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《O Preço da Sombra》Capítulo 6

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Capítulo 6: A Fuga e a Realidade Cruel

O ar frio da madrugada cortou a pele febril de Valentina como lâminas de vidro no instante em que ela cruzou o portão principal da mansão. A ausência de guardas visíveis não era um descuido, mas sim a prova cruel de que Lorenzo conhecia cada centímetro daquela floresta isolada.

A chuva fina de São Paulo transformara-se em um temporal implacável, castigando o asfalto e encharcando seus cabelos castanhos-dourados. Ela correu descalça pela estrada de cascalho, sentindo as pedras cortarem a sola de seus pés, mas a dor física era invisível diante da ânsia por respirar ar livre.

Após caminhar quilômetros sob o aguaceiro, ignorando a exaustão extrema das quarenta e oitos horas de confinamento, ela finalmente alcançou a rodovia estadual. Um táxi solitário reduziu a velocidade ao vê-la acenando desesperadamente no acostamento escuro, e ela despencou no banco traseiro com o fôlego picotado.

"Para a zona central, por favor", balbuciou Valentina, encolhendo os braços molhados enquanto o motorista a fitava pelo retrovisor com desconfiança.

O trajeto durou uma eternidade pontuada pelo som rítmico dos limpadores de para-brisa limpando a água que distorcia as luzes da metrópole. Quando o veículo a deixou perto do bairro de Pinheiros, a sensação de triunfo efêmero inundou seu peito ferido.

Ela estava livre. Havia escapado da gaiola de vidro, do monstro de olhos de âmbar e das correntes invisíveis que a sufocavam havia semanas.

Contudo, a liberdade durou exatamente o tempo que ela levou para virar a primeira esquina escura e deserta daquela madrugada chuvosa. Passos pesados e rítmicos começaram a ecoar logo atrás dela, rebatendo contra as paredes de tijolos aparentes dos velhos galpões.

Valentina apressou o passo, olhando por cima do ombro e avistando duas silhuetas encapuzadas que a seguiam com uma precisão cirúrgica.

"Ora, ora, vejam o que o vento da chuva trouxe para nós", uma voz grossa e zombeteira cortou o som da água que escorria pelas calhas.

O pânico paralisou suas pernas por um segundo antes de o instinto de sobrevivência gritar alto em sua mente exausta e trêmula. Ela arrancou a correr em direção a um beco estreito, mas os homens fecharam o cerculho com uma rapidez assustadora e coordenada.

"Vocês estão me perseguindo por quê?", gritou Valentina, recuando até as costas colarem-se contra a parede de concreto encharcada.

Um homem alto e de traços marcados emergiu da penumbra, sorrindo de forma cínica enquanto limpava a água da aba do capuz. Era Mateo, o agiota e sicário implacável do submundo das falsificações de arte, conhecido por não deixar testemunhas vivas.

"O seu querido ex-chefe levou segredos para o túmulo, gatinha, mas nós sabemos que você guardava as cópias das pinturas originais", sibilou Mateo.

"Eu não sei do que você está falando! Deixe-me em paz!", retrucou Valentina, sentindo o suor frio misturar-se à chuva em sua testa.

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"O patrão quer você e quer o que sobrou daquele inventário antes que o grande filantropo descubra onde você se meteu", avançou Mateo.

O estômago de Valentina despencou em uma vertigem de pura pavor mortal ao perceber a verdade esmagadora daquela situação limite. O mundo exterior pelo qual ela tanto lutara para alcançar não era um lugar de redenção, mas sim um matadouro de monstros reais.

A mansão de Lorenzo, por mais sufocante e tirânica que fosse, impedia que escórias como Mateo ousassem sequer pronunciar seu nome na rua. Ela havia implorado para sair da gaiola dourada, sem entender que estava correndo direto para as mandíbulas de lobos famintos.

"Acabe com ela de uma vez e vamos sair desta chuva", ordenou Mateo, gesticulando com impaciência para o capanga ao seu lado.

O capanga sacou uma pistola com silenciador embutido, apontando o cano escuro diretamente para o meio da testa de Valentina. Ela fechou os olhos verdes com força, aceitando o fim inevitável e lamentando ter sido tão tola a ponto de desprezar sua única proteção.

"Adeus, passarinha", pensou ela, ouvindo o som metálico do gatilho sendo armado no silêncio daquele beco sem saída.

No entanto, o disparo que rasgou o ar não veio da arma do sicário, mas sim de um ponto cego localizado nas alturas do telhado. Um tiro certeiro e estridente estilhaçou o silêncio da tempestade, ecoando de forma ensurdecedora entre as paredes estreitas de concreto.

O capanga que segurava a arma deu um passo em falso, com os olhos arregalados de surpresa antes de despencar inerte sobre as poças de lama. Mateo deu um grito de susto, sacando sua própria faca, mas antes que pudesse girar o corpo, o segundo tiro atingiu seu joelho.

O sicário caiu urrando de dor no chão encharcado, contorcendo-se enquanto o sangue tingia a água da chuva de um tom rubro escuro. Valentina abriu os olhos lentamente, tremendo da cabeça aos pés, incapaz de processar a velocidade com que a execução sumária ocorrera.

Das sombras mais densas do final do beco, onde a luz amarela dos postes mal conseguia penetrar, uma figura alta começou a caminhar. O terno escuro estava encharcado, colado ao corpo atlético, e os cabelos castanhos desmanchavam-se em mechas molhadas sobre a testa.

Era Lorenzo. Os olhos de âmbar dourado brilhavam na escuridão com uma intensidade aterrorizante, desprovidos de qualquer resquício de humanidade.

Ele caminhou devagar sobre a lama, ignorando o sangue que escorria por seus dedos e manchava os punhos de sua camisa de grife. Em sua mão direita, ele segurava uma pistola semiautomática com o cano ainda fumegando levemente sob a neblina da madrugada.

Mateo tentou arrastar-se para longe, mas o sapato de sola de couro de Lorenzo pisou impiedosamente sobre sua mão, esmagando os ossos.

"Ninguém toca no que é meu", a voz de Lorenzo saiu como um rosnado mortal, frio e desprovido de qualquer misericórdia terrena.

Valentina cambaleou para a frente, com os lábios pálidos e o corpo em completo estado de choque diante daquela cena de carnificina pura. Lorenzo virou o rosto para ela, e a fúria cega em suas pupilas dilatadas transformou-se instantaneamente em uma obsessão faminta e protetora.

Ele jogou a arma no chão, abriu os braços ensanguentados na chuva e avançou para apanhar a prisioneira que tentara voar para longe.

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