Giovana ficou parada, olhando para ele.
Havia vasos sanguíneos rompidos em seus olhos, sua pele estava pálida, e ele parecia uma máquina prestes a se despedaçar, forçando o funcionamento.
"Julian, você enlouqueceu?"
"Você já perguntou isso."
"E agora que perguntei de novo, você continua assim?"
"Giovana, eu não parei a reabilitação por falta de tempo. Parei porque tenho medo de que, se eu parar, não consiga mais te alcançar."
Giovana sentiu um aperto no peito.
"Amanhã você vai voltar para a outra cidade para fazer fisioterapia."
"Não vou."
"Julian!"
"Se você for comigo, eu vou."
"Por que eu iria? Eu não sou médica."
"Você é minha médica", disse ele. "Só você pode me curar."
No sábado, Giovana foi com Julian para a outra cidade.
A clínica ficava ao lado do hospital onde ele trabalhava. O terapeuta era um homem de quarenta e poucos anos, chamado Dr. Wang, que ficou assustado ao vê-lo.
"Dr. Julian? Como você ficou tão magro? E sua perna..."
"Dói um pouco."
"Um pouco? Você chama isso de um pouco?" O Dr. Wang agachou-se e pressionou o joelho dele.
Julian franziu a testa violentamente, mas mordeu os lábios para não gemer.
O Dr. Wang levantou-se: "Dr. Julian, há quanto tempo você interrompeu o treinamento?"
"Alguns meses."
"Meses? Você sabe que seus músculos começaram a atrofiar? Se não treinar agora, essa perna vai ficar inútil!"
O coração de Giovana disparou.
Julian olhou para ela e disse ao médico: "Não tem problema, vou começar agora."
"Começar agora? Você acha que isso é lição de casa? Esses meses perdidos terão que ser compensados com o dobro de esforço!"
O médico saiu irritado para preparar os equipamentos.
Giovana ficou na porta, olhando para ele.
"Sua perna vai ficar inútil?"
"Não. Ele exagerou."
"Julian, olhe para mim."
Ele ergueu os olhos.
"Como está sua perna, de verdade?"
Ele silenciou por um momento.
"O médico disse que, se eu não fizer a reabilitação, posso ficar coxo."
"Coxa?"
"Sim."
"Por que não me contou antes?"
"Se contasse, você ficaria preocupada."
"E você acha que eu não fico preocupada agora? Eu te vejo mancando na minha frente todos os dias, acha que eu não vejo?"
A voz de Giovana tremia.
"Julian, você acha que quanto mais se sacrificar por mim, menos chance terei de ir embora? O que você está apostando com sua perna? Minha compaixão? Minha culpa?"
Capítulo 23
O rosto de Julian empalideceu por um instante: "Não é isso."
"Então me diga, o que é?"
Ele baixou a cabeça, com a voz muito baixa.
"É medo. Tenho medo de que, se eu parar, você acabe percebendo que, na verdade, não precisa de mim. Que você pode viver muito bem sozinha."
"Quando você estava nesta cidade, sem mim, você vivia mais feliz do que antes. Quando você sorria, não era porque eu estava ao seu lado, era porque você tinha deixado a outra cidade, tinha me deixado."
As lágrimas de Giovana caíram de repente.
"Julian, você é mesmo um bobo."
"Eu sei."
"E sabendo disso, continua agindo assim?"
"Eu não consigo evitar", ele ergueu a cabeça para olhá-la, com os olhos avermelhados, "não consigo não ter medo. Eu não tinha medo antes porque não me importava. Agora que me importo, sinto medo a cada segundo."
O Dr. Wang abriu a porta e entrou trazendo os aparelhos.
Giovana afastou-se para o lado, observando Julian começar a fisioterapia.
Ele deitou-se na maca de tratamento, e o Dr. Wang pressionou sua perna para fazer o alongamento. O rosto dele ficou branco como papel e sua testa cobriu-se de suor, mas ele não emitiu um único som.
Julian permaneceu olhando para ela daquele jeito, sem piscar, como se estivesse com medo de que ela desaparecesse.
Giovana ficou parada ao lado, com as mãos fechadas em punho, as unhas cravadas nas palmas das mãos.
Doía.
Mas não tanto quanto nele.
Depois de retornar da outra cidade, Julian voltava para lá todo sábado para fazer a reabilitação.
Giovana ia com ele.
Todas as vezes ele suava frio de tanta dor, mas nunca reclamava.
Certa vez, após o término da sessão, sua perna ficou visivelmente inchada, tornando difícil até mesmo caminhar.
Giovana o ajudou a sair da clínica de reabilitação.
"Julian, e você ainda diz que não dói?"
"Agora dói."
"Então por que você não disse antes?"
"Você estava ao meu lado, eu não queria te preocupar."
"Quanto mais você faz isso, mais eu me preocupo."
Ele parou de repente, olhando para ela.
"Giovana, você sabe? Quando estávamos na outra cidade, cada vez que você me ligava dizendo que estava fazendo hora extra na funerária, que não conseguia pegar um táxi na estrada, que estava voltando para casa sozinha... eu nunca me preocupei."
"E agora?"
"Agora, a cada passo que você dá, tenho medo de que você caia."
Ele deu um sorriso muito amargo.
"Deve ser o meu castigo. Todo o sofrimento pelo qual você passou, o destino quer que eu pague de volta."
Giovana o ajudou a entrar no carro, e ele não soltou a mão dela.
"Giovana."
"Sim."
"Se esta minha perna realmente ficar coxa, você vai me rejeitar?"
"Não."
"Por quê?"
"Porque estas suas pernas percorreram quatrocentos quilômetros para me encontrar. Se ficou coxa, foi no caminho vindo ao meu encontro, por que eu iria te rejeitar?"
Os olhos dele ficaram vermelhos.
"Então você..."
"Julian, não pergunte mais. Quando sua perna estiver boa, eu te respondo."
"E se eu não melhorar?"
"Então esperarei até que você se acostume a não sentir dor."
Ele olhou nos olhos dela por um longo tempo.
"Está bem. Vou te esperar."
Dois meses depois, a perna de Julian estava muito melhor.
Sua postura ao caminhar era praticamente normal, e apenas olhando com muita atenção era possível notar um leve mancar.
O trabalho dele no centro de serviços também se tornava cada vez mais fluido.
Geraldo dizia que ele era muito mais eficiente do que os funcionários administrativos anteriores; afinal, vindo da medicina, ele era organizado e arrumava os arquivos com a precisão de um plano cirúrgico.
Soraia não apareceu mais.
Lívia contou a Giovana que Soraia havia reatado ou começado a namorar com o Fernando.
"O Fernando insistiu tanto tempo por ela, e finalmente ela aceitou. Não sei se ela realmente passou a gostar dele ou se foi apenas para preencher o vazio depois de desistir do Julian."
Giovana disse: "Seja como for, espero que ela seja feliz."
Lívia deu uma leve risada do outro lado da linha.
"Giovana, você está com o coração muito generoso agora."
"Não é generosidade. É que eu sei qual é a sensação de esperar por alguém e não receber nada em troca. Essa sensação é amarga demais, não quero que ela continue sofrendo assim."
"E quanto a você? Ainda sofre?"
Capítulo 24
Giovana olhou pela janela. O carro de Julian estava parado lá embaixo; ele tinha vindo buscá-la após o trabalho.
"Não sofro mais", disse ela. "Está um pouco doce."
Ao desligar o telefone, ela desceu.
Julian estava apoiado na porta do carro, segurando um buquê de rosas brancas.
"Por que trouxe flores hoje?"
"Passei por uma floricultura, vi que estavam frescas e quis comprar para você."
"Você nunca comprava flores antes."
"Antes eu não comprava porque não sabia que você gostava. Agora que sei, quero comprar."
Giovana recebeu as flores e baixou a cabeça para cheirá-las.
Eram muito perfumadas.
"Julian."
"Sim."
"Sua perna não dói mais, certo?"
"Não dói mais."
"Tem certeza?"
"Certeza."
"Então agora vou responder à sua pergunta de antes."
Ele ficou estupefato.
"Que pergunta?"
"Você me perguntou se eu responderia quando sua perna estivesse boa."
Ele permaneceu parado, tirou as mãos dos bolsos e as colocou de volta, como uma criança que tivesse feito algo errado.
"Você... o que vai responder?"
Olhando para o estado de nervosismo dele, Giovana sorriu de repente.
"Julian, feche os olhos."
Ele fechou os olhos.
"Estenda as mãos."
Ele estendeu as mãos.
Giovana colocou as rosas brancas nas palmas das mãos dele e depois segurou suas mãos.
Ele abriu os olhos, olhando para ela.
"Giovana..."
"Você não me perguntou se eu estaria disposta a te dar mais uma chance?"
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
"A minha resposta é —"
"Eu aceito."
No instante em que as duas palavras foram ditas, as lágrimas de Julian caíram.
Ele ficou parado na entrada do centro de serviços funerários, segurando um buquê de rosas brancas, chorando como uma criança.
"Não chore mais, os outros vão pensar que estou te maltratando."
"Mas você está me maltratando", disse ele, com a voz extremamente rouca. "Você me maltratou por três anos e continua me maltratando agora."
"Como eu te maltratei?"
"Você disse que ia embora e foi, me bloqueou sem aviso, disse que não me queria mais e me abandonou. Corri atrás de você por tanto tempo e você não dizia uma única palavra. Agora que você disse, eu..."
Ele soluçou levemente.
"Eu não aguento."
Giovana olhou para ele, sentindo o coração apertado, mas ao mesmo tempo enternecido.
"Julian, pare de chorar primeiro. Tem muita gente olhando."