PARTE 3
Por três dias, mantive silêncio porque precisava entender o quão cuidadosamente Grant construíra a armadilha ao meu redor.
Caroline contratou uma perita contábil forense chamada Priya Shah, que rastreou o dinheiro da Sterling Advisory até a North Meridian Holdings e depois até o apartamento em Lakeview.
Outros fundos circulavam por contas de curto prazo antes de retornarem a empresas controladas por Grant como empréstimos privados.
A estrutura reduzia o valor aparente da companhia e dificultava localizar milhões durante o divórcio.
Priya também examinou o documento de consentimento com minha suposta assinatura. Os metadados mostravam que fora criado no laptop de Grant onze dias antes de eu protocolar o divórcio.
Lembro-me bem daquela semana: Grant me levara para jantar, pedira meu vinho favorito e fora incomumente gentil.
Na manhã seguinte, colocara diante de mim uma pilha de papéis comuns de seguro e me pedira para assinar onde houvesse abas adesivas.
Ou Grant escondera a autorização de transferência entre aqueles papéis, ou copiara minha assinatura de um documento legítimo.
Ele construía sua defesa antes mesmo de eu saber que havia um crime financeiro a defender.
Se o conselho questionasse o dinheiro sumido, ele poderia apontar para mim. Se o tribunal de divórcio descobrisse ativos ocultos, ele poderia dizer que a esposa aprovara tudo.
O remetente anônimo entrou em contato novamente e avisou que Grant planejava mover o restante do dinheiro até sexta-feira.
Quando perguntei quem era, a resposta foi: “Alguém que também acreditou nele.”
Outra mensagem me alertou a não confiar em Madison, mas também a não presumir que ela compreendia o que Grant fizera. Essa distinção mudou a forma como via a mulher no vestido marfim.
Madison sabia que Grant era casado e quisera o meu lugar em sua vida. Isso não a tornava inocente, mas também não significava que ela arquitetara o esquema. Grant dera a cada uma de nós uma versão da outra que o fazia parecer sem culpa. Para mim, Madison era uma funcionária ambiciosa; para Madison, eu era uma esposa fria que se recusava a libertar um casamento morto.
Na sexta de manhã, entrei na sede da Hollis Capital pela primeira vez em sete meses. As paredes estavam cobertas de fotos de Grant ao lado de investidores, políticos e líderes empresariais. Na mais antiga, Grant e eu estávamos na primeira sala da empresa, com seis funcionários e uma mesa de segunda mão. A placa abaixo dizia “O Começo”, mas ninguém escrevera quem financiara aquele começo.
Grant me puxou para o escritório ao me ver. Exigi os contratos da Sterling Advisory, e ele chamou a empresa de fornecedora legítima. Quando perguntei que serviços poderiam custar mais de quatorze milhões de dólares, o sangue fugiu de seu rosto. Ele avisou que transações complexas muitas vezes parecem impróprias para quem não as entende.
Então perguntei se eu havia aprovado o pagamento de US$ 3,2 milhões. Grant não disse que havíamos discutido o assunto ou que ele explicara seu propósito. Limitou-se a repetir que eu assinara. Sua certeza me disse que ele já ensaiara aquela acusação para o conselho, investigadores e talvez um juiz.