Capítulo 1
No ano em que terminamos, Lucas estava parado no terraço do hospital, com os olhos injetados de sangue.
Ele agarrou minha mão, recusando-se a soltar.
"Lívia, se você terminar comigo, eu pulo daqui."
Cinco anos depois, minha irmã estava gravemente doente, e Lucas se tornou o único médico capaz de realizar a cirurgia.
Ele estava no mesmo terraço, o jaleco branco colado ao corpo pelo vento, com o olhar frio, sem qualquer calor.
"Lívia, não tente me pressionar usando a vida dela."
"Quando eu implorei por você naquela época, você também não olhou para trás, não é?"
……
O vento no terraço estava muito frio.
Fazia meus olhos arderem e minha garganta ficar seca e áspera.
Para ser sincera, eu previa que Lucas não aceitaria me ajudar facilmente.
Mas não esperava que ele devolvesse, palavra por palavra, a frase que eu disse cinco anos atrás.
Cinco anos atrás, estávamos no último ano da faculdade.
Minhas fotos indecentes foram espalhadas pelos principais fóruns universitários, com poses vergonhosas e títulos extremamente sujos.
Naquela época, Lucas estava fazendo estágio neste hospital.
Ele estava parado exatamente neste mesmo terraço, com os olhos vermelhos, me questionando.
"Lívia, a pessoa nas fotos foi criada por inteligência artificial, certo?"
"Desde que você me explique, eu acredito."
Eu não expliquei.
Apenas soltei a mão dele, com a voz tão fria que até para mim mesma parecia estranha: "Lucas, pare de se enganar. Eu simplesmente não te amo mais. Se as fotos são verdadeiras ou falsas, isso importa?"
O sangue no rosto dele foi desaparecendo aos poucos.
A força com que ele segurava meu pulso era tanta que meus ossos doíam, mas sua voz tremia.
"Lívia, você não pode fazer isso comigo..."
"Combinamos de ir ver meus pais logo após a formatura, combinamos de ir ver a aurora boreal no Ártico, combinamos de ficar juntos em São Paulo no futuro."
"Você não pode simplesmente dizer que não me ama mais e me abandonar aqui."
Naquele dia, ele realmente foi até a beira do terraço.
Se desse meio passo para trás, cairia no concreto lá embaixo.
"Lívia, se você realmente terminar comigo, eu pulo daqui."
E eu, parada na porta, olhando para ele, não disse uma única palavra para implorar que ficasse.
Virei as costas e fui embora.
Naquela época, eu pensei que, se fosse cruel o suficiente, Lucas me odiaria.
Se ele me odiasse, não seria arrastado para a lama comigo.
Mas as coisas neste mundo nunca acontecem exatamente como a gente espera.
Hoje, o castigo caiu sobre mim.
Apertei a pasta de prontuários com força, a borda do papel machucava a palma da minha mão, uma dor clara e vívida.
Lucas baixou o olhar para minha mão.
Logo em seguida, ele desviou o foco: "Lívia, você disse agora há pouco que faria qualquer coisa se eu aceitasse a cirurgia, não foi?"
O tom dele era estável, sem demonstrar raiva ou alegria.
"Você continua a mesma de sempre, diz coisas bonitas, mas no final, não cumpre nada."
Meus nós dos dedos ficaram brancos, e a pasta de prontuários ficou amassada na minha mão.
Eu, de fato, prometi muitas coisas a Lucas.
Prometi que, após a formatura, iria conhecer seus pais.
Mais tarde, descobri que a mãe dele era uma figura importante na alta sociedade, e a família dele jamais permitiria que ele se casasse com a filha de um presidiário.
Prometi que iríamos juntos ao Ártico ver a aurora boreal.
Depois, meu pai morreu, minha irmã foi diagnosticada com uma doença grave, e as contas do hospital se acumulavam, uma atrás da outra.
Prometi que, acontecesse o que acontecesse, eu nunca mentiria para ele.
Mas, após o escândalo das fotos há cinco anos, aceitei o dinheiro que a família dele depositou na conta do hospital.
Aquele dinheiro salvou a vida da Clarinha, e também comprou o fim da minha história com Lucas.
Eu não expliquei, nem poderia explicar.
Eu apenas assumi toda a sujeira, fazendo com que ele me odiasse, quanto mais profundamente, melhor.
Ao longo desses anos, a única coisa que não descumpri foi nunca ter gostado de mais ninguém.
Mas essa frase, dita agora, não tem sentido algum.
Ergui a cabeça e olhei para ele: "Lucas, não vim aqui hoje para pedir seu perdão."
"Minha irmã, Clarinha, tem catorze anos. Você viu os exames; os outros hospitais não se atrevem a operá-la."
"Se você aceitar ser o cirurgião principal, assinarei o termo assumindo todos os riscos."
"Se você não quiser, peço apenas que seja honesto comigo: ainda existe algum outro caminho para ela?"
Lucas franziu a testa.
O vento passou entre nós, levantando a ponta do seu jaleco.
Ele colocou as mãos nos bolsos: "Agora você sabe ser razoável."
Minha garganta apertou: "Eu queria ser razoável antes também, mas ninguém me deu a chance."
O olhar dele caiu repentinamente sobre meu rosto; foi um peso enorme, como se a raiva guardada por cinco anos tivesse finalmente encontrado uma brecha.
Mas, logo, ele voltou à sua expressão fria.
"Lívia, não se faça de vítima."
"Quem terminou naquela época foi você, e quem aceitou o dinheiro também foi você. Eu não coloquei uma faca no seu pescoço para te obrigar a ir embora."
Senti as pontas dos dedos dormentes; não tive como rebater.
Porque a parte que ele sabia era verdade.
Nesse momento, a porta do terraço foi aberta por alguém do lado de fora.
As dobradiças da porta emitiram um rangido antigo.
Um médico jovem enfiou metade do corpo para dentro, segurando a ficha de consulta.
"Dr. Lucas, o diretor está te procurando."
Ao terminar de falar, ele me viu lá e hesitou, baixando o tom de voz.
"Além disso, a Srta. Alice está te esperando lá embaixo, disse que a loja do vestido de noivado está apressando."
Vestido de noivado.
Ao ouvir essas quatro palavras, meus dedos afrouxaram, e a pasta de prontuários quase escorregou da minha mão.
Lucas não olhou para mim, pegou a ficha de consulta, com um tom indiferente.
"Entendido."
O jovem médico saiu rapidamente.
A porta se fechou novamente, restando apenas o som do vento no terraço. Baixei os olhos e abracei a pasta de prontuários com força.
Ele vai ficar noivo.
Faz sentido, ele tem quase trinta anos.
Alguém como ele deveria ter uma noiva decente, pura e do mesmo nível social.
Capítulo 2
Lucas passou por mim e, ao se cruzarem, ele parou por um instante. Senti o cheiro leve de desinfetante nele.
Assim como cinco anos atrás, apenas naquela época, eu me sentia segura ao lado dele.
"Deixe o prontuário. Só trato de pacientes, não de velhos sentimentos."
Dito isso, ele abriu a porta e saiu.
Fiquei parada no terraço por um longo tempo, até sentir minhas mãos e pés congelados, antes de descer as escadas segurando os prontuários.
Quando voltei ao quarto, Clarinha estava deitada na cama.
Ela emagreceu muito.
Com catorze anos, seus braços estavam tão finos que mal restava carne nos ossos. Ao me ver entrar, seus olhos se moveram.
"Irmã."
Aproximei-me e arrumei o canto do cobertor dela.
Ela olhou para o meu rosto e perguntou baixinho: "Aquele Dr. Lucas, ele é seu ex-namorado, não é?"
Parei com o movimento das mãos. Clarinha mordeu os lábios rachados: "Ouvi as enfermeiras comentarem."
"Irmã, não quero te deixar em uma situação difícil. Se não tratarmos, está tudo bem?"
Senti como se alguém estivesse apertando meu peito, a dor era tanta que mal conseguia falar, mas ainda assim acariciei o cabelo dela.
O cabelo dela era macio; ao tocar, podia-se sentir os ossos salientes sob o couro cabeludo.
"Que bobagem, o Dr. Lucas é apenas um ex-namorado da sua irmã."
"Ele gostava tanto de mim antigamente, era tão grudento que não conseguia se soltar."
Os olhos da Clarinha ficaram vermelhos.
Abaixei-me e limpei a umidade no canto dos olhos dela: "Então ele não vai ignorar você. A Clarinha com certeza ficará bem."
Passos foram ouvidos na entrada do quarto, e meus dedos travaram.
No segundo seguinte, a voz de Lucas soou atrás de mim.
"Lívia."
"Não me use para enganar crianças."
Girei lentamente; Lucas estava na porta, com os exames da Clarinha na mão.
Ele olhou para mim sem nenhum sorriso nos olhos.
"Analisei as imagens; a cirurgia pode ser feita, mas o risco é muito alto."
Clarinha calou-se imediatamente, olhando-o com tensão, e eu também endireitei a postura.
O olhar de Lucas passou pelo meu rosto e rapidamente voltou para o relatório.
"Amanhã, às oito da manhã, tragam-na para a avaliação pré-operatória."
"Sobre a viabilidade da cirurgia, decidiremos após o resultado da avaliação."
Ele não me deu chance de agradecer, colocou o relatório na mesa de cabeceira com a cara fechada.
"E outra coisa, pare de falar essas coisas para ela."
Apertei os dedos, sem emitir som. Lucas me olhou uma vez, com um olhar muito frio.
"Vim porque ela precisa de cirurgia."
"Não porque ela te chama de irmã."
Ao terminar de falar, virou-se e foi embora. Ele vestia o jaleco branco de forma impecável, e até suas costas exalavam uma frieza que afastava qualquer um.