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《A Carta de Deus》Parte 5

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Desde que Gabriel chegou à Fazenda Oliveira, a casa parecia diferente.

Depois de vinte anos de silêncio, finalmente existiam duas pessoas vivendo novamente naquele lugar.

Mas a presença de Gabriel não trouxe apenas felicidade.

Trouxe também todas as dores que ficaram escondidas durante anos.

Helena Maria de Oliveira observava o filho andando pelos corredores da fazenda.

Às vezes ela queria se aproximar.

Queria tocar no rosto dele.

Queria dizer que sentiu sua falta todos os dias.

Mas existia uma barreira invisível entre eles.

Uma barreira construída por duas décadas de sofrimento.

Gabriel também sentia isso.

Ele estava na casa onde cresceu.

No lugar onde viveu os momentos mais felizes da infância.

Mas ainda havia uma pergunta que não saía da sua cabeça.

Quem fez ele acreditar que sua mãe não o queria?

Na manhã seguinte, Helena acordou cedo.

Ela encontrou Gabriel sentado na varanda olhando para a plantação de café.

Por alguns segundos, ela apenas observou.

Era estranho.

O homem diante dela era adulto.

Tinha cabelos diferentes.

Tinha marcas de vida no rosto.

Mas para ela ainda existia o menino que corria pelo terreiro chamando por ela.

Ela preparou café e levou uma xícara para ele.

Gabriel agradeceu com um pequeno sorriso.

"Obrigado."

Helena sentou ao lado dele.

Durante alguns minutos, os dois ficaram em silêncio.

Até que Gabriel falou:

"Eu lembro desse lugar."

Ela olhou para ele.

"Eu também lembro."

Ele observou os campos.

"Eu lembro do meu pai me ensinando a andar de bicicleta aqui."

Um sorriso triste apareceu no rosto de Helena.

"Ele ficou três dias correndo atrás de você porque tinha medo que você caísse."

Gabriel sorriu pela primeira vez.

"Ele dizia que eu precisava aprender sozinho."

"E depois passava a noite preocupado."

Os dois riram levemente.

Por alguns segundos, parecia que vinte anos nunca tinham existido.

Mas então o silêncio voltou.

Porque ainda havia uma verdade escondida.

E eles precisavam encontrá-la.

Naquela tarde, Helena pegou novamente a Bíblia de Antônio.

Ela sabia que ainda existiam cartas que precisavam ser abertas.

Os envelopes estavam organizados por datas.

Como se Antônio tivesse planejado cada passo.

O próximo envelope era mais grosso.

Na frente estava escrito:

"Para Helena e Gabriel."

Ela olhou para o filho.

Gabriel percebeu a expressão dela.

"O que é isso?"

Helena segurou o envelope.

"Uma carta do seu pai."

Ele ficou em silêncio.

Durante anos, Antônio também foi uma pessoa que ele sentiu falta.

O pai que sempre acreditou nele.

O homem que morreu sem que ele pudesse se despedir.

Helena abriu o envelope.

A letra de Antônio apareceu novamente.

"Minha querida Helena e meu querido filho Gabriel."

Os dois ficaram atentos.

"Se vocês estão lendo esta carta juntos, significa que Deus permitiu que o amor fosse mais forte que a distância."

Gabriel respirou profundamente.

"Eu sei que vocês carregam uma dor muito grande."

Helena segurou a mão do filho.

"Mas existe algo que vocês precisam entender."

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A carta continuava.

"Durante todos esses anos, vocês procuraram respostas olhando para o passado com raiva."

Gabriel abaixou os olhos.

Porque era verdade.

Ele passou vinte anos sentindo abandono.

Helena passou vinte anos sentindo rejeição.

"Mas o caminho de Deus não é construído com vingança."

Antônio escreveu:

"Não procurem destruir quem causou sofrimento. Procurem a verdade."

Helena sentiu as lágrimas aparecerem.

Era exatamente o que ela precisava ouvir.

Porque durante anos imaginou encontrar a pessoa responsável e perguntar:

Por quê?

Por que tirou meu filho de mim?

Mas Antônio estava ensinando outra coisa.

Perdão.

Não esquecimento.

Não aceitar uma mentira.

Mas libertar o coração da dor.

Gabriel continuou lendo.

"Existe uma pessoa que ajudou a criar a mentira que separou nossa família."

Os dois ficaram imóveis.

"Essa pessoa deixou provas falsas para fazer Gabriel acreditar que sua mãe havia escolhido abandoná-lo."

O rosto de Gabriel mudou.

"Provas falsas?"

Helena olhou para ele.

A carta continuava.

"Gabriel, você nunca foi rejeitado pela sua mãe."

As mãos dele começaram a tremer.

Durante vinte anos, aquela tinha sido sua maior dor.

Acreditar que sua própria mãe não queria sua presença.

Mas agora Antônio dizia exatamente o contrário.

"Você foi enganado por alguém que conhecia nossa família."

Gabriel levantou os olhos.

"Quem?"

Helena virou a página.

E encontrou uma informação que mudou tudo.

Antônio escreveu:

"O responsável por essa mentira foi Roberto Vasconcelos."

O silêncio tomou conta da sala.

Gabriel ficou pálido.

Roberto Vasconcelos.

O pai de Renata.

Seu sogro.

O homem que sempre esteve próximo da família.

O homem que ele confiava.

"Não pode ser."

A voz de Gabriel saiu baixa.

Helena segurou a carta.

"Você conhece esse nome?"

Ele levantou lentamente.

"Roberto foi a pessoa que me ajudou quando saí da fazenda."

Helena sentiu um arrepio.

"Ele disse que estava me ajudando?"

Gabriel ficou em silêncio.

Então começou a lembrar.

Vinte anos atrás.

Ele tinha acabado de discutir com a mãe.

Estava confuso.

Ferido.

Foi Roberto quem apareceu.

Foi ele quem disse que Helena tinha falado coisas horríveis sobre ele.

Foi ele quem mostrou documentos.

Cartas.

Mensagens.

Tudo parecia provar que sua mãe queria que ele fosse embora.

Gabriel levou a mão à cabeça.

"Meu Deus..."

Helena olhou para ele.

"Você acreditou nele?"

Gabriel fechou os olhos.

"Eu era jovem. Eu estava machucado."

A voz dele começou a falhar.

"Eu só queria entender por que minha mãe parecia não me querer."

Helena começou a chorar.

"Mas eu nunca disse aquilo."

"Eu sei."

Pela primeira vez, Gabriel disse aquela frase sem dúvida.

"Agora eu sei."

Naquele momento, algo mudou entre eles.

Não era uma reconciliação completa.

As feridas ainda existiam.

Mas pela primeira vez, eles estavam do mesmo lado.

Procurando a mesma verdade.

Na noite daquele dia, Gabriel não conseguiu dormir.

Ele ficou andando pela antiga sala.

Pensava em tudo.

Nas palavras de Roberto.

Nos documentos.

Nas mentiras.

E principalmente em Renata.

Sua esposa.

A filha daquele homem.

Ele tentou afastar o pensamento.

Não queria acreditar que sua própria família estivesse envolvida.

Mas as peças começavam a se encaixar.

Na manhã seguinte, Gabriel recebeu uma ligação.

Era um antigo funcionário da fazenda.

Um homem que trabalhou com Antônio durante muitos anos.

"Gabriel, eu soube que você voltou."

"Sim."

"Eu esperei muito tempo para poder falar com você."

Gabriel ficou atento.

"O que você precisa me dizer?"

O homem respirou fundo.

"Seu pai pediu para eu guardar uma coisa caso um dia você descobrisse a verdade."

Gabriel sentiu o coração acelerar.

"O que é?"

"Uma cópia dos documentos que Roberto apresentou naquela época."

Gabriel segurou o telefone com força.

"Você ainda tem isso?"

"Tenho."

O homem fez uma pausa.

"Mas existe algo que você precisa saber."

"O quê?"

"Aqueles documentos tinham uma assinatura que nunca deveria estar ali."

Gabriel ficou em silêncio.

"Qual assinatura?"

A resposta veio depois de alguns segundos.

"Era a assinatura da sua mãe."

Gabriel sentiu o sangue gelar.

Porque se aquilo fosse verdade, então alguém não apenas criou uma mentira.

Alguém falsificou uma prova usando o nome de Helena.

Enquanto isso, em São Paulo, Renata Vasconcelos Oliveira observava o marido pelo celular.

Ela tinha recebido uma mensagem.

Uma foto de Gabriel entrando na Fazenda Oliveira.

Ela percebeu imediatamente.

Ele estava acreditando na mãe.

Depois de vinte anos, a história que ela e seu pai construíram começava a desmoronar.

Renata apertou o telefone.

Seu rosto mudou.

Pela primeira vez, ela sentiu medo.

Porque se Gabriel descobrisse toda a verdade, ela não perderia apenas uma discussão.

Ela perderia tudo.

Ela olhou para a fotografia da Fazenda Oliveira.

E tomou uma decisão.

Antes que a verdade fosse revelada...

Ela precisava impedir Gabriel de descobrir o passado.

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