Eu e Alice nos entreolhamos através da cortina de chuva.
Ela segurava as flores dele, e o restante da minha frase evaporou na chuva, sem que ninguém a ouvisse.
No instante em que Alice me viu, ela paralisou: "Lívia? O que você faz aqui?"
O olhar dela mudou; não era hostilidade, mas a calma típica de uma vencedora.
Lentamente, ela ergueu a mão direita. O anel de diamantes em forma de lua e estrela no dedo anelar brilhava, incrivelmente chamativo contra a chuva.
Era o anel de que eu tinha falado com ele.
"Se você veio procurar o Lucas para reacender o antigo amor, sinto dizer que ficará decepcionada."
"O Lucas me pediu em casamento, no show do Jay Chou, enquanto tocava 'Balão das Declarações'. Ele colocou um véu na minha cabeça e se ajoelhou."
Ela me olhava sorrindo, com a voz suave, mas cada palavra perfurava como agulha: "O Lucas é muito prático; essas ideias para agradar garotas foram todas ensinadas por você. Tenho que te agradecer por isso."
Sim, fui eu que ensinei.
Eu dizia que a lua e as estrelas estariam sempre juntas, por isso eu queria um anel de diamantes com esse formato.
Eu dizia que queria tirar fotos segurando um buquê de tulipas, pois elas representavam o amor mais puro.
Fui eu também que disse que queria ser pedida em casamento num show, de preferência ouvindo "Balão das Declarações", do Jay Chou.
Desviei o olhar do anel e engoli a amargura que subia pela minha garganta: "Não há de quê."
Pausando por um segundo, mantive o tom uniforme: "Mas nem sempre quem aproveita a sombra no final é quem plantou a árvore."
Dito isso, me virei para sair.
Alice riu atrás de mim, a sua voz suave me alcançando.
"Mesmo que no fim ele não fique comigo, ele com certeza não ficará com você, a mulher com quem o pai dele dormiu."
A chuva, fina como agulhas, espetava minha pele uma por uma.
Lembrei-me daquele dia; Alice me ligou, embriagada, dizendo que não conseguia ir para casa e me pediu para buscá-la.
Fui e também bebi o copo d'água que ela me ofereceu.
Depois, foi a escuridão. Uma escuridão longa, sem fim.
Quando acordei, recebi um tapa no rosto.
A madrasta do pai de Lucas estava em pé na minha frente, com a mão ainda erguida no ar.
Os lençóis da cama estavam amassados e embolados. O pai de Lucas, sentado no sofá, fumava, com o rosto impassível.
Chorando, eu disse que iria chamar a polícia.
Ele bateu as cinzas do cigarro e disse: "Chamar a polícia não terá impacto nenhum sobre mim, mas se não o fizer, você ganhará um milhão."
Era verdade; foi apenas uma tentativa. Não havia prova substancial alguma que pudesse mandá-lo para a prisão.
No fim, aceitei o dinheiro pelo silêncio.
As mensalidades hospitalares da Clarinha estavam atrasadas havia três meses; se não pagasse, seríamos expulsas. Um milhão podia salvar a vida da Clarinha.
Eu odiei o pai do Lucas, odiei o fato de que ele, infelizmente, era seu filho, e odiei Alice.
Mas odiei ainda mais a mim mesma.
Aquela que se calou por dinheiro, e que, depois de aceitá-lo, perdeu todo o direito de se colocar de frente ao Lucas.
A Lívia que amava o Lucas, morreu naquele dia.
A chuva de hoje foi apenas um funeral atrasado para ela.
Ergui a cabeça, e a chuva deslizou pelos meus cílios e entrou nos meus olhos.
Com a visão turva, os postes de luz do outro lado da rua emitiam auréolas de luz, enquanto um Maybach preto parava no centro do brilho.
A placa do carro terminava em 0625, a data do meu aniversário.
A porta do carro abriu; Alice caminhou por trás de mim, passou por mim e sentou-se no banco do passageiro.
Olhei espantada.
A janela do carro subiu lentamente, como as cortinas de uma peça de teatro. Lucas virou o rosto e a beijou nos lábios.
Um toque tão leve, assim como o que costumava me dar.
A imagem se cortava centímetro a centímetro.
Mas eu não desviei o olhar. Vi-o beijá-la, vi a janela se fechar e vi o Lucas de vinte anos sair da minha memória.
Aquele Lucas de vinte anos em pé na chuva, olhando para a loja de vestidos de noiva do outro lado da rua.
E dizendo, muito seriamente, para mim.
"Lívia, se um dia terminarmos, nunca mais me apaixonarei por ninguém em toda a minha vida."
Capítulo 5
O Maybach preto logo desapareceu na cortina de chuva, enquanto eu caminhava na direção oposta, protegida pelo guarda-chuva que Beto me deu.
O guarda-chuva não era grande, e os pingos de chuva batiam nele, fazendo um barulho incessante.
Meu ombro logo ficou encharcado, com a roupa colada na pele, fazendo-me tremer de frio.
Ao voltar para o quarto, Clarinha ainda não estava dormindo.
Deixei o guarda-chuva perto da porta e fui ao banheiro lavar o rosto, com medo de que ela visse meu estado deplorável.
Depois de forçar um sorriso, levei o mingau de milho que acabei de comprar até ela.
Ela estava magra demais.
Uma criança de quatorze anos, com o rosto pequeno como a palma da mão, lábios secos e descascando, e pulsos tão finos que pareciam quebrar ao menor toque.
"Hoje o dono da barraquinha deu um pouco mais de arroz, está bem consistente, beba um pouco mais."
Ela tomou dois goles, mas ao levar a terceira colherada à boca, virou o rosto, incapaz de beber mais.
"Irmã."
"Hum?"
"Você ainda não esqueceu o Dr. Lucas, não é?"
Ela resmungou, tentando me aconselhar como se fosse adulta.
"Nos livros diz que quem te ama de verdade sempre vai esperar no mesmo lugar."
"Ele já vai se casar, não vale a pena sofrer por ele."
Sorri e dei um leve toque na cabeça dela: "Pare de ler tantos romances fantasiosos."
"As pessoas precisam seguir em frente." Tampei o mingau e o coloquei na mesa de cabeceira. "O Dr. Lucas deve seguir em frente, e a irmã também está seguindo."
"Ninguém está errado."
Naquela noite, devido às dores no coração, Clarinha não conseguiu dormir.
No dia seguinte, o hospital organizou uma consulta multidisciplinar.
Sentei-me no banco fora da sala de reuniões, sem entender os termos técnicos, apenas tentando adivinhar se ainda havia esperança para Clarinha através das expressões dos médicos.
No fim, a resposta foi que a cirurgia era possível.
Seria necessário trocar o coração por um artificial, mas o risco era alto.
Havia a possibilidade de rejeição do órgão, infecção pós-operatória ou até de não sobreviver à própria cirurgia.
O médico explicou cada possibilidade claramente.
Mas essa era a única chance de Clarinha recuperar a saúde.
Eu não tinha escolha.
Ao voltar para o quarto, comecei a entrar em desespero por causa dos seiscentos mil necessários para a cirurgia.
Eu tinha pouco mais de trinta mil guardados; meu irmão deu vinte mil e Beto, mais vinte mil.
Somando tudo, não dava nem para cobrir uma fração do custo.
Abri minha lista de contatos e olhei de cima a baixo; alguns nomes já não falavam comigo há anos.
Alguns tinham me emprestado dinheiro uma vez e eu não tinha coragem de pedir de novo.
Alguns números ficaram parados na tela por muito tempo, mas acabei não discando.
Nesse momento, Beto ligou: "Lívia, tem um cara muito rico hoje dizendo que paga vinte mil para quem beber como substituta, quer vir? Ele pediu especificamente por você. Se fizer isso hoje à noite, não precisará se preocupar com a cirurgia da sua irmã!"
Minha garganta secou: "Pediu especificamente por mim?"
"Sim." Beto hesitou e baixou a voz: "Eu também achei estranho, mas ele já pagou o sinal e reservou o camarote. Lívia, se você não quiser ir, eu posso cancelar por você."
Não respondi imediatamente.
Pela pequena janela na porta do quarto, via Clarinha deitada, pálida, com o peito subindo e descendo suavemente com a respiração.
Ela só tinha catorze anos; ainda não tinha ido a um parque de diversões, nem usado um vestido bonito para tirar fotos de formatura.
Ela nem tinha crescido de verdade.
O destino fez Clarinha sofrer muito, mas finalmente, não teve coragem de apagar sua esperança.
Fechei os olhos e, ao abri-los, minha voz estava firme.
"Eu vou."
Beto ficou em silêncio por dois segundos: "Então, não vá de estômago vazio, coma algo antes. E tente beber o mínimo possível; estarei vigiando do lado de fora."
"Tá bom."
Ao desligar, olhei para dentro e vi que Clarinha tinha acordado.
Ela estava abraçando um urso de pelúcia marrom enquanto olhava para mim.
O ursinho já era velho, com as bordas das orelhas gastas e o enchimento da barriga um pouco amassado pelo uso.
Mas Clarinha sempre cuidou dele como um tesouro.
Ela o abraça desde os oito anos, dizendo que, se ele estiver presente, ela não se sente sozinha.
Agora, ela colocou o ursinho nos meus braços.
"Irmã, seu aniversário é daqui a poucos dias. Quero te dar esse ursinho adiantado como presente."