Capítulo 10: O Acerto de Contas Final
O eco da chave prateada arremessada na lama da estufa ainda parecia vibrar nas paredes de vidro da mansão, mas a hesitação havia morrido ali. Valentina não era mais a prisioneira acuada que chorava por uma rota de fuga; ela havia aceitado as correntes e decidido forjá-las com as próprias mãos.
No escritório particular de Lorenzo, as cortinas de veludo continuavam fechadas, bloqueando a luz do mundo exterior que já não importava para nenhum dos dois. Sobre a imensa mesa de mogno, dezenas de telas digitais e terminais criptografados iluminavam o ambiente com um brilho azulado e futurista.
"O sindicato de Mateo opera como um polvo com tentáculos espalhados pelas docas de Santos e pelas galerias de fachada em Higienópolis", explicou Lorenzo, com a voz baixa e cortante de um estrategista militar.
"Eles lavam o dinheiro do tráfico de antiguidades falsificadas usando contas em offshores nas Ilhas Cayman", completou Valentina, inclinando-se sobre a tela com os olhos esmeralda faiscando de uma fria determinação.
Ela já não tremia ao ver os dossiês que ele compilara ao longo de anos; pelo contrário, cada documento representava a munição perfeita para a vingança. Lorenzo a observava de canto de olho, completamente intoxicado pela forma como ela havia abraçado a escuridão sem pestanejar.
A mente de Valentina, antes focada apenas na delicizade da restauração artística, agora operava com a precisão letal de uma arquiteta da ruína alheia. Ela indicou três nomes-chave na rede de lavagem de dinheiro, apontando os contatos exatos que Mateo utilizava para burlar a alfândega.
"Esses três marchands são os pilares financeiros de toda a operação dele", disse Valentina, apontando com a unha pintada de vermelho para o monitor. "Se cortarmos a liquidez deles hoje, o império de Mateo desmorona antes que o sol se ponha amanhã."
"Você tem uma mente brilhante para a destruição, passarinha", murmurou Lorenzo com um sorriso perverso e profundamente admirado nos lábios.
"Eu aprendi com o melhor", retrucou ela com ironia, lançando-lhe um olhar carregado de uma eletricidade crua e indomável.
"Execute o protocolo de aniquilação total", ordenou Lorenzo ao microfone do terminal principal, ativando Silas e toda a rede de inteligência dos Malheiros.
O que se seguiu nas vinte e quatro horas seguintes foi uma demonstração assustadora e impecável de poder absoluto e impiedoso. Utilizando o império financeiro dos Malheiros como um martelo invisível, Lorenzo começou a esmagar cada engrenagem do sindicato de Mateo.
Contas bancárias offshore foram congeladas por ordens judiciais emitidas em caráter de urgência máxima através de conexões políticas intocáveis. As galerias de fachada do cartel amanheceram lacradas pela Receita Federal, com dezenas de agentes federais apreendendo o estoque ilegal.
Em menos de doze horas, os sócios e capangas de Mateo começaram a trair uns aos outros, sufocados pelo pânico e pela falta de recursos líquidos. A derrocada do sindicato foi espetacular, pública e implacável, estampando os jornais da manhã com manchetes sobre a maior operação anticorrupção da década.
Valentina assistia a tudo através dos monitores de alta definição da sala de segurança, vendo o exato momento em que a polícia invadia a cobertura de Mateo. O homem que tentara caçá-la nas ruas escuras de São Paulo apareceu algemado, com o rosto pálido e completamente arruinado perante a opinião pública.
"Ele acabou", murmurou Valentina, sentindo um peso invisível desabar de suas costas enquanto via o inimigo ser conduzido para uma cela sem volta.
"Ninguém ousa tocar no que pertence a esta casa e continua respirando impunemente", afirmou Lorenzo, parando logo atrás dela e envolvendo sua cintura.
O império dos Malheiros estava limpo de qualquer ameaça externa, e os fantasmas do passado de Valentina haviam sido finalmente incinerados até virarem pó. Não havia mais inimigos à espreita nas esquinas, nem segredos a serem descobertos nos cofres trancados da mansão nas colinas.
Restava apenas o fogo incontrolável, bruto e febril que ardia naqueles corpos que haviam escolhido queimar juntos na mesma loucura. Lorenzo virou Valentina bruscamente para si, sepultando os dedos firmemente em seus cabelos castanhos-dourados com uma urgência desesperada.
"Você ganhou a guerra, meu amor", sussurrou ele contra os lábios dela, com as pupilas dilatadas de uma adoração quase maníaca.
"A guerra só acaba quando você aceitar que eu nunca vou fugir", respondeu Valentina, arqueando o corpo contra o dele sem hesitar um segundo sequer.
Lorenzo a puxou para um beijo profundo, feroz e destrutivo, que parecia sugar todo o oxigênio restante ao redor deles. As mãos dele ainda traziam o peso do poder absoluto e o rastro invisível do sangue derramado para mantê-la a salvo.
Mas ao tocar o rosto dela, o toque era o de um devoto prestando culto à sua única divindade na face da terra. Diante dos monitores que exibiam os destroços do império inimigo, eles se beijaram, selando a eternidade de sua prisão mútua e perfeita.