“Você tem noção de que, quando diz esse tipo de coisa, eu sinto repulsa?”
Os olhos dele também estavam vermelhos, mas sua expressão permanecia firme.
“Estou falando sério. Não importa o que você pense, eu estarei aqui.”
Minha garganta parecia fechada.
Fechei a janela e me sentei na beira da cama.
Não chorei, apenas abaixei a cabeça, com as mãos sobre os joelhos.
Ele se aproximou e se agachou na minha frente.
“Clara. Você não precisa ficar bem agora. E não precisa fingir que está. Do jeito que você for, eu aceito.”
Levantei o olhar para ele, e as lágrimas finalmente caíram.
“Por que você não desiste de mim?” minha voz tremia. “Você deveria ter desistido há cinco anos. Por que ainda veio me procurar?”
“Porque eu não consigo deixar você ir.”
Comecei a chorar alto. Não aquele choro silencioso de antes, com os lábios mordidos, mas um choro verdadeiro, desmedido.
Chorei até o corpo tremer, sem fôlego.
Ele me puxou para seus braços; eu agarrei suas roupas, escondi meu rosto em seu peito e chorei como uma criança.
Não disse obrigado, não pedi desculpas, não disse absolutamente nada.
Apenas chorei, por muito tempo.
Tanto que o céu lá fora escureceu completamente, tanto que os postes de luz de Bergen foram se acendendo um a um.
Cansada de chorar, encostei em seu ombro, com os olhos fechados e cílios ainda úmidos.
Minha respiração foi se estabilizando lentamente, como alguém que se afoga e finalmente é empurrado para a margem.
Ele não se moveu, com medo de me acordar.
Na verdade, eu não estava dormindo.
Depois de muito tempo, eu falei, com a voz abafada: “Lucas, cante uma música para mim.”
Capítulo 14
Lucas ficou surpreso: “Cantar o quê?”
“Qualquer coisa. Algo que você cantava antes.”
Na época da faculdade, quando eu não conseguia dormir, ele cantava para mim.
Ele não cantava bem, mas eu sempre adormecia enquanto ouvia.
Ele limpou a garganta e cantou uma canção antiga.
“Você me pergunta o quanto te amo, o quanto você significa para mim... meu sentimento não muda, meu amor é constante, a lua representa meu coração...”
Sua voz era baixa, fluindo suavemente pelo quarto silencioso.
Encostada em seu ombro, de olhos fechados, toquei suavemente o dorso da mão dele.
A chuva lá fora parou sem que eu percebesse.
Os sinos da igreja ao longe soaram, ecoando pelo mar.
Quando ele terminou, abri os olhos e o encarei.
“Lucas.”
“Sim.”
“Por quanto tempo você me esperou?”
“Desde o dia em que você desapareceu, até agora.”
Abaixei a cabeça e fiquei em silêncio por um longo tempo.
Virei minha mão e entrelaçuei meus dedos nos dele.
“Então espere um pouco mais,” eu disse com a voz muito suave. “Estou quase conseguindo seguir em frente.”
O coração dele deu um salto.
Foi a primeira vez que eu disse algo assim.
Não era “volte”, não era “eu não consigo superar”. Era “estou quase conseguindo seguir em frente”.
Ele apertou minha mão. “Eu espero.”
Os postes de luz projetavam nossas sombras juntas na parede.
A noite em Bergen é longa, mas o sol sempre nasce.
Na tarde seguinte, ele saiu por um bom tempo.
Fiquei em casa sozinha e reorganizei os livros da estante.
Arrumei os livros de medicina por categoria e os romances por ordem alfabética do autor.
Peguei aquela foto antiga, olhei por um momento e a coloquei de volta no lugar.
Na foto, nós dois sorríamos de um jeito bobo; eu estava encostada no ombro dele, e ele me abraçava pela cintura.
Naquela época, aos vinte e um anos, eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo.
Não sei quanto tempo passou, até que a porta se abriu.
Ele entrou trazendo um saco de papel.
Seu sobretudo estava com gotas de chuva e seu cabelo um pouco úmido.
Tinha voltado a chover; a chuva em Bergen é sempre assim, chega sem avisar.
“Onde você foi?” perguntei.
“Buscar uma encomenda.” Ele colocou o saco na mesa e tirou algo de dentro.
Um cachecol. Vermelho, de caxemira, com franjas.
Fiquei paralisada.
“Você adorava usar este cachecol,” ele disse. “Dizia que o vermelho realçava sua pele.”
Peguei o cachecol e passei os dedos pela textura.
A caxemira era macia e aquecia a pele. Era quase idêntico ao que ele me deu na faculdade.
Ao virar um dos cantos, notei um fio puxado e fiquei sem fala — era o mesmo!
Eu o reconhecia. Tinha sido eu quem o puxara sem querer na biblioteca, enquanto lia.
“Onde você achou isso?”
“Você o esqueceu no hotel quando partiu. A recepção guardou. Pedi para me enviarem do país.”
Segurei o cachecol com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.
Pensei ter jogado tudo fora, mas, no fim, ainda guardara isso.
Coloquei o cachecol no pescoço e fui até o espelho.
No reflexo, eu usava um suéter branco e o cachecol vermelho, como se tivesse voltado cinco anos atrás.
Naquela época, eu também me vestia assim e perguntava a ele se estava bonita.
Ele respondia que sim, que qualquer coisa que eu usasse ficava bem. Eu o chamava de bajulador, e ele apenas ria.
Observei por um longo tempo. A mulher no espelho parecia jovem, mas o olhar era diferente.
Há cinco anos, aqueles olhos tinham brilho, expectativa, toda a imaginação voltada para o futuro.
Agora, aqueles olhos pareciam águas paradas, sem ondas, sem luz.
Tirei o cachecol e o coloquei sobre a mesa.
“Lucas.” Chamei seu nome.
“Sim.”
“Você quer me transformar na pessoa de cinco anos atrás?” Minha voz era leve. “Mas eu não sou mais aquela pessoa; aquela garota não existe mais.”
Ele olhou para mim. Ele sabia que eu estava falando a verdade.
A Clara de cinco anos atrás ria, brincava e se aconchegava no ombro dele.
Hoje, eu já não consigo. Nem chorar em voz alta eu ouso mais.
Ele se levantou, caminhou até mim, pegou o cachecol e o enrolou novamente em meu pescoço.
Seus dedos tocaram a pele do meu pescoço, estavam frios.
Ele ajeitou o cachecol lentamente e alinhou as franjas.
“Não preciso que você volte a ser como antes,” ele disse com a voz baixa. “Do jeito que você é, eu quero. Há cinco anos eu não sabia, mas agora, nem que eu morra, eu não abro mão.”
Levantei o olhar para ele.
Em seus olhos não havia pena, não havia compaixão, apenas algo muito profundo, indefinível.
Estávamos tão próximos que pude notar as veias avermelhadas em seus olhos.
Ele tinha emagrecido. Nesses dias na Noruega, ele não teve uma noite de sono tranquila.
Eu notei, mas não disse nada.
Nesse momento, a campainha tocou.
Fiquei surpresa. Bergen é um lugar onde quase ninguém recebe visitas, e eu não tinha amigos aqui.
Fui até a porta e olhei pelo olho mágico.
Então, congelei.
Do lado de fora, estava uma mulher de casaco bege, cabelo perfeitamente penteado e uma maquiagem impecável.
Seus traços eram cinquenta por cento idênticos aos de Lucas.
A mãe de Lucas.
Capítulo 15
Abri a porta com um aperto no coração.
“Não vai me convidar para entrar?” A voz da mãe dele era muito calma, tão calma que não era possível distinguir qualquer emoção.
Afastei-me para o lado e ela entrou.
Ela deu uma olhada rápida no apartamento apertado, seu olhar parou por um segundo na foto que estava na estante e, em seguida, desviou-se.
“Mãe.” A voz de Lucas soou um pouco rígida. “Por que você veio?”
“Vim procurar meu filho.” Ela sentou-se no único sofá, colocando a bolsa no colo. “E também para ver que tipo de mulher é capaz de fazer meu filho destruir o próprio casamento.”
Fiquei parada perto da porta, com a mão ainda na maçaneta, os nós dos dedos brancos.
Seu olhar varreu-me de cima a baixo, como se estivesse avaliando um produto que não a satisfazia plenamente.
Não me escondi, nem baixei a cabeça.
Lucas aproximou-se e ficou na minha frente. “Mãe, o que você veio fazer?”
“Já disse, vim procurar você.” A voz dela era pausada. “O casamento não terminou, você não atende o telefone, não responde às mensagens. O que você quer que uma mãe pense?”
“Eu disse que resolveria as coisas do casamento por conta própria.”
“Você resolve?” Ela deu um sorriso sem brilho. “O resultado da sua resolução foi fugir para a Noruega e viver em um lugar como este?”
Ela olhou ao redor, seus olhos pousaram no refrigerador velho no canto, na garrafa de detergente pela metade em cima do fogão.
Cada olhar era como uma régua, medindo a miséria do lugar.
Eu não disse nada. Já sabia que este dia chegaria.
Cinco anos atrás, ela estava diante da porta da nossa antiga casa e me disse: “Você não está à altura dele”.
Cinco anos depois, ela estava no apartamento e me olhava com o mesmo olhar.
Nada mudou. O que mudou fui eu — cinco anos atrás eu choraria, agora não choro mais.
“Mãe, vá embora.” A voz de Lucas ficou fria. “Não precisa se meter nos meus assuntos.”