Capítulo 9:
O som das sirenes distantes e o cheiro denso de sangue ainda pairavam pelo escritório principal, onde Lorenzo jazia inconsciente e pálido sobre o piso de madeira.
A traição de Isabela, somada à falsa documentação que quase custara a vida do magnata, transformou-se instantaneamente em uma fúria gélida e incontrolável no peito de Valentina. Não havia mais espaço para o medo, para as lágrimas ou para a hesitação que antes a paralisavam naquela gaiola dourada.
Enquanto a equipe de médicos de emergência infiltrada na mansão corria para estancar a hemorragia no ombro do magnata, a jovem deu as costas para o leito improvisado.
Ela sabia perfeitamente que o ataque de Isabela e dos capangas de Vladimir Petrov não demoraria a atingir os portões principais da propriedade no Morumbi. Com um passo firme e decidido, Valentina seguiu diretamente para o paiol tático e o centro de comando subterrâneo que Lorenzo mantinha oculto.
"O senhor Lorenzo está gravemente ferido, senhorita Silva, e os invasores estão rompendo o perímetro norte", avisou Mateo, aproximando-se com o rosto tenso e um rifle tático em punho. "Precisamos evacuar imediatamente a senhora para um local seguro antes que o cerco se feche."
"Eu não vou a lugar nenhum, Mateo", respondeu Valentina com a voz cortante, os olhos âmbar brilhando com uma determinação feroz e letal.
"Abra o arsenal e entregue-me o equipamento de proteção balística completo agora mesmo."
O fiel secretário hesitou por uma fração de segundo, encarando a transformação radical daquela que antes era tratada apenas como uma prisioneira indefesa.
Vendo a autoridade absoluta que emanava da postura dela, Mateo assentiu em silêncio e destravou os armários de aço pesado.
Em poucos minutos, Valentina despiu-se da elegância frágil de seus trajes civis e vestiu um colete balístico ajustado ao corpo, botas de combate e coldres de coxa reforçados. Ela puxou os longos cabelos castanhos para trás, prendendo-os em um rabo de cavalo alto e prático que exibia sua mandíbula travada.
"Os sistemas de segurança automatizados da ala leste foram desativados por um invasor externo", informou o operador técnico através dos monitores centrais.
"Eles querem invadir a minha casa e levar o homem que agora me pertence, mas vão encontrar uma guerra", declarou Valentina com um sorriso gélido nos lábios.
Ela posicionou-se diante do painel holográfico de defesa da mansão, redescobrindo instintos táticos que havia absorvido durante a infância ao lado do pai.
Com dedos ágeis, ela reconfigurou os protocolos de energia, armando armadilhas de pulso eletromagnético nos corredores de mármore.
"Mateo, divida os homens restantes em dois esquadrões de contenção nas escadarias principais", ordenou Valentina, assumindo o controle total da operação sem pestanejar.
"Deixe que eles pensem que a mansão está vulnerável, para que possamos encurralá-los no hall central."
Do lado de fora, os portões de ferro forjado da propriedade explodiram sob o impacto de um carro-forte alugado pelos mercenários de Vladimir. Dezenas de capangas armados com fuzis de assalto invadiram os jardins impecáveis, marchando com arrogância em direção à entrada principal.
Escondida na galeria superior, Valentina observava a invasão através das câmeras de segurança com a precisão fria de uma estrategista militar. Quando o primeiro grupo de mercenários pisou no imenso hall de entrada, ela atirou o interruptor mestre.
As portas de segurança blindadas fecharam-se com um estrondo ensurdecedor, bloqueando a retirada dos invasores enquanto as luzes se apagavam. No mesmo instante, gás incapacitante e disparos automatizados de supressão irromperam das paredes, pegando o grupo de surpresa total.
"O que é isso? Fomos traídos, é uma armadilha!", gritou um dos capangas de Vladimir antes de desabar inconsciente no tapete persa.
Apoiada na balaustrada de ferro do segundo andar, Valentina sSacou uma pistola semiautomática com uma destreza assustadora.
Ela disparou com precisão cirúrgica contra os alvos que tentavam se reorganizar no piso inferior, eliminando a ameaça com uma frieza que impressionou até os veteranos de guerra de Mateo.
"A ala principal está limpa, senhorita Silva, mas interceptamos uma transmissão de rádio dos inimigos", anunciou Mateo, correndo até ela com um tablet tático.
A tela exibia um sinal de vídeo criptografado enviado diretamente por Isabela e Vladimir a partir de uma zona costeira abandonada. Na imagem granulada, Lorenzo aparecia amarrado a uma cadeira de metal, ainda desacordado e com a camisa manchada de sangue fresco.
"Se quiser ver o seu precioso bilionário respirando de novo, traga a si mesma até o armazém abandonado no porto de Santos", ironizou a voz envenenada de Isabela através do alto-falante. "Caso contrário, o corpo dele será jogado aos tubarões antes do amanhecer."
O sangue de Valentina ferveu em uma mistura explosiva de ódio, proteção e um amor possessivo que ela recusava-se a negar. Ela desligou o comunicador com um movimento violento, sentindo o coração bater como um tambor de guerra em sua caixa torácica.
Mateo olhou para ela com cautela, sabendo que caminhar rumo àquela zona portuária era aceitar um bilhete de ida para uma execução certa.
No entanto, a determinação implacável nos olhos cor de âmbar da jovem não deixava margem para qualquer discussão ou conselho.
"Eles querem um ajuste de contas definitivo, e eu vou dar exatamente o que eles estão pedindo", sibilou Valentina, com a voz carregada de uma promessa letal.
Ela caminhou até a mesa de armamentos, pegou um fuzil de assalto pesado e verificou o pente de munição com um estalo metálico perfeito. O peso da arma em suas mãos parecia fundir-se à sua nova identidade de mulher indomável e guerreira.
Valentina virou-se lentamente para os leais mercenários que aguardavam suas ordens finais no centro do hall ensanguentado. A postura altiva e o olhar de pura extinção deixavam claro que a frágil herdeira dos Silva havia desaparecido para sempre.
"Preparem os veículos blindados e todo o arsenal pesado que temos disponível", ordenou Valentina, ajeitando as tiras do colete balístico com firmeza. "Quem ousar tocar em Lorenzo vai ter que passar por cima do meu cadáver, pois hoje eu farei o porto inteiro sangrar."