

"Mãe, você está triste comigo?"

Mariana imediatamente respondeu:

"Claro que não."

Mas dessa vez sua voz não tinha a mesma certeza de antes.

A menina ficou olhando para ela.

Como se estivesse tentando entender algo.

Naquela noite, Mariana abriu uma caixa antiga.

Dentro havia fotos de Felipe.

Fotos dos três juntos.

Ela segurou uma imagem onde Felipe segurava Sofia ainda bebê.

E lembrou de uma conversa que tiveram pouco antes da morte dele.

Ele tinha dito:

"Mariana, um dia ela vai precisar ouvir não de você."

Na época, ela riu.

Achou impossível.

Como poderia negar algo para a filha que já tinha perdido o pai?

Agora, anos depois, aquela lembrança doía.

Porque talvez Felipe estivesse certo.

No dia seguinte, Gabriel recebeu uma mensagem de Patrícia.

Era uma foto de um documento.

Uma carta escrita por Sofia durante uma atividade escolar.

O tema era:

"O que minha mãe faz por mim."

Gabriel abriu a imagem.

As primeiras frases eram inocentes.

Sofia dizia que Mariana era a melhor mãe do mundo.

Que preparava sua comida favorita.

Que comprava seus presentes.

Que sempre ficava do lado dela.

Mas então chegou a última frase.

A frase que fez Gabriel ficar parado olhando para a tela por vários segundos.

Porque naquela pequena carta de uma criança de oito anos estava escrito exatamente o que revelava todo o problema:

"Minha mãe sempre deixa eu ganhar."

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