Ela provou um pouco.
Estava salgado.
Mas ela comeu tudo.
Ele ficou ao lado, observando-a comer, sem dizer nada. Quando ela terminou, ele pegou a marmita vazia e guardou na bolsa térmica.
"O que quer comer amanhã?"
"Não precisa perguntar. Eu não vou responder."
"Então farei qualquer coisa."
Ele se virou e foi embora, mancando, sem olhar para trás.
Giovana ficou sob o poste de luz, olhando para as costas dele.
Ele caminhava com dificuldade; não ousava colocar força na perna esquerda, e seu corpo balançava a cada passo.
Mas ele caminhava rápido, como se temesse que ela se arrependesse e devolvesse a marmita.
Naquela noite, Giovana deitou-se na cama, pensando repetidamente em uma pergunta.
Ele mudou?
Antes, ele não sabia cozinhar. Antes, ele nem entrava na cozinha. Antes, ele reclamava se a comida dela estava salgada ou sem gosto, mas nunca dizia se estava "boa" ou "ruim".
Ele não dizia nada.
Agora, ele aprendeu a cozinhar, aprendeu a levar mingau, aprendeu a esperar por ela na neve.
Ele aprendeu tantas coisas que antes não fazia.
Mas será que ele consegue aprender a amá-la?
Ela não sabia.
Capítulo 14
Vigésimo dia.
Julian estava na porta da casa de Giovana, com uma marmita nas mãos.
Quando Giovana a pegou, ele não soltou.
Ela levantou a cabeça e olhou para ele.
Havia algo em seus olhos que ela nunca tinha visto antes.
"Giovana, venha comigo a Qiyan."
"Para quê?"
"Quando chegarmos, você saberá."
"Não vou."
"Eu te imploro", ele disse.
Foi a primeira vez que ele usou a palavra "implorar".
Giovana olhou nos olhos dele e silenciou por muito tempo.
"Quando?"
"Neste fim de semana."
"Por quanto tempo?"
"Um dia. Vamos no domingo e voltamos no domingo."
Ela não respondeu.
Ele soltou a mão, deixando a marmita com ela.
"Se você não diz nada, vou considerar um sim."
Ele se virou e foi embora.
Giovana ficou parada na porta, segurando a marmita, que estava morna.
No sábado de manhã, Julian foi buscá-la.
Ele vestia uma camisa branca muito limpa, o cabelo estava curto e ele estava barbeado.
Parecia o mesmo de antes em Qiyan — impecável, decente, meticuloso.
Apenas a perna esquerda ainda não suportava muito peso, fazendo-o mancar levemente ao caminhar.
No trem, ele sentou ao lado dela. Durante sete horas, eles quase não falaram.
Ele olhava constantemente pela janela; Giovana lia um livro de cabeça baixa.
Ninguém mencionou Qiyan, ninguém mencionou aquele lar.
Ao chegarem à estação de Qiyan, ele chamou um táxi.
"Para onde?", perguntou o motorista.
Julian olhou para Giovana: "Funerária da cidade de Qiyan."
Giovana ficou atônita.
"Julian, o que você está me levando para fazer na funerária?"
Ele não respondeu.
Quando o carro parou diante da funerária, já estava escuro.
O grande prédio cinza-claro estava iluminado, e na porta pendia uma placa de "Atendimento 24 horas".
Julian desceu do carro, deu a volta e abriu a porta para ela.
"Desça."
"Me conte primeiro, por que viemos aqui?"
"Para te mostrar uma coisa."
Giovana desceu e o seguiu para dentro.
Ele caminhava devagar, usando o corrimão para subir cada degrau.
Giovana vinha atrás, observando-o, e de repente lembrou-se de um detalhe:
Antigamente, ele nunca pisava neste lugar; achava sujo.
Agora, apoiado em uma bengala, ele entrava passo a passo, suando de dor na perna, mas sem parar.
Ele a levou até o centro do saguão e parou.
Na parede principal do saguão, havia uma placa nova. As letras douradas refletiam a luz.
【O guardião dos vivos, a barqueira dos mortos — a todos que protegem a vida e a dignidade】
Giovana parou sob a placa, olhando para cima, enquanto suas lágrimas caíam.
"Julian, isto é..."
"Eu doei", ele disse. "Em seu nome, doei para a funerária."
Ele olhava para a placa com a voz suave.
"Você não traz azar. Você é a barqueira, igual a mim."
"Giovana, eu estava errado antes. Nós não estamos em caminhos separados, estamos no mesmo caminho. Você se despede das pessoas no destino, eu as recebo na partida. Sem você, este caminho está incompleto."
Eu estava lá parada, chorando, sem conseguir falar.
Três anos.
Finalmente, esperei por estas palavras.
Em um lugar onde nunca imaginei ouvi-las, ditas pela pessoa que achei que nunca as diria.
"Giovana", Julian virou-se para me olhar, com os olhos marejados.
"Eu te achava suja antes, eu era um cego. Você não é suja, você é a pessoa mais limpa que já conheci."
"Quando você limpa o rosto dos falecidos, quando você trabalha até a madrugada na funerária, quando você é insultada e não responde... você é a melhor pessoa deste mundo."
"Eu é que não sou digno de você."
Ele estendeu a mão, devagar, cuidadosamente, como se tivesse medo de quebrar algo.
"Giovana, você aceitaria me dar uma chance novamente? Não como marido e mulher, mas como alguém no mesmo caminho que você."
Giovana olhou para a mão estendida.
Articulações finas, dedos longos e limpos. Em três anos, aquela mão nunca a tinha buscado por iniciativa própria.
Agora, ela estava diante dela, tremendo levemente.
Ela estendeu a mão e o segurou.
A mão dele estava quente, exatamente como Giovana imaginava que estaria.
Capítulo 15
A mão de Giovana estava na palma da mão dele.
Foi apenas um instante. Depois, ela a retirou.
"Segurar uma vez não significa nada", disse ela.
A mão de Julian ficou suspensa no ar, e ele a baixou lentamente.
Ele olhou para a palma de sua própria mão vazia, sem levantar a cabeça.
"Eu sei."
O saguão da funerária estava muito silencioso, e aquela placa recém-pendurada refletia suavemente a luz.
As palavras douradas, cada uma delas parecia gravada em seu peito — o guardião dos vivos, a barqueira dos mortos.
Ele disse que eles eram pessoas no mesmo caminho, uma frase que Giovana esperou por três anos.
Mas ela esperou tanto tempo, tanto tempo que já não ousava acreditar.
"Julian, leve-me de volta para An'he", disse ela.
"Tudo bem."
Ele se virou e caminhou em direção à porta.
A perna esquerda arrastava-se no chão, emitindo um leve som de fricção.
Do saguão até a porta não havia mais que algumas dezenas de passos, mas ele caminhou por muito tempo, e gotas finas de suor brotaram em sua testa.
Sua perna estava mais inchada do que quando ele chegou, e a calça estava esticada ao limite.
Ele não permitiu que ela o ajudasse.
O táxi chegou, e ele abriu a porta do banco de trás.
Giovana entrou, e ele deu a volta para o outro lado, abriu a porta e sentou-se de lado.
Como não conseguia levantar a perna esquerda, ele se curvou, usou as mãos para mover o tornozelo e entrou aos poucos.
Ele mordeu os lábios, mas não emitiu som algum.
O carro partiu.
A paisagem noturna de Qiyan passava do lado de fora da janela.
Ela morou nesta cidade por três anos; era familiar e, ao mesmo tempo, estranha.
Ao chegar à estação de trem, Giovana desceu e seguiu em frente.
Ele a seguia atrás, mancando.
Ela acelerou o passo, e ele não conseguiu acompanhá-la, balançando o corpo.
Ela parou, sem olhar para trás.
Só quando ouviu que ele se estabilizou é que continuou a caminhar.
No trem, ele sentou ao lado dela, encostado na janela, de olhos fechados.
Sua perna esquerda não podia ficar esticada e apoiava-se no encosto do banco da frente, em uma posição desconfortável.
Suas sobrancelhas estavam franzidas o tempo todo.
Dizia que doía, mas ele não falava.
Giovana olhou para ele e, de repente, lembrou-se de algo.
Antigamente, quando ela tinha quarenta graus de febre e ia sozinha para a emergência, quando estava deitada na cama do hospital, ela também tinha aquela expressão — franzindo as sobrancelhas, mordendo os dentes, sem gritar de dor.
Naquela época, ela pensava: se houvesse alguém ao seu lado, será que ela se sentiria um pouco melhor?
Mas não havia ninguém.
Agora ele estava ao seu lado, e ela também não perguntou se doía.
Porque ela tinha medo de que, se perguntasse, seu coração amoleceria.
Às duas da manhã, o trem chegou a An'he.
Giovana desceu e ele a seguiu.
O vento na saída da estação era forte; ela chamou um táxi, abriu a porta e entrou.
Ele ficou de pé ao lado, sem entrar no carro.
"Entre", disse ela.
"Vá primeiro, eu espero o próximo."
"Sua perna..."
"Está tudo bem."
Giovana olhou nos olhos dele.
Havia vasos sanguíneos vermelhos em seus olhos, e também uma teimosia que ela nunca tinha visto antes.
Ele se recusava a subir, não porque não quisesse, mas porque não ousava.
Ele temia que, se entrasse no carro dela, ela achasse que ele a estava importunando.
"Julian, entre."
Ele ficou surpreso por um momento, abriu a porta e entrou.
Durante todo o caminho, ninguém falou nada. Quando chegaram perto de sua casa, Giovana pediu ao motorista que parasse por um momento.
Quando ele desceu, ele olhou para ela.
"Giovana, que tipo de mingau você quer tomar amanhã de manhã?"
"Você não disse que não iria mais trazer?"