"Julian, o que você veio fazer aqui? Veio me entregar o acordo de divórcio?"
Julian disse apressadamente: "Eu não assinei o acordo, e não vou assinar."
"Não importa se você não assinar."
A voz de Giovana era calma: "Após dois anos de separação, o tribunal decretará o divórcio automaticamente."
O rosto de Julian empalideceu por um instante. Ele queria dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.
Ele nunca tinha visto Giovana daquela forma.
Calma, racional, e até um pouco cruel.
"Giovana", ele chamou o nome dela mais uma vez, com a voz trêmula: "Eu sei que errei."
"Onde você errou?", perguntou Giovana.
A pergunta era simples, mas Julian ficou em silêncio.
Porque ele não sabia.
Ele sabia que tinha dito as coisas erradas e agido de forma errada, mas se tivesse que explicar exatamente onde estava o erro, ele não conseguia.
Giovana observou seu silêncio e sorriu.
Aquele sorriso era fraco, quase sem curva.
Mas Julian entendeu o significado do sorriso.
Era descrença.
Ele não acreditava em uma única palavra.
"Veja, você não sabe onde errou. Você veio me procurar não porque mudou."
"Foi porque lhe faltou alguém para cozinhar, alguém para esperar por você em casa."
Os olhos de Julian ficaram vermelhos.
Giovana olhou para ele e deu um passo para trás.
"Pode levar o mingau de volta, não vou beber."
Ela se virou e subiu as escadas.
Julian ficou lá embaixo, apertando a tigela de mingau, o saco de papel deformado sob seus dedos.
Ele não a seguiu.
Porque sabia que segui-la não adiantaria.
Giovana não ouviria o que ele tinha a dizer.
Ela já tinha ouvido demais.
Capítulo 10
Julian não foi embora.
Todos os dias, às sete da manhã, ele aparecia embaixo do prédio de Giovana, trazendo sabores diferentes de mingau.
Ovo centenário com carne suína, cogumelos com frango, inhame com costela, abóbora com milheto.
Ele percorreu todo o menu daquela loja de mingau.
Giovana não aceitou nenhuma vez.
Como ela não pegava, ele deixava sobre os degraus, prendendo o saco de papel com uma pedra, e então recuava para perto do poste de luz para observar Giovana sair do prédio.
Giovana passava por aquele saco de papel todas as vezes.
Às vezes, ela não parava e seguia direto.
Às vezes, ela diminuía o passo e olhava para baixo, mas nunca se abaixava para pegar.
Julian também não dizia nada; ficava ali parado, com as mãos nos bolsos do sobretudo, seguindo o vulto dela com o olhar.
No sétimo dia, uma chuva caiu em An'he.
Giovana desceu as escadas aberta com um guarda-chuva e viu Julian parado sob o poste de luz, sem proteção. O ombro de seu sobretudo estava encharcado, e ele segurava o habitual saco de papel branco.
Ela parou sob o guarda-chuva e o observou por alguns segundos: "Por que você não está com guarda-chuva?"
"Não estava chovendo quando saí." Sua voz soava abafada pelo som da chuva.
"Então por que não procurou um lugar para se esconder?"
"Tive medo de você sair mais cedo e eu perder o momento."
Giovana apertou o cabo do guarda-chuva.
Ela se aproximou e, ao passar por ele, inclinou o guarda-chuva em direção a ele por um momento.
A chuva batia no tecido, fazendo barulho.
Julian ficou paralisado.
Naquele instante, ele sentiu o cheiro do desinfetante que emanava de Giovana.
Muito leve, igual ao de antes.
Antigamente, ele odiava aquele cheiro.
Agora, ele temia que aquele cheiro desaparecesse.
O guarda-chuva de Giovana ficou inclinado por apenas um segundo antes de ela o puxar de volta e continuar caminhando.
Julian ficou parado onde estava, a água da chuva escorrendo por seu rosto; era impossível distinguir se era chuva ou outra coisa.
No oitavo dia, Julian não apareceu.
No nono dia, também não.
Toda manhã, quando Giovana passava por aquele poste de luz, não havia saco de papel nos degraus, nem aquele homem sob a luz.
Ela dizia a si mesma que ele tinha ido embora.
Julian era médico vice-diretor de cirurgia cardíaca; ele tinha cirurgias para fazer e pacientes para cuidar.
Ele só não estava acostumado por um tempo, mas assim que se habituasse à ausência dela, voltaria à sua vida de antes.
Assim como ela.
Ela também tinha se habituado a uma vida sem ele.
Na manhã do décimo dia, assim que Giovana chegou ao centro de serviços, seu celular tocou.
Era um número de Qiyan.
Ela hesitou um pouco antes de atender.
"Giovana."
Do outro lado da linha estava a voz de Julian, rouca, como se lixa tivesse passado por sua garganta.
"Sofri um acidente de carro, quebrei a perna."
Os dedos de Giovana se contraíram bruscamente, e o celular quase deslizou de sua mão.
"Giovana, você pode vir me ver?"
Giovana ficou em silêncio por um longo tempo, até que finalmente falou.
"Em qual hospital você está?"
Houve um silêncio do outro lado, seguido pela respiração um pouco acelerada de Julian.
"No Primeiro Hospital do Povo de Qiyan, cirurgia ortopédica, leito número 3."
"Chegarei à noite."
Dito isso, ela desligou o telefone.
Giovana ficou parada ali, segurando o celular com força na palma da mão.
Ela dizia a si mesma que aquilo era por humanitarismo.
Ele era seu marido nominal, com quem ainda não tinha se divorciado; ele sofreu um acidente, quebrou a perna e não tinha ninguém por perto.
Ir até lá era o que deveria ser feito.
Justo e necessário, nada além disso.
Em seguida, ela abriu o celular e comprou uma passagem de trem para Qiyan.
Capítulo 11
Quando Giovana chegou a Qiyan, já estava completamente escuro.
Parada diante da porta do quarto de hospital de Julian, ela respirou fundo e abriu a porta.
Julian estava deitado na cama, com a perna esquerda engessada e suspensa no ar. Havia um acesso venoso no dorso da mão direita e um frasco de soro pendurado ao lado da cama. Ele não usava a roupa do hospital, mas sua própria camiseta branca; o decote estava um pouco largo, revelando parte de sua clavícula.
Ao ouvir o movimento, ele levantou a cabeça e seus dedos pararam.
Giovana não olhou para ele. Caminhou direto para o pé da cama, pegou a ficha médica pendurada na cabeceira e deu uma olhada.
"Fratura da tíbia." Ela fechou a ficha e a colocou de volta no lugar.
Julian olhou para ela, surpreso: "Você veio!"
Giovana mantinha os olhos baixos, com um tom de voz tão calmo que não apresentava qualquer ondulação.
"Vim buscar o acordo de divórcio. Vim para resolvermos isso de uma vez por todas."
O rosto de Julian empalideceu subitamente. Ele se apoiou para tentar sentar, com um tom apressado e em pânico.
"Eu não concordo."
Giovana levantou os olhos e olhou para ele de forma indiferente; no fundo de seu olhar, havia um alívio total.
"Julian, quando os sentimentos se esgotam, nunca é necessário o consentimento de ninguém. Esta relação já tinha acabado há muito tempo; eu apenas não tinha coragem de partir. Agora, refleti bem: é hora de encerrar."
Seus dedos apertaram os lençóis, os nós dos dedos ficaram brancos: "Você diz que acabou, então acabou?"
"E por que não?"
Giovana olhou nos olhos dele: "Você dizia antigamente que você era o guardião dos vivos e eu, a barqueira dos mortos."
"Quando você dizia isso, eu achava que você realmente sentia que éramos iguais. Mais tarde, entendi que você estava apenas dizendo: você protege a vida, eu guio a morte. Cada um segue seu próprio caminho."
"Do início ao fim, eu nunca entrei no seu caminho."
Julian abriu a boca, querendo dizer algo, mas nenhuma palavra saiu.
Giovana sorriu levemente, um sorriso tão fraco que mal formava uma curva.
"Três anos atrás, você casou comigo porque eu era quieta e não incomodava. Três anos depois, eu vou embora porque não quero mais ser quieta, nem quero continuar sendo aquela pessoa que não incomoda."
"Julian, eu sou um ser humano. Eu também sinto dor, fico cansada e também não quero mais fingir."
"Não vamos mais nos contatar. Assim que o acordo de divórcio estiver assinado, basta enviá-lo para mim."
"Giovana..."
"Não precisa vir se despedir, sua perna não está boa."
Quando Giovana saiu pela porta da ala hospitalar, o vento noturno de Qiyan entrou por seu colarinho, frio.
Ela parou nos degraus e olhou para cima, para a janela iluminada do terceiro andar.
Ele estava lá dentro.
Ela estava do lado de fora.
Pela primeira vez em três anos, ela sentiu que aquela distância era a ideal.
Nem perto demais, nem longe demais; exatamente a distância de "estranhos".
Na estação de trem, havia poucas pessoas na sala de espera. Giovana encontrou um lugar perto da janela e sentou-se.
O celular vibrou várias vezes no bolso, mas ela não olhou.
Ela sabia de quem eram as mensagens.
E ela não queria mais ver.
Antes de passar pela catraca, ela fotografou o painel eletrônico com as informações do trem para An'he e enviou uma mensagem para Julian.
Apenas uma foto, acompanhada de uma frase.
【Não venha atrás de mim.】
Depois de enviar, ela abriu sua lista de amigos, encontrou o nome dele e pressionou "excluir".