A notícia de que a morte de José Antônio Ferreira poderia não ter sido natural mudou completamente São Bento da Serra.
Durante décadas, aquela cidade acreditou que o velho dono do sítio havia partido tranquilamente em sua cama.
Um homem simples.
Um homem querido.
Um homem que apenas envelheceu.
Mas agora existia uma pergunta que ninguém conseguia ignorar.
Quem estava com José Antônio nas últimas horas da vida dele?
E por que alguém tentou esconder isso?
No sítio, Isabela passava cada minuto tentando montar as peças daquele quebra-cabeça.
A caixa de ferro estava novamente aberta sobre a mesa.
Os documentos antigos.
As fotografias.
As anotações do avô.
Tudo parecia apontar para uma única direção.
José Antônio sabia que estava em perigo.
Marcos observava Isabela enquanto ela lia novamente a carta.
"Ele sabia que alguém queria tirar tudo dele."
Ela apertou o papel entre os dedos.
"Mas ele não fugiu."
Marcos ficou em silêncio.
Porque aquela era a parte que mais impressionava.
José Antônio teve chances de abandonar aquela luta.
Poderia ter vendido as terras.
Poderia ter ficado rico.
Poderia ter ido embora.
Mas escolheu permanecer.
Escolheu proteger a floresta e as famílias que dependiam dela.
Na manhã seguinte, o delegado Rafael Monteiro voltou ao sítio.
Dessa vez, ele trouxe uma pasta cheia de documentos.
"Encontramos algo importante."
Isabela levantou imediatamente.
"O quê?"
O delegado colocou alguns papéis sobre a mesa.
"Na semana antes da morte do seu avô, ele tentou registrar uma denúncia."
O coração dela acelerou.
"Uma denúncia contra quem?"
Rafael olhou para ela.
"Contra o grupo responsável pela venda ilegal das terras."
Marcos se aproximou.
"E Padre Miguel?"
O delegado não respondeu imediatamente.
Mas seu silêncio já dizia tudo.
"Ele aparece em vários documentos antigos."
Isabela sentiu uma mistura de raiva e tristeza.
"Então meu avô tentou denunciar ele."
Rafael confirmou.
"Sim."
Ele abriu outro documento.
"Mas a denúncia nunca foi concluída."
"Por quê?"
O delegado respirou fundo.
"Porque faltava uma prova definitiva."
Isabela olhou para Thor.
O cachorro estava deitado próximo à porta.
Mas parecia atento a cada palavra.
"A única testemunha era meu avô."
Rafael balançou a cabeça.
"Não."
Ele olhou para Thor.
"A única testemunha que ainda está viva pode ser esse cachorro."
O silêncio tomou conta da sala.
A ideia parecia absurda.
Mas todos ali sabiam que Thor tinha visto algo.
Ele estava na casa.
Ele reconheceu Padre Miguel.
Ele tentou impedir que o padre se aproximasse do corpo de José Antônio.
Não era um comportamento aleatório.
Era uma lembrança.
Rafael explicou que precisava reconstruir os últimos momentos do falecido.
Então pediu para Isabela levá-lo novamente até o quarto do avô.
Thor acompanhou.
O cachorro caminhou lentamente pelo corredor.
Parou diante da poltrona.
Depois foi até a porta.
O delegado observava cada movimento.
"Ele sempre faz esse caminho?"
Isabela respondeu:
"Desde que encontrou a caixa."
Thor continuou andando.
Ele foi até o escritório.
Parou diante da gaveta onde José Antônio guardava seus documentos.
Depois começou a arranhar o chão.
Marcos estranhou.
"O que ele está procurando?"
Isabela se aproximou.
Debaixo de uma tábua solta havia uma pequena marca.
Rafael pediu uma ferramenta.
Depois de alguns minutos, conseguiram levantar a madeira.
Dentro havia um envelope antigo.
Todos ficaram em silêncio.
Isabela reconheceu imediatamente.
Era a letra do avô.
Com as mãos tremendo, abriu o envelope.
Dentro havia uma folha.
Poucas palavras.
Mas suficientes para mudar tudo.
"Se algo acontecer comigo, procurem a gravação."
Ela parou.
"Gravação?"
Marcos olhou para ela.
"Seu avô gravou alguma coisa?"
Isabela continuou lendo.
"Eu não posso confiar em ninguém. Nem mesmo nos que usam roupas de fé."
A frase deixou todos tensos.
Rafael pegou o papel.
"Ele estava falando de Padre Miguel."
Mas havia outra informação.
Uma pista escondida.
José Antônio escreveu que guardava uma cópia das provas em um lugar onde ninguém procuraria.
A floresta.
A mesma floresta onde a caixa foi encontrada.
Isabela lembrou do dia em que Thor a levou até a árvore antiga.
O cachorro não estava apenas seguindo um cheiro.
Ele sabia onde procurar.
Naquela tarde, a equipe de investigação começou uma nova busca pela propriedade.
Enquanto caminhavam pela mata, Thor seguia na frente.
Ele parecia cansado.
Mas determinado.
Até que parou diante de uma área cercada por árvores antigas.
Rafael olhou ao redor.
"Seu avô esteve aqui?"
Isabela respondeu:
"Sim."
Mas antes que pudessem procurar mais, encontraram algo estranho.
Marcas recentes no chão.
Pegadas.
Alguém tinha passado por ali recentemente.
Marcos abaixou e tocou a terra.
"Não foram vocês."
Todos ficaram alertas.
Alguém também estava procurando os segredos de José Antônio.
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Padre Miguel observava o sítio de longe.
Dentro de seu escritório na igreja, ele abriu uma gaveta escondida.
Retirou uma fotografia antiga.
Era a mesma fotografia encontrada por Isabela.
Mas havia uma diferença.
Na versão dele, José Antônio não estava sozinho.
Ao lado do velho fazendeiro havia uma pessoa que ninguém conhecia.
Uma pessoa que poderia destruir tudo.
Padre Miguel passou a mão pelo rosto.
Durante trinta anos, ele acreditou que aquele segredo morreria junto com José Antônio.
Mas agora a neta dele estava chegando cada vez mais perto.
Ele pegou o telefone.
"Ela encontrou a caixa."
Do outro lado, uma voz respondeu:
"Então precisamos agir antes que ela encontre o resto."
Padre Miguel fechou os olhos.
"Eu achei que o cachorro morreria junto com ele."
A voz respondeu:
"Mas ele não morreu."
Naquela mesma noite, uma tempestade atingiu São Bento da Serra.
O vento forte balançava as árvores do Sítio Ferreira.
Isabela estava no quarto tentando organizar todos os documentos quando Thor começou a rosnar.
Não era um rosnado comum.
Era o mesmo som que ele fez no cemitério.
Ela levantou imediatamente.
"Thor?"
O cachorro estava olhando para a janela.
Do lado de fora, uma sombra atravessou lentamente o quintal.
Marcos pegou uma lanterna.
"Tem alguém aqui."
A energia acabou.
A casa ficou completamente escura.
Eles ouviram a porta dos fundos abrir.
Passos entraram silenciosamente.
Alguém conhecia aquela casa.
Sabia onde procurar.
Thor começou a latir desesperadamente.
Mas a pessoa não tentou fugir.
Ela caminhou diretamente até o escritório de José Antônio.
Até o lugar onde a caixa de ferro havia sido encontrada.
Isabela segurou a respiração.
Porque percebeu uma coisa.
Aquela pessoa não veio roubar dinheiro.
Não veio levar objetos.
Ela veio procurar uma única coisa.
Os segredos que José Antônio escondeu antes de morrer.