Henrique Augusto Vasconcelos ficou parado no meio do escritório por vários minutos.
A carta de Clara ainda estava sobre a mesa.
As palavras dela continuavam passando pela sua cabeça.
"Eu não quero ser o motivo da sua dor."
Mas para Henrique, aquela frase tinha outro significado.
Clara não estava indo embora porque deixou de amar.
Ela estava indo embora porque alguém fez ela acreditar que não era suficiente.
E ele sabia exatamente quem tinha feito isso.
Vitória Albuquerque Ferraz.
Pela primeira vez em semanas, Henrique deixou a raiva aparecer.
Não uma raiva contra Clara.
Mas contra tudo que permitiu que aquela situação acontecesse.
Ele fechou os olhos.
Lembrou de cada momento.
A foto no restaurante.
A gravidez inesperada.
As notícias.
Os comentários.
A forma como Clara começou a se afastar.
Tudo parecia uma sequência perfeita demais.
Como se alguém tivesse planejado cada movimento.
Henrique pegou o telefone.
Ligou para seu advogado, Eduardo Bastos Ferraz.
"Eduardo, preciso que você venha imediatamente para a mansão."
A voz de Henrique estava diferente.
Mais fria.
Mais determinada.
"Henrique, aconteceu alguma coisa?"
"Eu acho que descobri que alguém destruiu minha família usando mentiras."
Poucas horas depois, Eduardo chegou à Mansão Vasconcelos.
Eles entraram no escritório.
Henrique colocou todos os documentos sobre a mesa.
A foto de Vitória e Henrique no restaurante.
O relatório da gravidez.
As matérias publicadas.
Tudo.
"Eu quero saber a verdade."
Eduardo analisou cada detalhe.
Durante anos, ele havia trabalhado com grandes famílias de São Paulo.
Sabia reconhecer quando uma história parecia verdadeira demais.
Depois de algumas horas, ele levantou os olhos.
"Henrique."
"Fala."
"Existe algo errado."
O coração de Henrique acelerou.
"O quê?"
Eduardo pegou a fotografia do restaurante.
"Essa imagem foi manipulada."
Henrique ficou em silêncio.
"Tem certeza?"
"Sim."
O advogado apontou alguns detalhes.
"O ângulo da câmera foi escolhido para parecer uma aproximação íntima."
Ele continuou:
"Mas a distância real entre vocês era diferente."
Henrique sentiu o sangue ferver.
Então aquela noite...
Aquele momento que quase destruiu tudo...
Era uma mentira.
"Descubra quem tirou essa foto."
Eduardo assentiu.
"Vou tentar."
Depois analisaram o relatório da gravidez.
O documento parecia perfeito.
Nome do hospital.
Assinatura médica.
Data.
Tudo.
Mas havia um detalhe.
O hospital indicado nunca havia registrado aquele atendimento.
Eduardo ficou sério.
"Henrique."
Ele colocou o documento na mesa.
"Essa gravidez nunca foi confirmada por esse hospital."
Henrique passou a mão pelo rosto.
Durante semanas, ele carregou a culpa.
Pensou que talvez tivesse falhado com Clara.
Pensou que talvez existisse uma responsabilidade que precisava assumir.
Mas agora descobria que tudo era uma mentira.
"Ela usou uma criança que nem existe."
A voz dele saiu baixa.
Cheia de decepção.
Mas ainda faltava uma parte.
As notícias.
As manchetes.
Os comentários.
Tudo que fez Clara acreditar que estava destruindo a vida dele.
Eduardo começou a investigar as publicações.
Em poucos dias, encontrou uma ligação.
Os primeiros sites que divulgaram a história tinham recebido informações de uma mesma fonte.
Uma agência de comunicação.
Uma agência que já tinha trabalhado para Vitória.
Henrique ficou olhando para a tela do computador.
A verdade finalmente estava aparecendo.
Vitória não tinha cometido apenas um erro.
Ela tinha criado uma guerra.
Naquela noite, Henrique foi até o antigo quarto de Clara.
Tudo ainda estava no lugar.
O perfume dela.
Alguns livros.
As pequenas coisas que ela deixou para trás.
Ele pegou uma fotografia.
Era uma imagem dele, Clara e Sofia no hospital.
Uma família.
Uma família que alguém tentou destruir.
Ele fechou os olhos.
"Clara, eu deveria ter percebido antes."
Pela primeira vez, Henrique sentiu que não tinha protegido a mulher que mais precisava dele.
Enquanto isso, em um apartamento luxuoso na Vila Nova Conceição, Vitória comemorava.
Ela acreditava que tinha vencido.
Estava diante do espelho usando um vestido elegante.
Seu telefone tocou.
Era uma amiga.
"Vitória, você conseguiu afastar Clara?"
Ela sorriu.
"Ela mesma foi embora."
A amiga riu.
"Então agora é só recuperar Henrique."
Vitória olhou para uma foto antiga dos dois.
"Ele sempre foi meu."
Mas naquele momento, uma mensagem chegou.
Ela abriu.
Seu rosto mudou.
Era uma mensagem de Gustavo Ribeiro, seu antigo assessor.
"Vitória, precisamos conversar."
Ela respondeu imediatamente.
"O que aconteceu?"
A resposta demorou alguns segundos.
Depois apareceu:
"Henrique começou a investigar."
O sorriso dela desapareceu.
Ela sabia que Henrique era inteligente.
Mas não imaginava que ele descobriria tão rápido.
No dia seguinte, Henrique foi até a agência de comunicação responsável pelas matérias.
Ele queria respostas.
Mas quando chegou ao local, encontrou algo estranho.
A sala onde estavam os arquivos de Vitória estava vazia.
Computadores apagados.
Documentos desaparecidos.
Câmeras desligadas.
Alguém tinha chegado antes.
Eduardo analisou o ambiente.
"Ela sabia que estávamos investigando."
Henrique fechou os punhos.
"Ela apagou as provas."
O advogado concordou.
"Sim."
Uma pausa.
"Mas alguém ajudou."
Henrique olhou para ele.
"O que você quer dizer?"
Eduardo mostrou uma imagem da câmera de segurança do prédio.
Uma pessoa tinha entrado no escritório durante a madrugada.
Mas a imagem estava escura.
O rosto não aparecia.
Apenas a silhueta.
Henrique ficou observando.
Porque havia algo naquela pessoa que parecia familiar.
Enquanto isso, Vitória recebeu uma ligação desconhecida.
Ela atendeu desconfiada.
"Quem é?"
Uma voz masculina respondeu:
"Você conseguiu afastar Clara."
Vitória ficou em silêncio.
"Mas agora Henrique sabe que tudo foi uma mentira."
O rosto dela perdeu a cor.
"Quem está falando?"
A pessoa continuou:
"Se você quer destruir Henrique, vai precisar de algo maior."
Vitória apertou o telefone.
"O que você quer?"
A voz respondeu:
"Eu tenho a prova que pode acabar com ele."
A ligação terminou.
Vitória ficou parada.
Pela primeira vez desde que começou sua vingança, ela sentiu medo.
Porque percebeu que talvez não fosse mais a única pessoa jogando esse jogo.
Na Mansão Vasconcelos, Henrique ampliava novamente a imagem da câmera de segurança.
A silhueta aparecia ao lado dos arquivos destruídos.
Ele aproximou a imagem.
E então percebeu um detalhe.
Um objeto na mão daquela pessoa.
Um símbolo que ele conhecia.
Um símbolo ligado ao passado de Clara.
Henrique ficou completamente imóvel.
Porque naquele momento entendeu que as mentiras de Vitória escondiam algo muito maior do que apenas uma tentativa de separá-los.