A noite caiu lentamente sobre São Bento da Serra.
A pequena cidade de Minas Gerais parecia diferente depois do que aconteceu no cemitério.
As pessoas que antes falavam sobre a morte de José Antônio Ferreira agora cochichavam sobre o que Thor havia revelado.
Na praça principal, em frente à antiga igreja, os moradores se reuniam em pequenos grupos.
Todos tinham uma opinião.
Alguns acreditavam que o relógio havia sido apenas um acidente.
Outros diziam que nenhum cachorro faria aquilo sem motivo.
Mas uma coisa todos concordavam:
Thor sabia de alguma coisa.
Enquanto a cidade inteira tentava entender o que havia acontecido, Isabela Ferreira permanecia dentro do antigo sítio do avô, sentada diante da caixa de ferro encontrada na floresta.
A pequena caixa estava sobre a mesa de madeira da cozinha.
Ela ainda carregava marcas da terra onde ficou escondida por décadas.
Ao lado dela estava Thor.
O velho Golden Retriever estava deitado no chão.
Cansado.
Ferido pelo esforço dos últimos dias.
Mas seus olhos continuavam atentos.
Como se esperasse que Isabela descobrisse a verdade.
Marcos Almeida acendeu uma pequena luminária sobre a mesa.
A energia da casa oscilava por causa da chuva forte.
"Você tem certeza que quer abrir isso agora?"
Isabela passou a mão pela tampa enferrujada.
Durante toda a vida, ela acreditou conhecer o avô.
O homem simples que acordava cedo.
Que cuidava do sítio.
Que reclamava quando ela gastava dinheiro demais.
Mas agora tudo parecia uma mentira incompleta.
"Meu avô escondeu essa caixa por algum motivo."
Ela respirou fundo.
"E alguém tentou impedir que eu encontrasse."
Marcos olhou para Thor.
O cachorro levantou levemente a cabeça ao ouvir aquelas palavras.
Como se confirmasse.
Depois de alguns minutos tentando abrir a fechadura antiga, Marcos conseguiu quebrá-la.
O som do metal rompendo ecoou pela cozinha silenciosa.
Isabela segurou a respiração.
Ela abriu a tampa lentamente.
E o passado de José Antônio Ferreira apareceu diante dela.
Dentro da caixa havia fotografias antigas.
Documentos amarelados pelo tempo.
E uma carta cuidadosamente protegida dentro de um envelope plástico.
Isabela pegou a primeira fotografia.
Seus olhos se arregalaram.
Era o avô ainda jovem.
Mas ele não estava sozinho.
Ao lado dele havia vários homens em uma grande área de floresta.
Atrás deles existiam placas de madeira indicando limites de uma propriedade.
Marcos pegou outra foto.
"Isabela..."
Ela se aproximou.
Na imagem, José Antônio segurava um documento.
No rosto dele não havia o homem simples que todos conheciam.
Havia confiança.
Havia autoridade.
Era a imagem de alguém que parecia comandar algo importante.
"Esse não parece o meu avô."
Marcos olhou para ela.
"Talvez seja justamente o seu avô que você nunca conheceu."
A frase atingiu Isabela.
Ela continuou mexendo na caixa.
Cada documento revelava uma parte de uma história escondida.
E então ela encontrou um papel dobrado com um símbolo antigo da família Ferreira.
Era um documento de propriedade.
Seus olhos percorreram as linhas.
Ela não conseguia acreditar.
"Não pode ser."
Marcos perguntou:
"O que foi?"
Isabela levantou o documento com as mãos tremendo.
"Essa terra..."
Ela olhou novamente.
"Eles não eram donos apenas desse pequeno sítio."
Marcos se aproximou.
O documento mostrava uma enorme área de floresta em Minas Gerais.
Milhares de hectares.
Uma propriedade que se estendia por grande parte das montanhas próximas.
José Antônio Ferreira não era apenas um trabalhador da região.
Ele era um dos maiores proprietários de terras daquela área.
Isabela sentiu um vazio no peito.
Durante anos, ela ouviu o avô dizer que era apenas um homem simples.
Que não tinha nada além daquela casa e daquele pedaço de terra.
Mas agora descobria que ele havia escondido uma fortuna.
Por quê?
Ela abriu o envelope.
Dentro havia uma carta escrita à mão.
A letra era antiga.
Mas ela reconheceu imediatamente.
Era a letra do avô.
Com cuidado, começou a ler.
"Minha querida família..."
A voz dela falhou.
Marcos colocou a mão sobre o ombro dela.
Isabela continuou.
"Se você encontrou esta caixa, significa que eu não consegui proteger tudo sozinho."
Ela parou.
O coração começou a acelerar.
Thor levantou a cabeça.
Como se também estivesse ouvindo.
Isabela continuou lendo.
"Passei muitos anos tentando manter essa verdade escondida para proteger aqueles que amo."
A chuva voltou a bater contra as janelas.
O ambiente ficou ainda mais pesado.
Ela virou a página.
E encontrou a frase que mudaria tudo.
"Se eu morrer, significa que eles já começaram a agir."
Isabela ficou imóvel.
As palavras pareciam impossíveis.
Ela deixou a carta cair sobre a mesa.
"Ele sabia..."
Marcos olhou para ela.
"Sabia o quê?"
Isabela apontou para a carta.
"Meu avô sabia que alguém poderia tentar fazer alguma coisa contra ele."
O silêncio tomou conta da cozinha.
Pela primeira vez, a morte de José Antônio deixou de parecer natural.
Não era apenas uma perda.
Talvez fosse um aviso.
Marcos pegou os documentos novamente.
"Isabela, seu avô estava escondendo uma guerra."
Ela olhou para as fotografias antigas.
Em uma delas, José Antônio aparecia discutindo com homens de terno.
Entre eles estava alguém conhecido.
Ela aproximou a foto da luz.
Seu rosto ficou pálido.
"Não..."
Marcos percebeu.
"Quem é?"
Isabela não respondeu imediatamente.
Porque ela reconhecia aquele rosto.
Era mais jovem.
Mas impossível de confundir.
Padre Miguel Ribeiro.
Na fotografia antiga, ele estava ao lado de pessoas que disputavam as terras do avô.
Isabela sentiu um arrepio percorrer o corpo.
O homem que apareceu no funeral.
O homem que tinha o relógio do avô escondido na batina.
Ele já fazia parte daquela história há décadas.
Antes que pudessem continuar analisando os documentos, ouviram um barulho do lado de fora.
Thor imediatamente levantou.
Seu corpo ficou tenso.
Ele começou a rosnar em direção à porta.
Marcos apagou a luz.
"Tem alguém lá fora."
Os três ficaram em silêncio.
Passos caminharam lentamente pela varanda de madeira.
Alguém estava rodeando a casa.
Isabela segurou a carta contra o peito.
Ela percebeu que aquela pessoa não estava procurando pelo dinheiro do avô.
Estava procurando aquela caixa.
Depois de alguns segundos, os passos pararam.
Uma voz apareceu do lado de fora.
"Isabela Ferreira."
Ela reconheceu imediatamente.
Era Padre Miguel.
Marcos olhou para ela.
"Ele veio até aqui?"
Isabela não respondeu.
A porta se abriu lentamente.
Padre Miguel entrou acompanhado pela chuva fria.
Seu rosto estava sério.
Diferente do homem calmo que aparecia diante dos moradores da cidade.
Agora parecia alguém desesperado.
Seus olhos foram diretamente para a mesa.
Para a caixa de ferro aberta.
Para os documentos espalhados.
"Então você encontrou."
A voz dele era baixa.
Isabela levantou.
"Encontrou o quê, Padre?"
Ele olhou para Thor.
O cachorro respondeu com um rosnado.
Padre Miguel deu um passo para trás.
Pela primeira vez, parecia sentir medo daquele animal.
"Esse cachorro sempre esteve no caminho."
A frase deixou Isabela ainda mais desconfiada.
"Do que você está falando?"
O padre ignorou a pergunta.
Ele se aproximou da mesa.
"Você precisa me entregar essa caixa."
Marcos ficou entre ele e os documentos.
"Por quê?"
Padre Miguel respirou fundo.
"Porque você não sabe o que está segurando."
Isabela apertou a carta do avô.
"Meu avô escondeu isso por trinta anos."
Ela encarou o padre.
"E você quer que eu simplesmente entregue?"
O rosto de Padre Miguel ficou frio.
Ele olhou para as fotografias antigas.
Depois para Isabela.
Sua voz saiu quase como uma ameaça.
"Você acha que conhecia José Antônio Ferreira."
Ele deu um passo mais perto.
"Mas você não sabe quem seu avô realmente era."