《A Vingança da Perfumista Exilada》Capítulo 1

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Capítulo 1: O Fim do Ponto Cego

O estalo do trinco da cobertura ecoou como um tiro de misericórdia em sua dignidade, selando o exílio da mulher que, a partir daquele segundo, matou o amor para dar vida à promessa mais letal de sua existência.

O som do metal se chocando foi a última barreira que ruiu entre o passado de submissão de Fiorella e o abismo de gelo que se abria em sua alma.

A chuva torrencial de São Paulo lavava o sangue que escorria de seus joelhos ralados no asfalto da Alameda Lorena, mas nenhuma gota era capaz de apagar o calor da humilhação que queimava em seu peito.

Ela olhou para cima, encarando a silhueta imponente do edifício de alto luxo onde as luzes do trigésimo andar ainda brilhavam como um monumento à opressão de Balthazar.

"Você me jogou na lama achando que eu morreria sufocada, Balthazar, mas o cheiro deste asfalto molhado será a assinatura da sua ruína" sussurrou Fiorella para a escuridão, pressionando o ventre com as duas mãos trêmulas.

O herdeiro legítimo dos Albuquerque pulsava sob sua pele, um segredo sagrado que ela protegeria do homem que acabara de condená-los à morte social. Com os dentes batendo pelo frio cortante da madrugada, ela se levantou, recusando-se a derramar mais uma única lágrima por um homem que preferira a paranoia ao amor.

Dentro do apartamento de teto triplo, o silêncio que se seguiu à expulsão era mais pesado do que o barulho dos trovões que sacudiam a avenida Paulista.

Balthazar caminhava de um lado para o outro sobre o tapete persa manchado de água da chuva, com os punhos cerrados e a respiração descompassada de um animal encurralado por seus próprios demônios.

"Você fez o que precisava ser feito, meu amor, aquela sonsa estava destruindo a credibilidade da sua holding por trás das suas costas" proferiu Antonella, surgindo da penumbra do corredor com um sorriso felino e uma taça de vinho nas mãos.

"Saia da minha frente, Antonella, a sua presença nesta sala me dá tanto nojo quanto a traição que acabei de assinar" rugiu o magnata, fazendo a herdeira dos Ramos recuar um passo com a fúria cega que emanava de seus olhos azul-escuro.

Balthazar caminhou até o bar de nogueira e derramou uma dose generosa de uísque puro, tentando queimar o gosto da fragrância de jasmim que Fiorella havia deixado impregnada no ar.

Cada canto daquela cobertura exalava o talento da esposa que ele cagara, um lembrete constante de que o coração do seu império de cosméticos pertencia à mulher que ele expulsara descalça.

"Eu posso gerenciar a crise da nova linha de perfumes, Balthazar, os laboratórios da minha família estão à sua inteira disposição para o que precisar" insistiu Antonella, tentando tocar o ombro rígido do bilionário com seus dedos frios.

"Nenhum químico da sua estirpe chega aos pés da mente da Fiorella, e se você tocar em mim novamente, farei questão de colocar a sua família na rua antes do amanhecer" sibilou o tirano, afastando-se com um asco que fez o rosto da vilã empalidecer sob a maquiagem cara.

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Enquanto o inferno doméstico se instalava na elite paulistana, Fiorella arrastava seus pés sangrentos em direção a uma cabine telefônica antiga a poucas quadras dali.

Seus dedos, outrora delicados e acostumados a manipular as essências mais raras do mundo, agora mal conseguiam discar o número internacional que guardara na memória como última rota de fuga.

A linha chiou por alguns segundos antes que a voz grave e aristocrática de Matías respondesse do outro lado do oceano, direto de um laboratório em Paris onde a noite mal começara.

"Fiorella? Pelos deuses, o que aconteceu com a sua voz, por que você está respirando como se estivesse fugindo de um assassino?" questionou o conde francês, sua postura mudando instantaneamente de profissional para um estado de alerta máximo.

"O monstro que eu chamei de marido comprou a mentira da Antonella e me jogou no meio da tempestade sem um tostão no bolso, Matías" respondeu ela, contendo o soluço para que o som da sua fraqueza não cruzasse o Atlântico.

"Aquele maldito Albuquerque vai pagar caro por tocar na única mente brilhante que a perfumaria moderna possui nesta década" declarou o francês, o som de digitação rápida no computador ecoando pelo receptor público.

"Eu preciso que você ative aquela conta offshore que meu pai biológico deixou em seu nome, eu vou para Paris no primeiro voo da manhã" ordenou Fiorella, com uma autoridade que nunca demonstrara enquanto vivia sob a sombra de Balthazar.

"O jato executivo da minha família estará no aeroporto de Congonhas em duas horas, Fiorella, apenas entre naquele avião e deixe que o resto do mundo queime sob as suas ordens" garantiu Matías, selando o destino da herdeira com a firmeza de um verdadeiro aliado.

Ao desligar o telefone público, Fiorella olhou para o reflexo do seu rosto na vidraça suja da cabine, notando que a menina assustada e romântica havia desaparecido por completo.

Em seu lugar, as pupilas de seus olhos de âmbar brilhavam com um fulgor perigoso, uma tonalidade dourada que parecia capturar a eletricidade dos raios que cortavam o céu de São Paulo.

Ela caminhou até o banheiro de um posto de combustível vinte e quatro horas para limpar o sangue de suas pernas e o rastro da lama que o asfalto dos Jardins lhe impusera.

Olhando-se no espelho quebrado, ela pegou o batom vermelho que restara em seu bolso e escreveu uma única palavra no vidro antes de pegar o táxi para o aeroporto.

"Fiora" foi a palavra que restou gravada na parede do banheiro, o novo nome da divindade da perfumaria que nasceria das cinzas daquela rejeição sórdida.

Duas horas depois, os pneus do jato de Matías tocaram a pista molhada de Congonhas, e Fiorella subiu a escada da aeronave sem olhar para trás uma única vez. Ela se acomodou na poltrona de couro italiano do avião, aceitando a manta de cashmere que o comissário lhe ofereceu enquanto o motor turbofã começava a rugir em direção aos céus da Europa.

"O senhor Albuquerque tentou ligar para o hangar três vezes nos últimos dez minutos, senhora, ele parece ter descoberto a movimentação do nosso plano de voo" informou o piloto através do sistema de comunicação interna.

"Bloqueie qualquer transmissão vinda daquela holding e diga a ele que a Fiorella Silva morreu na calçada da Alameda Lorena" respondeu ela, fechando os olhos enquanto o jato ganhava altitude e rasgava as nuvens negras da capital paulista.

Longe dali, na mesa central do escritório da Albuquerque Holding, Balthazar encarava o sinal de ocupado no telefone com uma expression que misturava ódio e uma súbita, mas inexplicável, pontada de pânico no peito.

O copo de cristal em sua mão foi esmagado com tanta força que os estilhaços cortaram a palma de sua mão direita, fazendo o sangue escuro pingar sobre a mesa de mogno.

"Ela não teria a audácia de fugir do país sem os meus recursos, aquela garota não passa de uma órfã que eu tirei da miséria!" gritou o CEO para as paredes vazias, sentindo um vazio estranho começar a corroer seu estômago.

"A polícia já emitiu o alerta de busca nas rodoviárias, senhor, mas não há sinal dela em nenhum hotel de classe baixa da grande São Paulo" informou o chefe de segurança, mantendo a cabeça baixa para não se tornar o próximo alvo da fúria do patrão.

Balthazar caminhou até a janela de vidro fumê que dava para a imensidão de prédio da cidade, percebendo que a tempestade começava a ceder espaço para as primeiras luzes cinzentas do amanhecer.

No entanto, o cheiro de jasmim e terra molhada parecia ter se fixado em suas narinas de forma permanente, um perfume fantasma que ele passaria os próximos quatro anos tentando arrancar de sua própria pele sem sucesso.

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