《A Mulher Grávida Que Eles Jogaram da Escada》Parte 3

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A primeira coisa que Valentina Duarte Vasconcelos sentiu quando abriu os olhos foi o som.

Um som repetitivo.

Calmo.

O aparelho ao lado da cama marcava cada batimento do coração da sua filha.

Por alguns segundos, ela não conseguiu entender onde estava.

O teto branco.

O cheiro de remédio.

A luz suave entrando pela janela.

Então as lembranças voltaram.

A Mansão Vasconcelos.

A discussão.

Beatriz.

A escada.

A queda.

Valentina levou a mão imediatamente até a barriga.

O medo tomou conta dela.

"Minha filha..."

Sua voz saiu fraca.

"Minha filha está bem?"

Antes que alguém respondesse, uma mulher entrou no quarto.

Era Dra. Fernanda Meireles.

A obstetra segurava uma prancheta e tinha um sorriso tranquilo no rosto.

Ela se aproximou da cama.

"Valentina, você está no Hospital Sírio-Libanês."

Valentina olhou para ela desesperada.

"Minha bebê?"

A médica sorriu.

"Ela está bem."

Aquelas três palavras fizeram Valentina fechar os olhos.

Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Depois de tantas horas de medo, finalmente conseguiu respirar.

"Ela está realmente bem?"

Dra. Fernanda assentiu.

"Os batimentos estão fortes. Não houve sangramento interno e não encontramos sinais de sofrimento fetal."

Valentina colocou as duas mãos sobre a barriga.

A filha se mexeu naquele momento.

Um pequeno movimento.

Mas suficiente para destruir o medo que estava preso no coração dela.

"Ela lutou..."

Sussurrou Valentina.

A médica sorriu.

"Sim. Sua filha é uma guerreira."

Por alguns segundos, Valentina apenas ficou em silêncio.

Mas então uma dor diferente apareceu.

Não era física.

Era emocional.

Ela lembrou de Leonardo.

Do marido que nunca conheceria a própria filha.

Do homem que prometeu estar ao lado dela naquele momento.

E que agora só existia nas lembranças.

"Leonardo deveria estar aqui."

Sua voz ficou embargada.

Dra. Fernanda colocou uma mão sobre o ombro dela.

"Eu sinto muito."

Valentina virou o rosto para a janela.

Lá fora, São Paulo continuava funcionando normalmente.

Carros passando.

Pessoas andando.

Como se sua vida não tivesse acabado e começado novamente naquela noite.

Depois de alguns minutos, ela perguntou:

"Vicente está aqui?"

A médica assentiu.

"Ele está no corredor. Não saiu desde que você chegou."

Valentina fechou os olhos.

Vicente.

O homem que salvou sua vida.

O homem que enfrentou Beatriz depois de vinte anos obedecendo aquela família.

"Ele não precisava fazer isso."

Disse Valentina.

Dra. Fernanda olhou para ela.

"Às vezes, as pessoas mostram quem realmente são nos momentos mais difíceis."

Valentina ficou em silêncio.

Porque sabia que aquilo era verdade.

Durante meses, muitas pessoas haviam desaparecido da sua vida.

Mas naquele momento, um homem que não tinha nenhuma obrigação com ela colocou a própria vida em risco.

Algumas horas depois, Vicente entrou no quarto.

Ele parecia cansado.

Mas aliviado.

Ao ver Valentina acordada, respirou fundo.

"Como você está?"

Valentina sorriu levemente.

"Melhor."

Depois olhou para ele.

"Obrigada."

Vicente balançou a cabeça.

"Eu só fiz o que qualquer pessoa deveria fazer."

"Não."

Ela respondeu.

"Você fez algo que ninguém naquela casa teve coragem de fazer."

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Vicente ficou em silêncio.

Porque sabia exatamente do que ela estava falando.

O silêncio dos funcionários.

O medo.

Os anos de controle de Beatriz.

Valentina olhou para ele.

"Por que você ficou calado durante tanto tempo?"

A pergunta ficou no ar.

Vicente demorou alguns segundos para responder.

"Porque eu achei que proteger a família Vasconcelos significava obedecer."

Ele abaixou os olhos.

"Mas eu percebi que estava protegendo a pessoa errada."

Valentina segurou a mão dele.

"Leonardo teria orgulho de você."

Ao ouvir o nome do antigo patrão, Vicente ficou emocionado.

"Leonardo era diferente."

Disse ele.

"Ele não via funcionários. Ele via pessoas."

Aquela frase ficou na cabeça de Valentina.

Porque Leonardo sempre foi assim.

Gentil.

Justo.

Diferente da própria mãe.

Naquela noite, quando o quarto ficou silencioso, Valentina tentou dormir.

Mas algo incomodava sua mente.

A bolsa dela.

As coisas de Leonardo.

Os objetos que haviam ficado na mansão.

Ela olhou para Vicente.

"Tem uma coisa que eu preciso saber."

Ele se aproximou.

"O quê?"

"Minhas coisas."

Valentina respirou fundo.

"Os objetos do Leonardo. As fotos. Os documentos. Tudo que estava no nosso quarto."

Vicente ficou sério.

"Valentina..."

Ela percebeu a mudança no rosto dele.

"O que aconteceu?"

Vicente hesitou.

"Quando a polícia entrou na mansão, quase tudo já tinha desaparecido."

O coração dela apertou.

"Desaparecido?"

Ele assentiu.

"Algumas caixas pessoais suas foram retiradas antes."

Valentina sentiu um frio percorrer seu corpo.

"Por quem?"

Vicente não respondeu imediatamente.

E aquele silêncio respondeu mais do que qualquer palavra.

"Você acha que foi Beatriz?"

Perguntou Valentina.

Vicente olhou para ela.

"Eu acho que Beatriz estava escondendo algo."

Naquele momento, uma batida suave veio da porta.

Valentina e Vicente olharam juntos.

Era Dona Lúcia Ferreira.

Mas dessa vez ela não estava usando o uniforme da mansão.

Ela carregava uma pequena caixa antiga de madeira.

O rosto dela estava cheio de emoção.

"Valentina."

A jovem ficou surpresa.

"Dona Lúcia?"

A senhora entrou lentamente.

Fechou a porta atrás de si.

E segurou a caixa contra o peito.

"Eu deveria ter entregue isso há muito tempo."

Valentina franziu a testa.

"O que é?"

Dona Lúcia olhou para Vicente.

Depois para Valentina.

"Pertence ao Leonardo."

O coração de Valentina acelerou.

Ela abriu espaço na cama.

Dona Lúcia colocou a caixa sobre a mesa.

A madeira estava envelhecida pelo tempo.

Mas parecia ter sido cuidada com muito carinho.

"Leonardo me deu isso três meses antes de morrer."

Valentina ficou imóvel.

"Por quê?"

Dona Lúcia respirou fundo.

"Ele pediu que eu guardasse."

"Ele disse que, se alguma coisa acontecesse, eu deveria entregar apenas para você."

Vicente se aproximou.

"Por que ele nunca contou isso para ninguém?"

Dona Lúcia apertou os dedos.

"Porque ele tinha medo."

A palavra ficou pesada no quarto.

Valentina olhou para ela.

"Medo de quê?"

Dona Lúcia abriu a caixa.

Dentro havia três coisas.

Uma carta.

Uma pequena chave dourada.

E um envelope lacrado com o nome de Leonardo.

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Valentina sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

Ela reconheceria aquela letra em qualquer lugar.

Era a letra do homem que amava.

Com mãos tremendo, abriu a carta.

As primeiras palavras fizeram seu coração parar.

"Minha amada Valentina."

Ela respirou fundo e continuou lendo.

"Se você está lendo esta carta, significa que eu não consegui estar ao seu lado quando nossa filha nasceu."

Uma lágrima caiu sobre o papel.

"Mas existe algo que você precisa saber."

Valentina segurou a carta com força.

"Eu sempre soube que havia pessoas dentro da minha própria família que não aceitariam você."

Ela parou de respirar por um instante.

Vicente ficou sério.

Dona Lúcia abaixou a cabeça.

A carta continuava.

"Proteja minha esposa e meu filho."

Aquelas palavras fizeram Valentina levar a mão à boca.

Leonardo sabia.

Ele sabia que algo poderia acontecer.

Ele sabia que alguém poderia tentar machucá-los.

"Não..."

Sussurrou Valentina.

"Ele sabia..."

Vicente olhou para ela.

"Sabia o quê?"

Ela levantou os olhos cheios de lágrimas.

"Que alguém estava tentando nos destruir."

O quarto ficou em silêncio.

Dona Lúcia finalmente falou:

"Leonardo mudou algumas coisas antes de morrer."

Valentina olhou para a chave.

"O que essa chave abre?"

Dona Lúcia respondeu:

"Eu não sei."

Antes que Valentina pudesse perguntar mais, outra pessoa bateu na porta.

Era Dr. André Montenegro.

O advogado da família Vasconcelos.

Ele entrou carregando uma pasta preta.

Seu rosto estava sério.

"Desculpem interromper."

Valentina olhou para ele.

"Dr. André, o que está acontecendo?"

Ele colocou a pasta sobre a mesa.

"Recebi uma mensagem da equipe jurídica depois que Beatriz foi presa."

Vicente ficou alerta.

"O que tem nessa pasta?"

André olhou para a carta de Leonardo.

Depois para Valentina.

Durante anos, ele havia defendido os interesses dos Vasconcelos.

Mas naquele momento parecia saber que tudo estava prestes a mudar.

Ele abriu a pasta lentamente.

Retirou um documento selado.

E antes de entregar, olhou diretamente para Valentina.

"Valentina..."

Ele respirou fundo.

"Você precisa ver isso."

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