Capítulo 1
Após três anos de casamento, Giovana precisa se desinfetar três vezes ao chegar em casa todos os dias.
A primeira vez é na funerária, a segunda antes de entrar, a terceira no banheiro.
Essas regras foram impostas pelo seu marido, Julian.
Apenas porque ele é médico e tem TOC de limpeza.
Giovana sempre acreditou que ele fosse assim com todos.
Até o dia em que o viu pegar o café que uma colega havia bebido e dar um gole, aproveitando o momento.
Então, ele não tinha TOC de limpeza.
Ele apenas achava que ela era suja.
Porque ela é uma tanatóloga que maquia mortos na funerária.
……
À uma da manhã, Giovana voltou da funerária.
A luz da sala ainda estava acesa.
Julian estava encostado no sofá, usando seus óculos de armação dourada, lendo um livro de medicina.
Ele ouviu o som da porta abrir, mas não levantou a cabeça: "Por que tão tarde?"
Giovana estava parada na entrada, tirando o casaco enquanto falava com Julian.
"Hoje, preparei o corpo de uma garota que faleceu em um acidente de carro. Levei quatro horas para restaurar o rosto dela pouco a pouco."
"Por isso saí tarde do trabalho. E na funerária é difícil conseguir um táxi; chamei três vezes e todas foram canceladas. Tive que caminhar por meia hora até conseguir um..."
Antes que terminasse de falar, Julian a interrompeu diretamente.
"Não precisa me contar sobre seus assuntos de trabalho. Vá logo lavar as mãos e se desinfetar."
Giovana hesitou por um momento, virou-se e foi para o banheiro.
Ela já havia se lavado duas vezes na funerária, mas ao chegar em casa, precisava se lavar novamente.
Não porque estivesse suja, mas porque Julian não acreditava que ela estivesse limpa.
Uma vez, ela esqueceu de se desinfetar e tocou na manga dele.
Ele não disse nada, apenas virou-se e foi trocar de camisa.
Aquela camisa, Giovana lavou três vezes, secou, dobrou e guardou no guarda-roupa. Ele nunca mais a usou.
A partir daí, andar dentro de casa parecia caminhar em território alheio.
Giovana secou as mãos e caminhou lentamente até a sala.
Julian levantou os olhos, olhou para ela e voltou a abaixá-los.
"Se você acha tão cansativo trabalhar na funerária, peça demissão logo."
Essa não foi a primeira vez que Julian lhe disse algo assim.
Toda vez que ela compartilhava algo sobre seu trabalho, a resposta dele sempre era a mesma — "peça demissão".
Giovana olhou para Julian e perguntou baixinho:
"Você também fica cansado após sete ou oito horas em pé na sala de cirurgia, você escolheria pedir demissão?"
Julian colocou o livro de medicina de lado: "Nós somos diferentes."
Dito isso, levantou-se e foi para o quarto.
Giovana ficou parada onde estava, lembrando-se do dia em que se conheceram em um encontro às cegas, três anos atrás.
Ela hesitou muito antes de contar sua profissão a ele. Julian não mudou de expressão como os outros, apenas disse:
"Eu sou o guardião da vida, você é a condutora da morte. Combina bastante."
Foi por causa dessa frase que ela se casou.
Mesmo sabendo que ele não a amava, na época ela pensou que os sentimentos poderiam ser cultivados e que, eventualmente, ela conseguiria aquecer o coração dele.
Mas agora, ela não sabia: será que uma pessoa realmente consegue aquecer uma pedra?
Ao terminar o banho e voltar ao quarto, Julian já estava dormindo. Ele estava de costas para ela, com uma respiração regular.
Eles sempre usavam edredons separados, cada um ocupando um lado da cama, sem nunca se tocarem.
Giovana deitou-se na ponta dos pés, encarando o teto.
Claramente, se ela estendesse a mão, poderia tocar nas costas dele, mas o edredom que os separava parecia um limite intransponível.
Uma noite de insônia.
Ao acordar de manhã cedo, o lado dele já estava vazio.
Julian tinha ido cedo para o hospital. Em três anos de casamento, eles nunca tinham dito sequer um "bom dia".
Giovana, nominalmente, tinha um marido e moravam sob o mesmo teto, mas sentia-se sozinha a cada momento.
Muitas vezes, ela se sentia confusa, pensando que não tinha se casado, mas apenas alugado um apartamento com um colega de quarto.
Depois de se arrumar, saiu para trabalhar como de costume.
O diretor da funerária chamou-a ao escritório: "Giovana, um falecido morreu no hospital e a família não consegue chegar a tempo de outra cidade. Você pode ir ao hospital central ajudar a tratar da certidão de óbito?"
Giovana concordou e pegou um táxi para o hospital.
Assim que chegou ao saguão e virou a esquina do corredor, seus passos pararam bruscamente —
Julian, vestindo seu jaleco branco, estava ali, acompanhado por uma médica que estava a menos de meio passo de distância.
A médica pegou o café que estava segurando e tomou um gole, deixando uma leve marca de batom na borda do copo.
Em seguida, ela entregou o copo para Julian.
Julian, de olhos baixos, folheava documentos e levantou a mão para pegá-lo, seus lábios pousando exatamente sobre a marca do batom.
O gesto de beber o café foi natural e íntimo.
Giovana observou a cena e, de repente, sentiu que o cheiro do desinfetante em seu corpo, naquele momento, ardia como se estivesse queimando.
Todas as regras que ela seguia meticulosamente eram, na verdade, uma zona restrita criada por Julian apenas para ela.
Ele não tinha TOC de limpeza.
Ele apenas achava que ela era suja.
Capítulo 2
Giovana conteve as emoções que fervilhavam em seu peito e saiu passo a passo da esquina do corredor.
No momento em que Julian a viu, ele voltou ao estado mais familiar para ela: indiferente e distante.
Como se alguém tivesse apertado um interruptor.
Ele perguntou com a testa franzida: "O que você está fazendo aqui?"
A médica ao lado virou-se curiosa para olhar Giovana: "Quem é esta?"
O semblante de Julian não teve a menor oscilação: "Giovana."
Sem sufixo, sem o título de sua esposa.
O nome dela, dito por ele, soava como se fosse uma familiar de um paciente que ele acabara de conhecer.
Giovana tomou a iniciativa e estendeu a mão.
"Olá, sou Giovana, esposa de Julian e tanatóloga na funerária da cidade."
O olhar da médica parou por um instante na mão estendida de Giovana e depois se desviou.
Ela não estendeu a mão, apenas assentiu: "Olá, sou Sabrina, anestesista do Gabriel."
Giovana recolheu a mão, deixando-a cair ao lado do corpo.
Vendo a cena, Julian interveio para aliviar a situação de Sabrina.
"A cirurgia vai começar, volte e prepare-se primeiro."
Sabrina respondeu e saiu.
Assim que ela se afastou, Julian olhou de relance para Giovana, com um tom de voz carregado de repreensão.
"Não precisa apresentar sua identidade, isso deixa os outros em uma situação embaraçosa."
Dito isso, ele caminhou diretamente na direção em que Sabrina havia ido.
Giovana ficou parada, cerrando e relaxando os dedos.
Ela apenas declarou abertamente sua profissão e, aos olhos dele, isso se tornou um motivo para desagradar os outros.
Ela caminhou até a janela de atendimento.
A enfermeira no balcão a reconheceu, empurrou o formulário pela bancada, recusando-se a entregá-lo diretamente em suas mãos, e secretamente limpou a mão com um lenço desinfetante debaixo da mesa.
Giovana ouviu vagamente ela sussurrar para a enfermeira ao lado:
"É aquela da funerária de novo... mantenha distância dela."
Após preencher o formulário, ao se virar para sair, ouviu a conversa abafada das duas enfermeiras atrás de si.
"Acabei de ouvir, ela é esposa do médico Julian, da cirurgia cardíaca."
"Sério? Como o Dr. Julian aguenta? Alguém que lida com mortos todos os dias chegando em casa... só de pensar já dá arrepios."
Giovana não parou de caminhar.
Esse tipo de comentário, ela ouve desde que começou a trabalhar, há cinco anos, e há muito tempo aprendeu a não olhar para trás.
Ela voltou à funerária para continuar trabalhando até o fim do expediente, quando, de repente, uma chuva torrencial começou a cair lá fora.
As gotas de chuva batiam no vidro, fazendo barulho.
Giovana ficou parada na porta, chamando mais de dez carros, mas todos mostravam que a viagem fora recusada.
Vendo a chuva aumentar, ela pegou o celular e ligou para Julian várias vezes, mas ninguém atendeu.
Ela cerrou os dentes, correu para a chuva e seguiu em direção à sua casa.
Ao chegar em casa ensopada, ela estava completamente molhada.
A luz da sala estava acesa e um guarda-chuva rosa estava na entrada.
Julian estava saindo da cozinha.
Giovana olhou para ele, com a água da chuva pingando de suas roupas no chão.
"Você esteve em casa o tempo todo?"
Julian virou-se e olhou para ela, com um tom de surpresa.
"Acabei de chegar, por que você está tão molhada?"
Giovana segurou a ponta de sua roupa encharcada: "Eu te liguei, mas você não atendeu..."
Antes que terminasse de falar, o celular de Julian tocou.
Ele pegou o aparelho imediatamente, e a voz suave de Sabrina veio do outro lado.
"Muito obrigada, Gabriel, com essa chuva tão forte, ainda se deu ao trabalho de fazer um desvio para me trazer em casa."