Capítulo 1: A Gaiola de Vidro e O Despertar
O perfume de jasmim fresco pairava no ar, sufocante e pesado. Valentina abriu os olhos lentamente, piscando contra a claridade fria de uma suíte que parecia pertencer a uma galeria de arte moderna, mas cujas paredes eram de vidro blindado.
Sua cabeça latejava com uma dor lancinante, lembrando-lhe o beco escuro em São Paulo, o baque surdo e a escuridão repentina. Ela tentou se levantar, mas o corpo parecia pesado, entorpecido por algum sedativo de alta potência.
O silêncio ao redor era absoluto, cortado apenas pelo zumbido quase imperceptível de um sistema de ventilação futurista. As cortinas estavam trancadas, e a porta principal não tinha maçaneta do lado de dentro.
Uma silhueta alta emergiu das sombras do outro lado do vidro reforçado. O terno cinza-chumbo estava impecável, e o cabelo castanho-escuro caía em ondas discretas sobre a testa.
Era Lorenzo Malheiros. O homem que o Brasil inteiro aplaudia nas capas de revistas de negócios e nos telejornais como o filantropo mais generoso da década.
O mesmo homem cujos olhos de âmbar dourado a fitavam agora com uma fome tão crua e febril que parecia queimar o próprio vidro. Valentina deu dois passos para trás, a respiração presa na garganta enquanto o pânico puro começava a tomar conta de suas veias.
"Você finalmente acordou, passarinha", a voz dele soou abafada pelos alto-falantes embutidos na parede, fria e calma como a superfície de um lago congelado.
"O que é isso? Quem você pensa que é para me trazer para cá?", a voz dela saiu trêmula, mas carregada de uma raiva incipiente que brotava do fundo de sua alma.
"Eu sou o homem que gastou os últimos cinco anos garantindo que o mundo não tocasse em você", respondeu Lorenzo, sem que um único músculo do seu rosto perfeito se contraísse.
"Você está louco! Me deixe sair daqui agora mesmo ou eu juro que chamo a polícia!", Valentina gritou, avançando em direção ao vidro e batendo com as palmas das mãos trêmulas na superfície fria.
"Nenhuma autoridade neste país vai ouvir você, Valentina", disse ele com uma serenidade aterrorizante. "E mesmo se ouvissem, ninguém teria coragem de atravessar os portões que eu construí."
O pânico em seu peito transformou-se instantaneamente em um ódio profundo e visceral. Seus olhos esmeralda faiscaram com uma fúria indomável que fez as pupilas de Lorenzo dilatarem ainda mais do outro lado.
Seus dedos tocaram a mesinha de centro ao lado da cama, onde repousava um vaso de cristal maciço com rosas vermelhas. Sem pensar duas vezes, Valentina agarrou o objeto com toda a força que restava em seus braços.
"Fique longe de mim, seu monstro!", berrou ela, arremessando o vaso com toda a fúria diretamente contra o vidro blindado.
O impacto produziu um estalo seco e estridente que ecoou pela suíte espaçosa. O vidro resistiu bravamente, nem sequer arranhando, mas a violência do gesto pareceu divertir o homem.
Lorenzo não recuou um centímetro sequer. Em vez de se enfurecer, os lábios finos dele se curvaram em um sorriso lento, fascinado e profundamente doentio.
Aquele sorriso sutil provava, sem sombra de dúvida, que a fera finalmente havia recolhido sua presa favorita para o fundo da toca.
"Você tem fogo nas veias, passarinha", murmurou ele através do alto-falante, a voz tingida por uma reverência macabra. "Sempre soube que você seria indomável."
"Eu prefiro morrer a ficar um segundo a mais trancada com um psicopata como você!", sibilou ela, com os punhos cerrados e o peito arfando violentamente.
"A morte não é uma opção que eu vá permitir", respondeu Lorenzo com uma tranquilidade glacial que cortava como navalha. "Você acha que está sofrendo agora, Valentina? Acha que este lugar é um inferno?"
"Você é o próprio demônio!", ela cuspiu as palavras com nojo.
"Eu sou o único escudo que te separa do abismo", rebateu ele, dando um passo mais perto do vidro. "No mundo real, fora destas paredes, você nunca esteve a salvo nem por um único segundo."
"Do que você está falando? Eu vivia muito bem antes de você me arrastar para esta gaiola!", ela gritou, sentindo as lágrimas de frustração ameaçarem queimar seus olhos.
"Você era uma presa vagando em campo aberto, cercada por chacais que queriam destruir tudo o que seu pai deixou", disse Lorenzo, sua voz endurecendo de relance. "Eles apenas não tiveram a chance porque eu estive limpando o caminho antes que pudessem te ver."
"Mentira! Suas desculpas de psicopata não vão me convencer de que me sequestrar é um ato de caridade!", Valentina rebateu, cravando as unhas nas palmas das mãos.
"Não preciso que você entenda agora", respondeu ele, recuando levemente e apertando um botão no painel embutido na parede. "O tempo vai te ensinar que tudo o que faço é para mantê-la inteira."
Uma fresta na base da parede de vidro se abriu, e uma bandeja prateada com comida fresca e água foi empurrada para dentro da suíte.
"Não vou comer nada vindo de você", disse Valentina, cruzando os braços com obstinação.
"Você vai comer, vai dormir e vai aprender a aceitar as regras da sua nova casa", disse Lorenzo, com um tom de aviso velado. "Porque se você passar fome, quem vai sofrer sou eu — e eu costumo ser implacável quando me sinto culpado."
"Você é doente", sussurrou ela, virando-lhe as costas e caminhando para o canto mais distante da suíte.
Lorenzo permaneceu em silêncio por alguns instantes, observando cada movimento rígido do corpo dela através das câmeras e do vidro. O vaso que ela havia arremessado ricocheteara e caíra no chão do lado de fora, estilhaçando-se em dezenas de cacos cristalinos que agora se espalhavam pelo carpete da antessala.
Com um movimento calmo, ele abriu a porta lateral que dava acesso direto ao interior da suíte de contenção. Valentina se virou rapidamente ao ouvir o som da tranca se abrindo, tensa como um animal selvagem acuado.
Mas Lorenzo não entrou para subjugá-la ou tocá-la à força. Ele apenas ajoelhou-se calmamente sobre os cacos de vidro espalhados pelo chão, ignorando a lâmina afiada que perfurou a sola de seu sapato e o tecido fino de sua meia.
Um filete de sangue escuro começou a manchar o carpete branco, mas o rosto dele permaneceu completamente impassível, sem um único sobressalto de dor.
Seus olhos de âmbar dourado nunca se desviaram dos olhos verdes e arregalados de Valentina, mantendo uma conexão visual intensa e sufocante.
"Deixe que o vidro te corte se for preciso", disse ele com a voz baixa e rouca, recolhendo os cacos maiores com as mãos nuas, deixando o sangue escorrer livremente por seus dedos. "Mas eu jamais deixarei que uma única lasca do mundo ouse arranhar a sua pele."
Valentina prendeu a respiração, a náscara de pavor misturando-se a um calafrio inexplicável que subiu pela sua espinha.
Lorenzo terminou de recolher os cacos, levantou-se com a mesma elegância letal de sempre, e deu um passo para trás, saindo da suíte. A porta pesada fechou-se com um clique metálico e definitivo, trancando-a novamente no silêncio daquela gaiola de vidro.