《O Cão Que Não Abandonou o Caixão》Parte 5

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Durante três dias, todos na cidade acreditaram que Thor havia enlouquecido.

O cachorro velho que sempre foi conhecido por ser dócil, companheiro e tranquilo, de repente atacou um homem dentro de um cemitério.

Para muitos moradores de São Bento da Serra, aquilo parecia inexplicável.

Mas para Isabela Ferreira, aquela reação tinha um motivo.

Thor não era um animal agressivo.

Ele era um cachorro que lembrava.

Naquela manhã, Isabela decidiu descobrir exatamente o que aconteceu no dia da morte do avô.

Ela voltou ao quarto de José Antônio.

O mesmo quarto onde ele passou os últimos anos da vida.

O cheiro dele ainda estava nos móveis.

O velho relógio de parede ainda fazia o mesmo som.

Cada detalhe parecia guardar uma parte da história que ninguém conhecia.

Thor entrou atrás dela.

O cachorro caminhou lentamente até a poltrona onde José Antônio costumava sentar todas as tardes.

Ele ficou parado.

Olhando para o lugar vazio.

Isabela sentiu os olhos encherem de lágrimas.

"Você sente falta dele também, não é?"

Thor baixou a cabeça.

Por alguns segundos, parecia apenas um cachorro triste.

Mas então algo mudou.

Ele começou a andar pela sala.

Parou perto da porta de entrada.

Depois olhou para Isabela.

Ela percebeu.

Ele não estava apenas lembrando do dono.

Ele estava tentando mostrar alguma coisa.

"Thor... você quer me levar até onde?"

O cachorro caminhou até a varanda.

Parou diante da madeira antiga.

E começou a cheirar o chão.

Isabela se aproximou.

Ali havia uma marca quase apagada de lama.

Uma marca que ela não tinha percebido antes.

Marcos apareceu atrás dela.

"Isso estava aqui desde o dia em que seu avô morreu?"

Ela olhou para a marca.

"Eu não sei."

Mas naquele momento, Thor começou a ficar inquieto.

Ele andava de um lado para outro.

Depois olhou para a estrada que levava ao sítio.

Como se esperasse que alguém chegasse.

Isabela percebeu que precisava entender o que aconteceu naquela casa antes da morte de José Antônio.

Então decidiu procurar todas as pessoas que estiveram ali naquele dia.

A primeira foi Dona Celina.

A senhora recebeu Isabela na pequena casa ao lado da igreja.

Quando ouviu a pergunta, ficou em silêncio.

"Você lembra quem visitou meu avô naquele dia?"

Dona Celina desviou o olhar.

Parecia ter medo da resposta.

"Minha filha... algumas coisas são difíceis de lembrar."

Isabela segurou sua mão.

"Eu preciso saber a verdade."

A mulher suspirou.

"Seu avô recebeu uma visita naquela tarde."

O coração de Isabela acelerou.

"Quem?"

Dona Celina demorou alguns segundos.

Então respondeu:

"Padre Miguel."

A confirmação fez o sangue de Isabela gelar.

Ela já suspeitava.

Mas ouvir aquilo de outra pessoa tornava tudo real.

"O que ele queria?"

Dona Celina olhou pela janela.

"Eu não ouvi toda a conversa."

Ela fez uma pausa.

"Mas ouvi os dois discutindo."

Isabela ficou imóvel.

"Discutindo?"

A senhora assentiu.

"José Antônio estava muito nervoso."

Dona Celina fechou os olhos, tentando lembrar.

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"Ele disse que não entregaria algo para ninguém."

Isabela sentiu um arrepio.

"Ele falou sobre a caixa?"

"Eu não sei."

A senhora respondeu.

"Mas lembro de uma coisa."

Ela olhou para Thor.

"O cachorro estava na varanda naquele momento."

Isabela entendeu.

Thor tinha visto tudo.

Ele estava ali.

Quando ninguém prestou atenção.

Quando todos acreditavam que José Antônio havia morrido sozinho.

Naquela noite, Isabela voltou para casa decidida.

Ela pegou a caixa de documentos novamente.

Procurou qualquer informação sobre a última visita de Padre Miguel.

Entre os papéis antigos, encontrou uma anotação feita pelo avô.

Era apenas uma frase.

Mas parecia escrita às pressas.

"Ele voltou."

Isabela sentiu um peso no peito.

Marcos olhou para o papel.

"Quem?"

Ela não respondeu.

Porque sabia.

Padre Miguel.

No dia seguinte, Isabela procurou a delegacia da cidade.

O delegado Rafael Monteiro conhecia José Antônio há muitos anos.

Quando ela contou tudo, ele inicialmente ficou desconfiado.

"Isabela, seu avô era querido por todos. Mas acusar um padre de algo tão grave exige provas."

Ela colocou a fotografia antiga sobre a mesa.

Depois colocou o documento das terras.

Por fim, mostrou o relógio.

"O meu avô morreu com segredos que alguém tentou esconder."

O delegado observou os objetos.

Ele conhecia José Antônio.

Sabia que aquele homem não era alguém que criaria uma história sem motivo.

"Vou reabrir a investigação."

A notícia rapidamente se espalhou pela cidade.

E a reação de Padre Miguel foi imediata.

Ele apareceu na delegacia naquela mesma tarde.

Com um rosto tranquilo.

Mas os olhos mostravam preocupação.

"Delegado, espero que isso seja apenas um mal-entendido."

Rafael respondeu:

"Estamos apenas fazendo novas perguntas."

Padre Miguel sorriu.

"Por causa da palavra de uma mulher e de um cachorro?"

A frase irritou Isabela.

Ela estava presente.

"Não."

Ela respondeu.

"Por causa das mentiras que apareceram depois da morte do meu avô."

O padre olhou para ela.

E pela primeira vez não tentou parecer gentil.

"Você está seguindo um caminho perigoso."

Isabela não recuou.

"Meu avô também seguiu um caminho perigoso quando decidiu proteger a verdade."

Padre Miguel ficou em silêncio.

Depois saiu.

Mas todos perceberam.

Ele estava com medo.

A investigação começou novamente.

Os policiais voltaram ao sítio.

Analisaram documentos.

Conversaram com moradores antigos.

E principalmente, ouviram o depoimento mais estranho de todos.

O de Thor.

Claro que o cachorro não podia falar.

Mas seu comportamento mostrava algo.

Os investigadores observaram o animal caminhar pela casa.

Ele parou no escritório de José Antônio.

Depois foi até a porta da sala.

O mesmo caminho que alguém teria feito naquela tarde.

O veterinário da cidade, Dr. Henrique Bastos, ajudou a analisar as reações do cachorro.

"Animais têm memória associativa muito forte."

Ele explicou.

"Thor pode estar relacionando o cheiro e o ambiente com um momento de ameaça."

Isabela perguntou:

"Então ele lembra daquela pessoa?"

O veterinário olhou para o cachorro.

"Sim."

A resposta trouxe um silêncio profundo.

Thor não atacou Padre Miguel no funeral por causa da morte.

Ele atacou porque reconheceu alguém ligado ao último momento de José Antônio.

Enquanto isso, a polícia conseguiu autorização para revisar o laudo médico da morte.

Até então, todos acreditavam que José Antônio havia falecido durante a noite.

A causa registrada era uma parada cardíaca natural.

Mas algo chamou a atenção do novo perito.

O corpo não apresentava sinais compatíveis com o horário informado.

O médico legista, Dr. Henrique Bastos, analisou novamente os registros.

Depois chamou o delegado.

"Temos um problema."

Rafael ficou sério.

"O que aconteceu?"

O perito colocou os documentos sobre a mesa.

"O horário da morte está errado."

O delegado franziu a testa.

"Como assim?"

Henrique respirou fundo.

"José Antônio não morreu no horário que informaram."

Ele apontou para o relatório.

"A estimativa inicial foi feita com base em informações incompletas."

Isabela, que estava na sala, sentiu as pernas perderem força.

"Então quando meu avô morreu?"

O médico olhou para ela.

A resposta parecia difícil até para ele dizer.

"Ele morreu horas depois do momento que todos acreditavam."

O silêncio tomou conta da sala.

Marcos segurou a mão de Isabela.

Porque aquela informação mudava tudo.

Se José Antônio morreu mais tarde...

Então ele não estava sozinho naquela noite.

E alguém esteve com ele até os últimos minutos de vida.

Naquele instante, Thor levantou a cabeça.

Ele olhou para a porta da delegacia.

E começou a rosnar.

Do lado de fora, uma figura parada observava pela janela.

Era alguém que não queria que a verdade fosse descoberta.

E Isabela percebeu que a investigação estava apenas começando.

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