Capítulo 01: O Leilão da Alma
O ar dentro do escritório na cobertura da torre da Valeri Holdings em São Paulo cheirava a café amargo, couro envelhecido e uma impiedosa sensação de derrota iminente.
Helena Silva alisou a saia preta do tailleur com dedos que teimavam em tremer, embora mantivesse o rosto erguido com a precisão de quem vestia uma armadura de gelo.
À sua frente, sentado atrás de uma imensa mesa de mogno maciço, Lorenzo Valeri sequer se deu ao trabalho de erguer o olhar imediatamente para recebê-la.
O bilionário girava uma caneta de ouro entre os dedos longos, a silhueta recortada contra a imensidão cinzenta da megalópole paulistana visível através do vidro blindado.
"Você atrasou três minutos, senhorita Silva", a voz de Lorenzo soou grave, cortante como vidro quebrado, sem carregar um pingo de calor humano.
"O trânsito da Faria Lima estava impossível, senhor Valeri", Helena retrucou de imediato, a voz firme, destilando uma altivez que desafiava a humilhação daquele momento.
"O trânsito nunca é desculpa para quem não tem margem para erro", Lorenzo ergueu os olhos, revelando aquela íris âmbar, profunda e predatória que parecia esfolar sua pele.
Helena sentiu um arrepio gélido descer pela espinha, mas cravou as unhas nas palmas das mãos para manter a postura de rainha exilada.
"Estou aqui pelos documentos da recuperação judicial da construtora do meu pai", Helena disparou direto ao ponto, recusando-se a mendigar com rodeios.
"Seu pai não tem mais uma construtora, Helena", Lorenzo corrigiu com um sorriso cínico nos lábios finos, pronunciando o nome dela como se provasse um veneno raro. "Ele tem apenas dívidas, dezenas de processos e um nome completamente arruinado."
"O montante pode ser quitado se o senhor aceitar reestruturar as parcelas com os prazos que propusemos na semana passada", Helena tentou argumentar, aproximando-se da mesa.
"Nenhum banco em São Paulo vai tocar nesse acordo, a menos que eu dê a ordem direta", Lorenzo recostou-se na cadeira de couro, cruzando os braços largos sob a camisa branca impecável.
"Então por que me chamou aqui?", Helena sibilou, os olhos verdes faiscando com uma centelha perigosa de puro ódio contido. "Veio apenas para saborear o espetáculo da minha desgraça de perto?"
"Exatamente", Lorenzo respondeu sem piscar, a franqueza brutal congelando o ar entre eles por um segundo inteiro.
O advogado sênior, Dr. Marcelo Antunes, pigarreou discretamente ao canto da sala, mantendo os olhos fixos na própria maleta de couro preto.
"Doutor Antunes, por favor, deixe-nos a sós", Lorenzo ordenou com um gesto seco, sem desviar os olhos âmbar da figura rígida de Helena.
"Sim, senhor Valeri", Marcelo recolheu alguns papéis e saiu em silêncio, fechando a pesada porta de carvalho com um baque abafado.
O silêncio que se seguiu na sala tornou-se sufocante, carregado apenas pelo zumbido distante do ar-condicionado central.
"Existe uma saída para evitar que seu pai termine os últimos dias de vida na cadeia por fraude fiscal", Lorenzo falou quebrando o silêncio, abrindo uma pasta preta de couro legítimo.
"Qual é o preço?", Helena perguntou, a voz saindo como um sopro seco, pois sabia que homens como Lorenzo nunca davam nada de graça.
"Sessenta milhões de reais para limpar o nome da sua família e trinta dias para reaver os bens penhorados", Lorenzo enumerou friamente, jogando os papéis sobre a mesa.
"E em troca?", Helena insistiu, sentindo o cerco se fechar implacavelmente ao seu redor.
"Em troca, você assina um aditivo que não está nos registros oficiais da holding", Lorenzo puxou uma folha em branco e uma caneta tinteiro.
"Explique-se melhor, senhor Valeri", Helena cruzou os braços, tentando inutilmente conter o tremor súbito em seus joelhos.
"Você vai trabalhar como minha secretária executiva pessoal durante o dia, cumprindo cada ordem estúpida que eu inventar", Lorenzo disse, curvando-se para a frente com perigosa intensidade.
"Isso é um cargo corporativo comum", Helena argumentou, desconfiada da calmaria antes da tempestade.
"E à noite, você será minha propriedade exclusiva sob contrato privado", Lorenzo completou, rasgando o documento impresso antigo e escrevendo uma cláusula à mão.
O som da pena arrastando o papel soou como uma guilhotina caindo na mente de Helena.
"Você perdeu o juízo se acha que vou me vender dessa forma", Helena recuou um passo, horrorizada com a baixeza da proposta.
"Pense no seu pai, Helena", Lorenzo sibilou, levantando-se devagar e contornando a mesa de mogno com passos de felino. "Pense nos remédios dele, na enfermaria que ele precisa, no escândalo público."
Helena sentiu as lágrimas ameaçarem queimar seus olhos, mas engoliu o choro com fúria, recusando-se a dar aquele espetáculo ao monstro à sua frente.
"Você é um sádico desalmado, Lorenzo", Helena sussurrou, sentindo o perfume amadeirado dele invadir todo o seu espaço vital.
"E você é uma orgulhosa teimosa que veio implorar na minha porta", Lorenzo parou a poucos centímetros dela, erguendo o queixo de Helena com a ponta dos dedos quentes.
O contraste entre a frieza de suas palavras e o calor febril daquela mão cravada em seu rosto fez Helena prender a respiração.
"Assine", Lorenzo ordenou com voz rouca, pressionando a caneta contra a palma trêmula da mão dela.
"Eu te odeio tanto", Helena murmurou, olhando diretamente naquelas íris âmbar que pareciam consumi-la por inteiro.
"O ódio é um excelente começo, passarinho", Lorenzo sorriu de canto, um sorriso escuro que não alcançava os olhos.
Helena aproximou-se da mesa, puxou o papel infame e encostou a ponta da caneta no espaço reservado para a assinatura.
Sua mão desenhou cada letra do próprio nome com uma rigidez dolorosa, selando sua própria escravidão voluntária naquele escritório de luxo.
"Pronto", Helena sibilou, atirando a caneta tinteiro contra a madeira com força suficiente para espalhar alguns pingos de tinta preta.
"Perfeito", Lorenzo pegou o contrato assinado, os olhos brilhando com uma satisfação doentia e sombria.
"Estou dispensada do meu suplício diário, chefe?", Helena perguntou carregando a palavra 'chefe' de um sarcasmo cortante como navalha.
"Por ora, sim", Lorenzo deu um passo para trás, ajeitando os punhos da camisa com total compostura corporativa. "Mas lembre-se: às doze em ponto, a porta da minha cobertura estará destrancada para você."
Helena endireitou a espinha com bravura indomável, virou-se nos saltos altos e caminhou até a saída sem derramar uma única lágrima.
Ela abriu a porta com firmeza, lançou um último olhar gélido para o homem que agora mandava em sua vida e bateu a porta atrás de si.
Do outro lado do batente, Helena respirou fundo no corredor vazio, mal sabendo que a meia-noite daquela mesma data mudaria sua alma para sempre.