Capítulo 7: O Sangue nas Mãos do Anjo
O cheiro de pólvora e chuva pesada misturava-se ao aroma amadeirado da colônia de Lorenzo dentro do interior luxuoso do Mercedes blindado. Valentina estava encolhida no estofado de couro macio, tremendo incontrolavelmente enquanto a água da chuva escorria de suas roupas encharcadas.
Fora dos vidros fumês e blindados, a rua escura de Pinheiros transformara-se em um campo de execução silencioso e cirúrgico. Os homens de Silas executavam a limpeza da área com uma eficiência aterradora, garantindo que nenhum rastro da emboscada restasse.
Lorenzo permaneceu sentado ao lado dela, com os punhos da camisa social branca completamente manchados de um vermelho escuro e espesso. Ele não parecia se importar com o próprio sangue ou com a carnificina que se desenrolava a poucos metros de distância da lataria.
Com movimentos lentos e calculados, ele umedeceu um lenço de linho puro em uma garrafa de água mineral gelada que estava no console central. Seus olhos de âmbar dourado fixaram-se no rosto pálido de Valentina, repletos de uma devoção tão doentia que chegava a ser sufocante.
"Deixe-me ver, passarinha", murmurou ele, com a voz rouca e surpreendentemente mansa, erguendo a mão enluvada de sangue na direção dela.
"Não me toque...", balbuciou Valentina, com os dentes batendo de frio e o olhar travado em um estado de choque traumático profundo.
Lorenzo ignorou a recusa com uma paciência infinita, levando o lenço umedecido até a bochecha dela com uma delicadeza assustadora. Ele limpou o filete de lama e sangue seco que manchava sua pele clara, como se estivesse manuseando a obra de arte mais frágil do mundo.
"Eles quase tocaram em você", sussurrou Lorenzo, e o tom de voz dele mudou de repente, adquirindo o timbre de um predador ferido.
"Eu odeio você... Por que você não me deixou ir?", choramingou Valentina, sentindo as lágrimas quentes misturarem-se à água da chuva em seu queixo.
"Porque o mundo lá fora não sabe apreciar o que é sagrado", respondeu ele, passando o polegar trêmulo pelos lábios pálidos dela. "Eles queriam destruir você, Valentina. E eu sou o único autorizado a queimar o seu mundo, se for necessário."
Aquelas palavras pesaram no ar abafado do carro como uma sentença irrevogável, ecoando o verdadeiro significado de sua obsessão lunática. Ele podia destruí-la por dentro com suas regras, seu confinamento e suas mentiras, mas jamais permitiria que um estranho a arranhasse.
Pela primeira vez desde que acordara na suíte de vidro, a armadura de revolta de Valentina cedeu sob o peso daquela constatação aterrorizante. O mundo exterior não era a liberdade pela qual ela clamara; era um abismo faminto, e a gaiola de Lorenzo era o único escudo existente.
"Eles... Eles sabiam sobre o meu passado... Sobre a galeria do meu pai", conseguiu balbuciar ela, olhando para o peito manchado de sangue dele.
"Sim, eles sabiam", confirmou Lorenzo com um sorriso gélido e sombrio nos lábios, acariciando os cabelos castanhos-dourados encharcados dela. "O mandante dessa pequena caçada ainda está vivo, respirando o mesmo ar que nós, planejando destruir o que restou do seu legado."
O estômago de Valentina deu uma volta completa com a revelação, fazendo-a prender a respiração em uma mistura de pavor e raiva contida.
"Quem é?", perguntou ela, tateando a manga da camisa dele com os dedos trêmulos. "Quem está por trás disso tudo?"
"Um verme que ousa achar que pode herdar o que pertence à sua família por direito de sangue", respondeu Lorenzo, com as pupilas dilatadas de ódio puro. "Mas não se preocupe com ele, passarinha. Eu já dei a ordem para que o império dele vire cinzas antes do amanhecer."
"Você vai matar mais pessoas?", sussurrou Valentina, encarando as mãos ensanguentadas do homem que a aterrorizava e protegia ao mesmo tempo.
"Eu destruirei cidades inteiras se for o preço a pagar para garantir que ninguém ouse encostar um único dedo em você", garantiu ele solenemente.
Fora do veículo, os faróis de um segundo carro da segurança acenderam-se, sinalizando que a via pública estava completamente limpa e desimpedida. O motorista engatou a marcha silenciosamente, preparando-se para retornar à segurança isolada da mansão nas colinas de São Paulo.
Valentina sentiu o corpo ceder à exaustão física e mental, com a mente girando em círculos entre o horror dos assassinatos e a proteção sufocante. Antes que ela pudesse formular qualquer outra pergunta, os braços fortes de Lorenzo envolveram sua cintura com uma possessividade inegociável.
Ele a puxou firmemente para o seu colo, aninhando-a contra o próprio peito largo, ignorando o fato de que o vestido dela estava encharcado.
Com uma mão firme na nuca de Valentina, Lorenzo pressionou o rosto dela contra o tecido da camisa manchada de sangue, escondendo-lhe a visão.
"Feche os olhos, amor", ordenou ele em um sussurro possessivo e urgente, enquanto o Mercedes arrancava suavemente pela rua chuvosa. "Não olhe para fora. Deixe que eu absorva todo o sangue por você."
No banco de trás do carro blindado, encoberta pelo abraço sufocante do monstro, Valentina fechou os olhos e permitiu-se ser engolida pela escuridão.