“Então, o que você está fazendo agora?” olhei para ele, “Convidar uma ex-namorada para tomar café, querendo reacender o passado?”
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, tanto que pensei que não responderia mais.
“Eu quero uma resposta.” Ele finalmente falou, a voz rouca.
“Por que você me deu o bolo há cinco anos, por que desapareceu sem deixar rastros, por que todos diziam que você tinha ido para a cama com aquele homem——”
Meus olhos ficaram vermelhos instantaneamente.
“Eu não fui.” Eu disse.
“Então me diga o que aconteceu!”
Olhei nos olhos dele, aqueles olhos que antes transbordavam ternura e sorrisos, agora cheios apenas de uma fúria turva.
Eu queria contar a ele, eu realmente queria.
Mas como eu poderia começar? Com toda aquela sujeira.
Ele disse que me esperou por dez horas, mas no momento em que eu mais precisei dele, ele não veio me procurar.
Ele ouviu aquela versão dos fatos, mas não me perguntou nada.
Ele aceitou o casamento por aliança, mas disse que pensou em mim por cinco anos.
“Lucas,” chamei-o pelo nome completo, com a voz tão suave como uma folha caindo, “você tem a Beatriz. Por que ainda me pergunta essas coisas?”
Ele ficou atordoado.
Levantei-me, tirei algumas notas do bolso e coloquei sobre a mesa.
“Este café é por minha conta, obrigada pela espera de cinco anos atrás.”
Baixei os olhos, minhas pontas dos dedos dormentes: “Mas não tenho realmente nada mais a dizer.”
Virei-me e saí da cafeteria.
Não houve passos vindo atrás de mim, apenas uma frase que flutuou de longe.
“Clara, não perguntarei mais.”
Não olhei para trás.
Ao chegar perto da lixeira na esquina, enxuguei as lágrimas na manga.
Então, peguei meu celular e abri a página de reserva de passagens de trem.
Sair desta cidade.
Da última vez, foram mil quilômetros. Desta vez, planejo percorrer dois mil.
Capítulo 3
A luz da tela do celular refletia em meu rosto. As palavras “Confirmar Reserva” pareciam um prego suspenso diante dos meus olhos.
Contudo, meus dedos pairavam sobre o botão, sem coragem de pressioná-lo.
Dois mil quilômetros.
Doze horas de viagem. Uma cidade completamente estranha.
Eu poderia ir. Poderia ir a qualquer momento.
Mas por que minhas mãos estavam tremendo?
Por causa da inconformidade. Porque, após cinco anos, eu devia a mim mesma uma resposta — do que, afinal, eu tinha medo?
Medo de que ele me odiasse? Ele já odiava.
Medo de que ele me esquecesse? Ele quase já tinha esquecido.
Medo de que ele sofresse ainda mais ao saber da verdade?
Este último pensamento caiu sobre mim como um balde de água fria.
Sim. Eu tinha medo que ele soubesse a verdade.
Eu tinha medo que ele soubesse o que aconteceu naquela noite, medo de vê-lo me encarar com aquele olhar — não de ódio, mas de piedade.
E depois? Ele abandonaria sua noiva, abandonaria tudo o que tinha agora, para ser um “salvador” ao meu lado.
Eu não queria a salvação dele. Eu queria que ele vivesse bem, que se casasse bem e que vivesse o resto da sua vida em paz.
Por isso, eu precisava encenar essa peça de indiferença até o fim.
Desliguei o celular e o guardei no bolso.
Na tarde seguinte, Beatriz veio buscar o último exame.
Quando a porta do consultório foi aberta, eu estava de cabeça baixa, organizando prontuários.
Pela visão periférica, vi duas pessoas entrarem, uma logo atrás da outra.
“Doutora, os resultados já saíram?” A voz de Beatriz carregava um sorriso.
“Sim.” Levantei a cabeça.
Beatriz sentou-se à mesa, enquanto Lucas permanecia atrás dela, com uma mão apoiada no encosto da cadeira.
Não era um abraço deliberado, apenas um gesto natural, como se estivessem acostumados àquela proximidade.
Entreguei os exames. Beatriz os pegou, deu uma olhada e virou-se para Lucas: “Está tudo normal”.
Ele apenas murmurou um “hum”, mantendo os olhos no celular, sem olhar para mim.
“Doutora,” Beatriz guardou os papéis na bolsa e, de repente, sorriu. “Nosso casamento será no dia dezoito do próximo mês. Você está livre? Seria muito bem-vinda para comemorar conosco.”
Antes que eu pudesse responder, uma voz interrompeu.
“Por que convidar uma estranha?”
Lucas guardou o celular, com um tom de voz indiferente, como se falasse de algo irrelevante.
Beatriz ficou atônita: “A Doutora não é uma estranha, ela é sua conterrânea—”
“É apenas uma conterrânea.” Ele disse. “Não temos intimidade.”
Essas sete palavras foram como uma faca cega; não cortaram de uma vez, serraram pouco a pouco.
Sem intimidade. Claro, sem intimidade.
Que tipo de relação haveria entre alguém que esperou dez horas na porta do cartório e alguém que disse “se eu não fui, é porque não fui”?
“Então tudo bem,” Beatriz olhou para mim, sorrindo um pouco sem graça. “Não leve a mal, Doutora, eu fui invasiva.”
“Não tem problema.” Eu respondi, com uma voz tão estável que parecia estranha até para mim mesma. “O hospital é sempre muito movimentado.”
Eles se viraram e saíram. A mão de Lucas repousava naturalmente sobre o ombro de Beatriz.
Beatriz disse algo a ele e ele abaixou a cabeça, dando um leve sorriso.
Aquele sorriso era sutil, mas eu vi.
Era a mesma forma como ele costumava olhar para mim.
Uma leve inclinação de cabeça, um pequeno arco nos cantos da boca, um brilho nos olhos.
A porta se fechou.
Fiquei sentada, encarando a porta fechada, com o peito parecendo obstruído por algo pesado.
Não era dor, era vazio.
Como se alguém tivesse extraído minhas entranhas, deixando apenas uma carcaça.
Peguei o copo de água na mesa, que já estava frio, e tomei um gole. Fria, amarga, sem gosto algum.
Peguei o celular, querendo falar com alguém.
Vasculhei a lista de contatos; centenas de nomes, entre colegas e pacientes, mas não havia ninguém para quem eu pudesse ligar.
Ninguém conhecia Clara.
Eles apenas conheciam a Dra. Clara, uma médica sem passado, vinda de outra cidade.
Nesse momento, o celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido.
Abri e minhas pupilas se contraíram.
“Clara, sua irmã saiu da prisão e quer te ver.”
Irmã. Elisa. A pessoa que, cinco anos atrás, me entregou aquele copo de água.
Meus dedos paralisaram sobre a tela. O celular deslizou da minha mão, caindo na mesa com um som seco.
Capítulo 4
Elisa, minha irmã de sangue.
Quando éramos crianças, ela guardava doces para mim e, quando eu sentia medo, cobria meus olhos dizendo: “Não se preocupe, sua irmã está aqui”.
Mas depois que ela se casou, não conseguiu ter filhos; sua sogra a criticava todos os dias e seu marido a traía constantemente.
O olhar dela para mim mudou — porque eu tinha Lucas, porque eu estava prestes a me casar com um homem que me amava.
Cinco anos atrás, quando ela me entregou aquele copo de água, sua mão não tremeu.
Mais tarde, denunciei à polícia e mandei tanto ela quanto seu marido, Bruno, para a cadeia.
O celular vibrou novamente.
Peguei-o e vi uma foto.
O perfil do médico no site do hospital — Dra. Clara, ginecologista, com minha foto e número de contato abaixo.
“Clara, sua irmã te encontrou.”
Ela me odiava.
Por isso, ela vasculhou a internet, foto por foto, até encontrar meu rosto.
Coloquei o celular virado para baixo na mesa, como se temesse que ele explodisse.
Depois de ficar sentada sozinha por muito tempo, fui à sala do chefe e pedi uma semana de folga.
Eu não sabia quando ela poderia aparecer de repente.
Nos dias que se seguiram, não ousei sair. Mantive as cortinas fechadas, sem conseguir distinguir o dia da noite.
Sempre que fechava os olhos, eu caía em um pesadelo.
No quinto dia de licença, decidi sair para tomar um pouco de ar.
Sem destino, caminhei pela calçada.
Parei diante de um shopping, onde na vitrine havia um vestido de noiva branco. A luz incidia sobre ele, ferindo meus olhos.
Fiquei diante da vitrine, observando aquele vestido, distraída.
Ele era muito parecido com o que eu planejava usar no meu casamento, cinco anos atrás.
“Doutora?”
Virei-me.
Beatriz estava atrás de mim, segurando alguns álbuns de vestidos de noiva.
Lucas estava ao lado dela, vestindo um sobretudo cinza-escuro e segurando dois cafés.
“Que coincidência,” Beatriz sorriu e aproximou-se. “Você também veio ver vestidos de noiva?”
“Estava apenas de passagem.” Eu disse.
“Entre para sentar um pouco, está frio lá fora.” Beatriz já tinha empurrado a porta da loja. “Ajude-me a opinar, o gosto dos homens não é confiável.”
O olhar de Lucas passou por mim, sem qualquer expressão.
Ele seguiu Beatriz para dentro. Hesitei na porta por dois segundos, mas acabei entrando também.
A loja era grande, com lustres de cristal e tapetes brancos.
Beatriz foi levada pela vendedora para o provador, segurando um vestido com cauda. Ela se virou para mim com um sorriso: “Doutora, pode sentar um pouco, serei rápida.”
No sofá, restamos apenas eu e Lucas.
Ele estava em uma ponta, olhando para o celular. Eu estava na outra, com dois almofadões de distância entre nós.