Capítulo 05: A Primeira Trégua Falsa
O eco distante da festa nos Jardins ainda parecia vibrar nas paredes da cobertura em Itaim Bibi, mas o silêncio que se instalara no trigésimo andar era agora pesado e cortante.
Helena jazia imóvel no lado esquerdo da cama king size, ouvindo atentamente o ritmo lento e profundo da respiração de Lorenzo ao seu lado.
As horas passavam arrastadas enquanto a insônia a corroía por dentro, alimentada pela humilhação do vestido rasgado e pelo clarão do flash do paparazzi no corredor.
Ela virou o rosto na penumbra, fitando a silhueta imponente do homem que a mantinha prisioneira, agora entregue a um sono que parecia genuinamente exausto.
Pela primeira vez desde que o conhecera, a expressão dura e implacável de Lorenzo suavizava-se na inconsciência, revelando linhas de cansaço acumulado por anos de obsessão.
Helena sentiu um aperto estranho e incômodo no peito ao vê-lo assim, tão vulnerável, mas a lembrança do bilhete e da ruína de sua família apagou qualquer vestígio de piedade.
Ela deslizou para fora dos lençóis de linho com extremo cuidado, prendendo a respiração para não emitir o menor som que pudesse despertá-lo.
A suíte estava mergulhada em uma penumbra prateada, iluminada apenas pelas luzes distantes dos arranha-céus que atravessavam as cortinas translúcidas.
Vestindo apenas uma camisa de seda preta que pertencera a Lorenzo, ela caminhou descalça pelo piso de madeira até a porta entreaberta do escritório particular dele.
Cada passo dado no parquet parecia soar como um tiro de canhão em seus ouvidos, fazendo-a parar a cada segundo para checar se o som da respiração na cama mudara.
O escritório estava frio, cheirando fortemente a charuto apagado e ao perfume amadeirado de sândalo que parecia impregnar a alma daquele apartamento.
Helena tateou a parede revestida de painéis de mogno escuro, procurando exatamente o ponto onde o painel falso escondia o cofre eletrônico de alta segurança.
Seu pai mencionara a existência daquele cofre em um velho contrato confidencial antes de sofrer o derrame que o afastou dos negócios da construtora.
O coração de Helena martelava descompassado contra as costelas, ameaçando saltar pela boca enquanto seus dedos trêmulos encontravam o teclado digital embutido.
"Vamos ver se o seu império de mentiras aguarda aqui dentro", ela sussurrou para si mesma, digitando a data de aniversário da mãe de Lorenzo, um palpite arriscado.
Um bipe eletrônico agudo e estridente cortou o silêncio da sala, indicando que a senha estaria incorreta e fazendo o sangue de Helena congelar nas veias.
Ela praguejou baixinho, fechou os olhos por um segundo para afastar o pânico e tentou a segunda opção: a data da morte do avô tirano do bilionário.
O teclado acendeu-se com uma luz azul suave, emitindo um suave clique mecânico que soou como música celestial em seus ouvidos tensos.
A porta de aço pesada do cofre destravou-se lentamente com um rangido abafado, revelando pilhas de documentos antigos, pastas lacradas e pen drives pretos.
Helena ajoelhou-se rapidamente no carpete escuro, puxando para fora uma pasta grossa etiquetada com o nome da construtora de sua família.
"Está tudo aqui", ela murmurou com os olhos verdes brilhando de triunfo e lágrimas contidas, abrindo as primeiras páginas repletas de assinaturas falsificadas.
As provas irrefutáveis de que Lorenzo havia manipulado o mercado para forçar a quebrou de seu pai estavam bem ali, documentadas com precisão cirúrgica.
Ela puxou uma folha específica que detalhava a compra premeditada de suas dívidas, sentindo o estômago revirar-se diante da frieza daquele plano maquiavélico.
"Você estava tão perto de descobrir tudo, passarinho", uma voz rouca, fria e terrivelmente próxima sussurrou bem no lóbulo de sua orelha. "Por que tanta pressa?"
Helena deixou escapar um grito abafado, sentindo o corpo inteiro travar enquanto uma mão grande e pesada aterrissava com firmeza absoluta sobre seu pulso.
A outra mão de Lorenzo desceu pesadamente sobre a pasta de documentos, empurrando-a de volta para o fundo escuro do cofre com um movimento seco.
"Lorenzo...", ela balbuciou, sentindo o calor do corpo dele projetar-se contra suas costas, envolvendo-a em uma armadilha de carne e osso.
"Você achou mesmo que eu dormiria o suficiente para não notar o cheiro do seu medo se espalhando pelo quarto?", ele perguntou junto ao seu cabelo, a voz vibrando com um perigo mortal.
"Eu precisava saber a verdade", Helena sibilou, tentando puxar o braço de volta, mas o aperto dele apenas se estreitou como uma mordaça de ferro. "Você destruiu tudo o que era meu com mentiras!"
"Eu não menti sobre o que sinto, Helena", Lorenzo rosnou, virando-a de frente com uma força implacável que a arrancou do chão.
Os papéis confidenciais espalharam-se caoticamente pelo assoalho de madeira enquanto ele a erguia e a prendia com violência contra a estante de livros.
O peso do corpo de Lorenzo a esmagava contra a lombada dos volumes de direito comercial, tirando qualquer possibilidade de fuga ou defesa.
"Me solta!", ela gritou, socando os ombros largos dele com toda a força de seus punhos fechados, cega por uma mistura explosiva de raiva e traição.
"Nunca", Lorenzo sibilou, colando os lábios nos dela em um beijo que continha toda a fúria e a possessividade acumuladas daquela madrugada.
Era um beijo sem nenhuma ternura, um castigo físico e emocional por ela ter ousado desvendar os segredos mais profundos de sua mente doentia.
Helena tentou morder seus lábios para saborear o próprio gosto de rebeldia, mas Lorenzo a dominou com facilidade, aprofundando o contato até arrancar-lhe o fôlego.
"Você acha que provas de papel vão mudar o que somos?", ele sussurrou contra a boca dela, com os olhos âmbar faiscando perigosamente na escuridão.
"Elas provam que você é um monstro que merece o meu ódio eterno", Helena retrucou com veemência, cravando as unhas na pele da nuca dele.
"Então me odeie o quanto quiser", Lorenzo respondeu com um sorriso sombrio, erguendo-a ainda mais enquanto o silêncio da madrugada cobria o escritório em ruínas.