Capítulo 8:
O voo de regresso a São Paulo transcorreu sob um silêncio sepulcral e denso dentro da aeronave executiva. Assim que a limusine os transportou de volta para a mansão no Morumbi, a frágil trégua construída no resgate do cassino desmoronou por completo.
Na imponente entrada do hall principal, uma pasta lacrada com o selo do alto escalão político aguardava por Valentina. O pacote fora deixado estrategicamente por emisários de Isabela Santos, contendo uma série de documentos bancários e relatórios financeiros meticulosamente falsificados.
Valentina abriu o envelope com as mãos trêmulas, folheando as páginas que detalhavam a conspiração corporativa.
Para seu horror absoluto, cada linha de código e cada contrato cancelado levavam a assinatura direta de Lorenzo von Sternberg como o arquiteto principal da falência de sua família.
O chão pareceu sumir sob os pés da jovem, transformando a admiração recém-descoberta em uma onda avassaladora de traição e nojo. Com as folhas amassadas contra o peito, ela correu transtornada pelos corredores até invadir o escritório particular do magnata.
"Você leu o conteúdo dessa porcaria antes de me mandar para aquela armadilha esta noite?", gritou Valentina, atirando os papéis falsificados diretamente no rosto de Lorenzo.
O magnata, que acabara de desabotoar o paletó, sobressaltou-se com a fúria repentina e o tom desrespeitoso da jovem. Seus olhos azuis glaciais endureceram instantaneamente, assumindo o controle da situação com a frieza de sempre.
"Controle o seu tom de voz e o seu comportamento infantil antes que eu perca a paciência, Valentina", ordenou Lorenzo com a voz grave e perigosamente baixa.
"Infantil?", sibilou ela com um riso histérico e carregado de lágrimas contidas, apontando os papéis espalhados pelo chão. "Estes documentos provam preto no branco que foi você, o grande e intocável Lorenzo von Sternberg, quem destruiu deliberadamente a empresa do meu pai e assassinou a nossa reputação!"
Lorenzo franziu o cenho, abaixando o olhar para as folhas que traziam assinaturas forçadas e dados adulterados por mentes criminosas. Ele compreendeu imediatamente a manobra suja de Isabela, mas o orgulho ferido e a rigidez de seu temperamento impediram-no de se defender com suavidade.
"Você realmente acredita que eu seria capaz de urdir uma farsa barata dessas para te manter acorrentada aqui?", perguntou o magnata com um tom de escárnio gélido na voz.
"Depois de tudo o que você fez, de todas as mentiras e humilhações, eu não duvido de absolutamente mais nada que venha de um monstro sem coração como você", cuspiu Valentina, com os olhos cor de âmbar faiscando de ódio puro.
A desconfiança cega e a dor dilacerante que consumiam o peito da jovem cegaram qualquer resquício de raciocínio lógico.
Em um impulso descontrolado de quem não tem mais nada a perder, ela deu passos rápidos até a mesa de trabalho e agarrou uma pesada tesoura de metal prateado.
"Se você queria tanto me destruir desde o primeiro dia, deveria ter acabado comigo de vez", soluçou Valentina, apontando a lâmina afiada diretamente para o peito dele.
"Guarde essa arma imediatamente, Valentina, você não sabe o que está fazendo", alertou Lorenzo, dando um passo cauteloso à frente com as mãos erguidas em rendição parcial.
"Afaste-se de mim ou eu juro que acabo com a sua raça aqui e agora", berrou ela, com o corpo tremendo da cabeça aos pés devido ao choque emocional.
A tensão na sala atingiu um patamar insuportável, transformando o ar em uma substância densa e irrespirável. A mente de Valentina girava em um turbilhão de desespero, incapaz de distinguir entre a verdade e a mentira daquela armadilha maquiavélica.
"Você destruiu tudo o que eu amava, Lorenzo", sussurrou ela com a voz embargada por lágrimas de pura frustração.
"Se é isso que você pensa de mim, então faça o que o seu ódio está ordenando", desafiou o magnata com um sorriso irônico e doloroso nos lábios.
Com um grito de angústia que rasgou a sua garganta, Valentina avançou e desferiu um golpe cego com a tesoura.
A lâmina fria rasgou o tecido da camisa branca de Lorenzo e afundou-se profundamente na carne de seu ombro esquerdo.
Um jato de sangue quente espirrou instantaneamente, manchando o linho imaculado de vermelho escuro.
No entanto, para o completo pavor de Valentina, Lorenzo não recuou nem soltou um único gemido de dor.
Com uma frieza aterrorizante, ele próprio agarrou a lâmina com a mão nua, fazendo o sangue escorrer por entre seus dedos. Seus olhos azuis fixaram-se nos globos âmbar da jovem com uma intensidade que parecia queimar a alma dela.
"Você acha que foi eu quem destruiu a sua família, mas a verdade é muito mais suja do que a sua imaginação infantil ousa conceber", sibilou Lorenzo com um sorriso ensanguentado nos lábios.
"Do que você está falando?", balbuciou Valentina, sentindo as pernas fraquejarem enquanto olhava para as próprias mãos cobertas de sangue.
"O verdadeiro mandante da ruína dos Silva está muito mais perto de você do que imagina, e não fui eu", murmurou o magnata com a voz rouca perdendo a força.
Antes que ela pudesse formular qualquer pergunta ou processar o peso daquela confissão, os olhos de Lorenzo reviraram-se levemente. O corpo imponente do magnata perdeu a sustentação e despencou pesadamente sobre o chão de madeira, desmaiando em uma poça de sangue.