"Estou chegando."
Giovana despertou imediatamente, desligou o telefone e saiu às pressas.
O local do acidente estava em ruínas, o ar carregado pelo cheiro de sangue e poeira.
Giovana e seus colegas percorriam os destroços, recolhendo os corpos com cuidado, fazendo o possível para que aqueles falecidos pudessem manter um último resquício de dignidade.
Ela trabalhou desde a madrugada até o meio-dia do dia seguinte, sem ingerir uma gota de água.
O trabalho de alta intensidade exauriu todas as suas forças, sua visão começou a escurecer e os sons ao redor ficaram distantes.
No segundo seguinte, ela perdeu a consciência e desmaiou no local.
Ao acordar, Giovana estava em uma cama de hospital.
Sabrina, vestindo seu jaleco branco, estava ao lado da cama, olhando-a de cima.
"A cirurgia do meu colega ainda não terminou, por isso ele me pediu para vir ver como você estava."
Giovana moveu os lábios secos: "Obrigada."
Sabrina hesitou, seu tom carregado de significados.
"Há certas coisas que ele não diria, mas eu gostaria de falar por ele."
Sua voz não era alta, mas cada palavra era clara.
"Você não é digna dele. Ele é o médico vice-diretor de cirurgia cardíaca mais jovem do nosso hospital."
"Ele precisa de alguém que possa estar ao seu lado, alguém que não lhe traga preocupações. Você só serve para atrapalhá-lo e trazer má sorte."
Giovana olhou para sua atitude hipócrita e respondeu com voz fria.
"Poderia me dizer em que qualidade você se sente no direito de me dizer essas coisas?"
Assim que as palavras foram proferidas, os olhos de Sabrina encheram-se de lágrimas, como se tivesse sido injustiçada.
"Sinto muito, eu não deveria ter falado."
Nesse exato momento, a porta do quarto foi aberta e Julian entrou.
Ele lançou um olhar para os olhos marejados de Sabrina: "O que aconteceu?"
Sabrina recuou meio passo: "A culpa foi minha, eu falei sem medir as palavras e deixei a esposa dele chateada."
O olhar de Julian pousou sobre Giovana, carregado de censura.
"Giovana, Sabrina dedicou um tempo para vir cuidar de você, por que está sendo tão difícil com ela?"
"Você tem noção de quantos pacientes urgentes ela poderia ter ajudado no hospital se não estivesse perdendo tempo aqui?"
Giovana olhou para ele, e seu coração sentiu-se completamente congelado.
"Foi ela quem disse que eu trago má sorte. Mas, se um cuida da vida e o outro da morte, ambos fazemos algo com a consciência limpa."
"Por que ela é o anjo e eu sou a portadora de má sorte?"
Capítulo 5
O quarto ficou em silêncio por um instante.
Julian franziu a testa e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Sabrina deu um passo à frente atrás dele.
Seus olhos ainda estavam avermelhados, e sua voz soou baixa e tímida.
"Esposa, o que eu disse há pouco foi um equívoco, não leve para o lado pessoal."
Ela se virou para Julian e continuou, com um tom suave: "Colega, não fique bravo também. Ela acabou de acordar e ainda está muito fraca, conversem com calma."
Sabrina virou-se e saiu, a barra do seu jaleco branco balançou na porta antes de desaparecer.
No quarto, restaram apenas Giovana e Julian.
Julian parecia exausto, e seu tom transbordava uma impotência profunda.
"Giovana, como você se tornou assim?"
"Você sabe quantas cirurgias eu fiz hoje? Fiquei de pé desde as oito da manhã até as quatro da tarde, sem tempo nem para beber um gole de água."
"Assim que terminei, tive que correr para cá para cuidar de você, será que não pode me poupar de mais problemas?"
Giovana ouviu tudo em silêncio, sentindo um frio intenso no peito.
Julian falava repetidamente sobre como tinha corrido para chegar ali, mas, parado diante dela, não houve uma única pergunta sobre se ela sentia dor ou se estava bem.
Em vez disso, ele a defendeu imediatamente, justificando as atitudes dela.
Sem esperar que ela falasse, ele continuou: "Ela teve a bondade de vir te ver e agora você a trata com dificuldade? O que você quer afinal?"
"Quando foi que a tratei com dificuldade?" Giovana perguntou suavemente em resposta. "Foi ela quem disse que eu não era digna de você, que eu trazia má sorte e que era um fardo. Eu apenas rebati algumas palavras, como isso se tornou um ataque?"
Julian franziu a testa profundamente: "Ela apenas tem um temperamento direto e disse o que veio à mente, não teve má intenção."
Ao ouvir isso, Giovana deu um sorriso repentino.
Então, quando outros a difamam e humilham deliberadamente, é considerado "temperamento direto", mas quando ela se defende, é "tratar mal".
A justiça dele sempre foi reservada apenas para os estranhos.
Giovana virou-se na cama, dando-lhe as costas, e fechou os olhos, sem querer dizer mais nenhuma palavra.
Vendo seu silêncio, Julian também não disse mais nada.
"Tenho mais cirurgias para fazer, voltarei para te ver depois do expediente."
Giovana não o respondeu; assim que o soro terminou, ela deu alta a si mesma e voltou para casa.
Pouco depois de chegar, o celular tocou. Era um telefonema do veterano Guilherme.
"Colega, convidei você há meio ano para vir ao Centro Funerário Paz e Serenidade. Aqui é mais adequado para o seu desenvolvimento profissional. Você sempre disse que era longe de casa e precisava pensar, mas agora que já insisti três vezes, você ainda precisa considerar?"
Giovana segurou o celular, seus dedos se apertaram levemente, e ela não respondeu imediatamente.
O centro funerário onde o veterano trabalhava ficava no norte, a três mil quilômetros de distância.
Ela havia lido sobre o local e era muito diferente da funerária da cidade.
O Centro Funerário Paz e Serenidade ficava no centro urbano, com acesso direto por metrô e ônibus, e nas placas de sinalização estava escrito claramente "Centro de Serviços Funerários Paz e Serenidade".
Todos ali respeitavam a profissão de tanatóloga, e, nos fins de semana, as escolas organizavam visitas para que os estudantes pudessem conhecer o portal entre a vida e a morte.
Pensando nisso, ela respondeu: "Desta vez não preciso pensar mais. Eu aceito vir para o Paz e Serenidade."
Do outro lado da linha, ouviu-se a voz entusiasmada de Guilherme.
"Sério?"
O tom de sua voz tornou-se mais vivo, como se tivesse finalmente se livrado de um peso.
"Então vou preparar sua admissão imediatamente; vou providenciar tudo, desde o escritório até o seu apartamento!"
Ao desligar, Giovana segurou o celular com força na mão.
Algo que a mantinha em suspense no peito finalmente pousou, como alguém que tivesse vagado pelo mar por três anos e finalmente avistasse terra firme.
Embora ainda estivesse longe, pelo menos ela sabia a direção.
Ao anoitecer, quando Julian chegou do trabalho, perguntou: "Por que você deu alta a si mesma?"
Giovana, segurando um copo d'água no sofá, respondeu: "Não era nada grave, então resolvi sair."
Julian tirou um envelope de papel pardo da pasta e colocou sobre a mesa diante dela.
"O formulário de inscrição para a vaga de enfermagem. Peguei para você, preenchi todos os dados, só precisa assinar."
Giovana olhou para os documentos na mesa, sem estender a mão para pegá-los.
"Entendido."
Julian lançou-lhe um olhar, os cantos da boca subindo levemente.
Ele provavelmente achava que ela finalmente tinha se tornado obediente, e virou-se para ir ao escritório.
Giovana observou suas costas e depois o formulário à sua frente.
Ela não tinha intenção de assinar. Em seu celular, já estava guardada a sua própria segunda via de saída.
Ela nunca pensou, nem por um segundo, em seguir a vida que Julian havia planejado para ela.
Capítulo 6
Na manhã seguinte, Giovana foi à funerária.
Não para trabalhar, mas para se demitir.
Ela colocou a carta de demissão sobre a mesa do diretor.
O diretor retirou seus óculos de leitura e ficou em silêncio por muito tempo.
"Eu sabia que este dia chegaria."
Ele não abriu a carta, apenas a guardou na gaveta.
"Já ouvi falar do Centro Funerário Paz e Serenidade. A escala é grande, os equipamentos são novos; lá você terá mais futuro do que aqui."
Giovana agradeceu em voz baixa.
O diretor tirou uma caixa de doces de casamento do armário e entregou a ela.
"Meu filho vai se casar no mês que vem; eu planejava te convidar para o banquete, mas como você vai partir, fique com os doces."
Giovana recebeu a caixa, o caractere dourado de "felicidade" brilhava levemente sob a luz.
Ela se lembrou de quando Julian disse que sua profissão trazia "má sorte" e hesitou um pouco.
"Diretor, para nós, tanatologistas, ir a casamentos não é visto como algo pouco auspicioso?"
O diretor colocou os óculos de leitura novamente, olhou para ela com um olhar gentil e sério.
"Menina tola, como seria algo ruim? Você protege a última dignidade dos falecidos e acalma o arrependimento dos vivos; você também é um anjo, um anjo que guarda uma outra jornada de retorno."
Giovana abaixou a cabeça, sentindo os olhos arderem.
Então, a palavra "anjo" não era algo que só as pessoas de jaleco branco mereciam.