Durante alguns segundos, ninguém conseguiu se mover.
A chuva continuava caindo sobre o Cemitério Nossa Senhora das Graças, mas parecia que o mundo inteiro havia parado diante daquela cena.
O relógio de bolso prateado estava caído na lama.
Aquele mesmo relógio que todos tinham visto nas mãos de José Antônio Ferreira durante décadas.
Aquele mesmo objeto que Isabela tinha colocado cuidadosamente no bolso do terno do avô antes do enterro.
E agora estava saindo da batina de Padre Miguel Ribeiro.
O padre permanecia parado, olhando para o relógio como se estivesse diante de algo impossível.
Seu rosto, antes controlado e sereno, começou a perder a expressão de confiança.
Thor ainda segurava um pedaço rasgado da manga preta da batina entre os dentes.
O velho Golden Retriever respirava com dificuldade.
Seu corpo tremia pelo esforço.
Mas seus olhos continuavam fixos em Padre Miguel.
Como se dissesse para todos:
Ele fez alguma coisa.
Isabela foi a primeira a se aproximar.
Seus passos eram lentos.
Ela olhava para o relógio na lama e depois para o padre.
Seu coração batia tão forte que parecia que todos ao redor conseguiam ouvir.
"Padre Miguel... por que o relógio do meu avô estava dentro da sua roupa?"
A pergunta saiu baixa.
Mas o silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
Padre Miguel piscou várias vezes.
Depois rapidamente se abaixou para pegar o relógio.
Mas Marcos Almeida se colocou na frente dele.
"Não toque nisso."
A voz de Marcos era firme.
Pela primeira vez desde que chegou à cidade, ele não parecia apenas o marido de Isabela.
Parecia alguém pronto para proteger a esposa e a memória daquele homem.
Padre Miguel levantou as mãos.
"Vocês estão interpretando tudo errado."
Ele tentou recuperar sua postura.
"O relógio deve ter caído durante a preparação da cerimônia."
Antônio Carlos soltou uma risada sem humor.
Uma risada de indignação.
"Caído da sua batina?"
O velho trabalhador da roça deu um passo à frente.
"Esse relógio nunca saiu do bolso do José desde que ele ganhou do pai dele."
Padre Miguel respirou fundo.
"Eu não tenho motivo para roubar nada de um homem morto."
Mas ninguém parecia convencido.
Principalmente Thor.
O cachorro continuava olhando para ele.
Mesmo cansado.
Mesmo fraco.
Como se estivesse esperando que todos finalmente enxergassem aquilo que ele já sabia.
Isabela se ajoelhou perto do animal.
Passou a mão sobre sua cabeça molhada.
"Thor... o que você viu?"
O cachorro fechou os olhos por alguns segundos.
Mas quando Padre Miguel tentou se afastar, ele novamente levantou a cabeça.
A reação fez todos perceberem algo estranho.
Thor não estava apenas assustado.
Ele estava reconhecendo aquele homem.
Como se aquele rosto já tivesse aparecido antes.
Padre Miguel percebeu os olhares.
Sua expressão ficou mais dura.
"Esse animal está doente. A dor da perda fez ele agir de maneira agressiva."
Isabela levantou lentamente.
Ela não gostou da forma como ele falou de Thor.
"Thor viveu nove anos ao lado do meu avô. Ele nunca atacou uma pessoa sequer."
Padre Miguel apertou os lábios.
"Animais não entendem sentimentos humanos, minha filha."
Isabela encarou o padre.
"Talvez ele entenda mais do que algumas pessoas."
A frase deixou o ambiente ainda mais pesado.
Pouco depois, a cerimônia foi interrompida.
Ninguém conseguia continuar como se nada tivesse acontecido.
A família decidiu levar Thor e o corpo de José Antônio de volta para a pequena capela ao lado do cemitério até resolverem aquela situação.
Mas o clima havia mudado.
O funeral que deveria ser uma despedida tranquila tinha se transformado em uma pergunta sem resposta.
Quem mexeu no corpo de José Antônio antes do enterro?
E por quê?
Naquela tarde, depois que a chuva diminuiu, Isabela voltou para o sítio do avô.
A casa de madeira parecia exatamente como ela lembrava.
O cheiro de café antigo ainda estava na cozinha.
O casaco de José Antônio ainda estava pendurado atrás da porta.
As ferramentas dele ainda estavam organizadas no pequeno depósito.
Tudo parecia esperar pelo retorno de alguém que nunca mais voltaria.
Thor entrou lentamente na casa.
Ele estava exausto.
Mas não queria descansar.
Ele caminhava pelos cômodos cheirando cada canto.
Como se procurasse alguma coisa.
Isabela observava em silêncio.
Ela sentia uma mistura de tristeza e confusão.
O avô tinha morrido.
Mas parecia que ele ainda estava tentando contar algo.
Marcos encontrou Isabela parada no corredor.
"Você acha que o padre fez isso?"
Ela demorou para responder.
"Eu não sei."
Olhou para a sala onde José Antônio costumava sentar todas as noites.
"Mas eu sei que meu avô era cuidadoso. Ele nunca deixaria aquele relógio longe dele."
Marcos concordou.
"Então alguém colocou o relógio na roupa do padre."
Isabela ficou em silêncio.
A ideia parecia absurda.
Mas a verdade também parecia impossível.
Ela decidiu procurar respostas.
Foi até o quarto do avô.
O cômodo permanecia intacto.
A cama arrumada.
Os livros antigos na estante.
As fotografias da família sobre a mesa.
Ela abriu a gaveta onde José Antônio costumava guardar documentos importantes.
Nada.
Depois abriu outra.
Também nada.
Foi quando percebeu algo estranho.
Um espaço vazio entre dois livros antigos.
Ela conhecia aquele lugar.
O avô sempre guardava ali uma pequena agenda de capa marrom.
Um diário que ele escrevia desde jovem.
Isabela passou os dedos pelo espaço vazio.
"Não..."
Marcos se aproximou.
"O que foi?"
Ela virou para ele.
"O diário dele sumiu."
A expressão de Marcos mudou.
"Você tem certeza?"
Isabela assentiu.
"Meu avô escrevia todos os dias. Ele nunca deixava aquele caderno longe."
Ela começou a procurar pela casa inteira.
Abriu armários.
Mexeu em caixas.
Revirou documentos antigos.
Mas o diário não estava em lugar nenhum.
Thor acompanhava cada movimento.
Até que de repente ele parou.
O cachorro ficou olhando para a porta dos fundos.
Suas orelhas levantaram.
Isabela percebeu.
"Thor?"
O animal começou a caminhar.
Devagar.
Mas decidido.
Ele saiu pela porta da cozinha e seguiu pelo quintal.
A chuva tinha parado.
O chão ainda estava cheio de lama.
Thor caminhava pelo antigo caminho que levava até a floresta atrás do sítio.
Isabela e Marcos trocaram olhares.
"Ele quer que a gente siga ele."
Eles foram atrás.
O caminho era conhecido por Isabela.
Quando era criança, o avô costumava levá-la para caminhar ali.
Ele sempre dizia que a floresta guardava histórias que ninguém mais conhecia.
Naquela época, ela achava que era apenas uma brincadeira.
Mas agora tudo parecia diferente.
Thor continuava andando.
Mesmo cansado.
Mesmo com as patas machucadas.
Como se tivesse uma missão.
Depois de quase vinte minutos de caminhada, chegaram a uma parte mais afastada da mata.
Ali havia uma árvore enorme.
Uma árvore antiga que parecia existir antes mesmo da construção do sítio.
O tronco era tão largo que três pessoas não conseguiriam abraçá-lo completamente.
Thor parou em frente a ela.
Começou a cheirar o chão.
Depois olhou para Isabela.
Ela se aproximou.
"É aqui?"
O cachorro começou a arranhar a terra.
Primeiro devagar.
Depois com mais insistência.
Marcos pegou uma ferramenta que estava próxima ao galpão abandonado e começou a ajudar.
A terra estava dura.
Mas depois de alguns minutos, algo apareceu.
Uma pequena parte de metal enferrujado.
Isabela sentiu um arrepio.
Eles continuaram cavando.
Até que encontraram uma velha caixa de ferro.
Estava completamente coberta pela terra.
O tempo tinha destruído a pintura.
Mas a caixa parecia ter sido colocada ali de propósito.
Como se alguém tivesse escondido aquilo esperando o momento certo para ser encontrado.
Thor sentou ao lado da caixa.
Exausto.
Mas com uma expressão diferente.
Pela primeira vez desde a morte de José Antônio, parecia tranquilo.
Isabela passou a mão sobre a tampa enferrujada.
Seu coração acelerou.
Porque naquele momento ela entendeu uma coisa.
Thor não estava apenas protegendo o corpo do dono.
Ele estava protegendo algo que José Antônio havia escondido durante muitos anos.
Ela respirou fundo e tentou abrir a caixa.
Mas a tampa não se moveu.
Então Isabela percebeu algo gravado no metal.
Uma pequena frase quase apagada pelo tempo.
Ela aproximou o rosto.
E leu em voz baixa:
"Para minha família... somente quando a verdade precisar ser revelada."
Isabela ficou imóvel.
Marcos olhou para ela.
"O seu avô sabia que isso poderia acontecer."
Antes que ela pudesse responder, Thor começou a rosnar.
Não era um rosnado de medo.
Era um aviso.
Isabela virou rapidamente.
Entre as árvores da floresta, uma sombra parecia observar os três.
E naquele mesmo instante, ela percebeu que eles não estavam sozinhos.