Capítulo 07: O Vento do Atlântico
O cheiro de maresia, sal e terra molhada misturava-se à brisa suave que soprava do Atlântico pelas ruas históricas de Paraty.
Três dias haviam se passado desde a noite da tempestade em São Paulo, e Helena tentava desesperadamente reconstruir sua alma estilhaçada naquele refúgio costeiro.
A antiga casa de praia da família, escondida entre coqueiros e buganvílias, oferecia um silêncio reconfortante que parecia curar as feridas abertas em seu peito.
Ela adotara o nome falso de Mariana para conseguir um emprego discreto em um café rústico e acolhedor situado bem em frente à baía de águas calmas.
"Você está muito pensativa hoje, Mariana", Tiago comentou com um sorriso caloroso nos lábios, limpando o balcão de madeira com um pano limpo.
O rapaz de vinte e quatro anos, com a pele bronzeada pelo sol da Bahia e os cabelos cacheados caídos na testa, tornara-se seu porto seguro temporário.
"Apenas cansada das lembranças da cidade grande, Tiago", Helena respondeu forçando um sorriso polido enquanto organizava xícaras de cerâmica na prateleira.
"Aqui em Paraty o tempo passa mais devagar, ninguém carrega o peso do mundo por muito tempo", Tiago disse com um tom otimista, tentando animá-la. "O mar leva tudo embora."
"O mar é grande demais para carregar o peso dos erros de outras pessoas", Helena murmurou, olhando através da janela de vidro em direção ao horizonte azul e infinito.
Apesar da beleza exuberante daquela cidade colonial, uma sensação de opressão sutil começava a crescer em seu estômago a cada hora que passava.
Era a intuição feroz de quem aprendeu a reconhecer o perigo, a certeza silenciosa de que monstros do calibre de Lorenzo Valeri não aceitam derrotas facilmente.
O movimento no café aumentou por volta do meio-dia, com turistas estrangeiros e locais procurando sombra e bebidas refrescantes para fugir do calor tropical.
"Mariana, mesa quatro precisa de dois cafés espressos e uma torta de limão", Tiago chamou apressado, entregando a bandeja de prata nas mãos dela.
"Já estou indo", Helena respondeu, endireitando o avental de linho cru antes de caminhar entre as mesas rústicas do estabelecimento à beira-mar.
O sol escaldante refletia nas vidraças do café, criando um mosaico de luzes douradas que dançavam sobre as paredes caiadas de branco.
Ela serviu o pedido com elegância profissional, ouvindo os agradecimentos cordiais dos clientes sem erguer os olhos do chão de tábuas corridas.
Ao se virar para retornar ao balcão, seu reflexo cruzou com a superfície espelhada de um grande quadro decorativo pendurado na parede lateral.
No vidro do espelho, bem atrás de seu ombro esquerdo, a silhueta alta, imponente e inconfundível de um homem vestindo camisa preta de linho recortou-se com nitidez.
O sangue de Helena gelou instantaneamente nas veias, fazendo com que a bandeja metálica quase escorregasse de suas mãos trêmulas e caísse no chão.
Ela virou o corpo bruscamente, com o coração disparado contra as costelas, procurando com os olhos verdes pavorosos entre os poucos clientes restantes na sala.
Mas a mesa onde o reflexo aparecera segundos antes agora estava completamente vazia, ocupada apenas por uma xícara de café fumegante e um pequeno guardanapo branco.
"Mariana, você está pálida como um fantasma", Tiago comentou preocupado, aproximando-se rapidamente ao notar a respiração curta e descompassada dela. "Aconteceu alguma coisa?"
"Não... não é nada, acho que foi apenas a queda de pressão por causa do calor", Helena mentiu, sentindo o suor frio escorrer por sua espinha dorsal.
Ela caminhou trêmula até a mesa suspeita, estendeu os dedos trêmulos e puxou o guardanapo de papel que trazias palavras escritas à mão com tinta preta.
A caligrafia firme, aristocrática e cortante fez com que o ar sumisse de seus pulmões de maneira definitiva: "Você esqueceu que o mar inteiro é meu território, Helena."
"Quem deixou isso aqui?", ela perguntou com a voz estrangulada, virando-se para Tiago com os olhos arregalados de puro pavor.
"Um homem elegante de terno escuro que passou por aqui há um minuto, por quê?", Tiago respondeu confuso, franzindo a testa diante da reação desesperada da colega. "Ele disse que era um velho amigo da sua família."
Aquelas palavras soaram como o toque de uma sentença de morte na mente de Helena, confirmando que a trégua havia acabado para sempre.
Sem pensar nas consequências, ela arrancou o avental de trabalho, jogou-o sobre a mesa e deu dois passos para trás com o desespero estampando seu rosto.
"Mariana, aonde você vai?", Tiago gritou estendendo a mão para segurá-la, assustado com a mudança repentina de comportamento da moça.
"Eu preciso ir, Tiago, me desculpe!", Helena gritou de volta, virando as costas em disparada para a porta dos fundos do café.
Ela atravessou a cozinha correndo, assustando os cozinheiros, e empurrou a porta de madeira que dava diretamente para uma viela estreita de paralelepípedos antigos.
O sol escaldante do Rio de Janeiro bateu em seu rosto como uma bofetada quando ela começou a correr desesperadamente pelas ruas sinuosas do centro histórico.
O som de seus passos ecoava de forma caótica contra as paredes coloridas das casinhas coloniais, enquanto o vento do Atlântico chicoteava seus cabelos soltos.
Ela sabia que correr por Paraty não adiantaria nada se o homem que controlava São Paulo inteira decidisse fechar o cerco ao seu redor.
Mas o instinto primário de sobrevivência exigia que ela fugisse, mesmo sabendo que a caçada mal acabara de começar sob o sol tropical do litoral.
As paredes caiadas passavam como borrões coloridos enquanto suas pernas forçavam o ritmo em meio ao calçamento irregular.
O calor úmido colava a blusa em suas costas, mas o pavor que sentia era muito mais gélido do que qualquer brisa marinha.
A cada esquina, o eco de passos firmes parecia segui-la a uma distância calculada, como se o próprio destino estivesse brincando com seu desespero.
Ela cruzou a praça principal, ignorando os olhares curiosos dos moradores locais que descansavam à sombra das amendoeiras.
O objetivo era alcançar a antiga estrada de terra que levava à península, onde acreditava poder se perder na densa vegetação da Mata Atlântica.
No entanto, a cada metro percorrido, a claustrofobia costeira a apertava mais, transformando o paraíso tropical em uma cela sem grades.
"Você não vai conseguir correr para longe de mim, passarinho", a voz de Lorenzo ecoou nitidamente em sua mente, como se ele estivesse sussurrando em seu ouvido.
Helena balançou a cabeça com força para afastar aquela alucinação auditiva e dobrou mais uma vez à esquerda, entrando em um beco estreito sem saída.
O beco era cercado por muros altos de pedra musgosa e portas de madeira pesada trancadas, formando uma armadilha perfeita.
Ela parou de chofre, apoiando as mãos trêmulas contra o muro úmido e arfando pesadamente enquanto tentava recuperar o controle de sua respiração.
O som de passos calmos, decididos e metódicos começou a ecoar na entrada daquele beco sem saída, confirmando o seu pior pesadelo.
Lorenzo apareceu na penumbra da entrada, bloqueando a única rota de fuga com a imponência de uma sombra inegociável.
Ele não corria; caminhava com a paciência sádica de um caçador que sabia exatamente o momento em que a presa se daria por vencida.
"A brincadeira de esconder acabou, Helena", ele disse com a voz baixa e perfeitamente controlada, parando a poucos metros de distância dela.
Helena endireitou o corpo, virando-se para enfrentá-lo com os olhos verdes brilhando de puro ódio e uma coragem desesperada.
"Você é doente, Lorenzo", ela sibilou, encurralada contra a parede de pedra. "Você nunca vai me ver sorrir ao seu lado."
"Eu não preciso do seu sorriso, Helena", Lorenzo respondeu, dando o passo final que eliminava o espaço entre eles. "Eu só preciso de você."