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《A Carta de Deus》Parte 2

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Helena Maria de Oliveira passou a noite inteira sentada na cama, segurando aquela pequena folha de papel como se fosse o último pedaço da vida que ainda restava em suas mãos.

A frase escrita por Antônio continuava diante dos seus olhos.

"Eu nunca abandonei você."

Ela leu aquela mensagem dezenas de vezes.

Cada palavra parecia carregar a voz do homem que esteve ao lado dela durante quarenta e cinco anos.

Mas junto com a esperança veio uma pergunta que não saía da sua cabeça.

Por que Antônio havia escrito aquela carta?

Por que ele colocou uma condição tão estranha?

"Abra quando perder tudo."

Helena olhou ao redor do quarto antigo.

Naquele lugar estavam todas as lembranças da vida que ela construiu.

O armário onde guardava os vestidos das festas de família.

A cadeira onde Antônio costumava sentar todas as manhãs para tomar café.

A janela de onde os dois observavam a plantação de café crescer.

Tudo estava desaparecendo.

Mas agora existia algo que ela não tinha antes.

Uma pergunta.

E talvez uma resposta.

Na manhã seguinte, Helena levantou antes do sol nascer.

Depois de muitos meses sem vontade de fazer nada, naquele dia havia algo diferente dentro dela.

Não era felicidade.

Ainda havia muita dor.

Mas existia uma pequena chama de curiosidade.

Ela colocou a Bíblia de Antônio sobre a mesa da sala e começou a procurar novamente.

Passou os dedos por cada página.

Olhou dentro da capa.

Examinou cada espaço escondido.

Ela conhecia aquele livro.

Antônio nunca deixava ninguém tocar naquela Bíblia.

Era como se carregasse uma parte da alma dele.

Depois de alguns minutos, Helena percebeu que havia algo estranho.

A capa interna parecia mais grossa em um dos lados.

Com cuidado, ela puxou uma pequena parte do tecido antigo.

E ficou completamente surpresa.

Atrás da capa havia outro envelope.

Depois outro.

E mais outro.

Helena levou a mão até a boca.

"Meu Deus..."

Eram vários envelopes.

Todos antigos.

Todos com a letra de Antônio.

Mas o que mais chamou sua atenção eram as datas escritas em cada um.

 

 

 

 

 

Antônio havia preparado aquelas cartas durante anos.

Como se soubesse que um dia ela precisaria encontrá-las.

Helena sentou lentamente na cadeira.

Seu coração começou a bater mais forte.

Ela pegou o primeiro envelope.

A data era de vinte anos atrás.

Exatamente o período em que Gabriel foi embora.

Por alguns segundos, ela ficou parada.

Aquela época ainda era uma ferida aberta.

Ela lembrava de cada detalhe.

As discussões.

O afastamento.

O silêncio.

O dia em que perdeu o filho.

Com as mãos trêmulas, abriu o envelope.

Dentro havia uma carta maior.

Diferente da primeira.

E pela primeira vez em muitos anos, Helena sentiu medo do que poderia descobrir.

Ela começou a ler.

"Minha querida Helena."

As lágrimas apareceram imediatamente.

Antônio sempre começava suas cartas daquela forma.

"Se você está lendo esta carta, significa que algo aconteceu e você acredita que está sozinha."

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Helena respirou fundo.

Continuou.

"Eu conheço a mulher que você é. Sei que você carregou todos os pesos da nossa família sem reclamar."

Ela apertou o papel contra o peito.

"Mas existe uma coisa que preciso que você saiba. Um dia você pode olhar para sua vida e pensar que Deus esqueceu de você."

Helena parou.

A frase parecia escrita exatamente para aquele momento.

Para aquela noite em que pensou em desistir.

Ela continuou lendo.

"Quando esse dia chegar, lembre-se: Deus nunca abandona aqueles que caminham com amor."

As lágrimas começaram a cair.

Antônio sabia.

De alguma forma, ele sabia que ela enfrentaria aquele momento.

Mas havia algo ainda mais estranho.

A carta continuava falando sobre Gabriel.

"Sobre nosso filho, existem verdades que você ainda não conhece."

O coração de Helena acelerou.

Ela segurou o papel com força.

Gabriel.

Depois de vinte anos, aquele nome ainda tinha o poder de destruir suas defesas.

"Você acredita que nosso filho escolheu ir embora porque não amava você. Mas antes de tirar qualquer conclusão, procure a verdade."

Helena levantou os olhos.

"Antônio, o que você quis dizer com isso?"

Mas não havia ninguém para responder.

A carta terminava com uma frase:

"Não procure culpados antes de conhecer toda a história."

Helena ficou em silêncio.

Durante vinte anos, ela acreditou que Gabriel tinha simplesmente abandonado sua família.

Que ele tinha escolhido uma vida longe dela.

Mas e se não fosse verdade?

E se algo tivesse acontecido?

E se alguém tivesse separado mãe e filho?

Naquele momento, uma lembrança antiga voltou à sua mente.

O último dia de Gabriel na fazenda.

Ele parecia triste.

Não parecia um filho que queria abandonar a mãe.

Parecia alguém que estava fugindo de alguma coisa.

Helena fechou os olhos.

Pela primeira vez em vinte anos, uma dúvida apareceu.

Talvez ela tivesse passado duas décadas sofrendo por uma mentira.

Enquanto isso, em São Paulo, uma história completamente diferente começava.

No bairro dos Jardins, em uma cobertura luxuosa, Gabriel Henrique Oliveira observava a cidade pela janela.

Aos 42 anos, ele era conhecido como um dos empresários mais bem-sucedidos do setor imobiliário.

Tinha dinheiro.

Tinha influência.

Tinha tudo que muitas pessoas desejavam.

Mas existia um vazio que ele nunca conseguiu preencher.

A ausência da mãe.

Naquela manhã, seu advogado entrou na sala carregando alguns documentos.

"Gabriel, preciso conversar com você sobre uma questão urgente."

Gabriel percebeu a preocupação no rosto dele.

"O que aconteceu?"

O advogado colocou os papéis sobre a mesa.

"Recebi uma notificação sobre a Fazenda Oliveira."

O nome da fazenda fez Gabriel mudar completamente a expressão.

"Minha antiga casa?"

O advogado confirmou.

"Sim. A propriedade está em processo de execução. Se nada for feito, ela será levada a leilão."

Gabriel ficou em silêncio.

Durante vinte anos, ele tentou convencer a si mesmo de que aquela parte da vida estava encerrada.

Mas ouvir o nome da fazenda trouxe todas as lembranças de volta.

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O cheiro do café.

A voz do pai.

O abraço da mãe.

Ele pegou os documentos.

"Minha mãe ainda está lá?"

O advogado hesitou.

"Sim. Helena continua morando na propriedade."

Antes que Gabriel pudesse responder, uma voz feminina apareceu atrás dele.

"Você não precisa se preocupar com isso."

Era Renata Vasconcelos Oliveira, sua esposa.

Elegante, bem vestida e sempre controlada.

Ela caminhou até a mesa e olhou os documentos.

"Essa fazenda pertence ao passado."

Gabriel olhou para ela.

"É a casa da minha mãe."

Renata cruzou os braços.

"Gabriel, sua mãe fez a escolha dela há muitos anos."

Ele franziu a testa.

"O que você quer dizer?"

Renata respondeu sem hesitar.

"Ela escolheu ficar longe de nós."

Aquelas palavras ficaram no ar.

"Ela nunca procurou você. Nunca tentou voltar."

Gabriel desviou o olhar.

Era exatamente aquilo que ele repetia para si mesmo há anos.

Mas naquele momento, pela primeira vez, aquilo começou a parecer estranho.

Porque ele nunca tinha perguntado a verdade.

Nunca tentou descobrir o outro lado da história.

Renata percebeu a mudança no rosto dele.

Aproximou-se e segurou sua mão.

"Amor, não deixe o passado destruir sua vida."

Mas Gabriel já não estava ouvindo.

Naquela noite, sozinho no escritório, ele abriu uma antiga caixa guardada no fundo de um armário.

Dentro havia poucas coisas da infância.

Um carrinho velho.

Um desenho.

E uma fotografia.

Era uma foto dele ainda criança.

Ao lado da mãe.

Helena segurava sua mão e sorria.

Gabriel passou os dedos pela imagem.

Ele não lembrava da mãe como alguém que queria perdê-lo.

Ele lembrava dela como alguém que fazia tudo por ele.

Então uma pergunta surgiu.

Uma pergunta que ele evitou durante vinte anos.

"Por que minha mãe nunca me procurou?"

Pela primeira vez, Gabriel sentiu que talvez a resposta não fosse tão simples.

Enquanto isso, em Minas Gerais, Helena segurava a segunda carta de Antônio.

Ela voltou a olhar para os outros envelopes escondidos dentro da Bíblia.

Cada um tinha uma data.

Cada um guardava um segredo.

E no último envelope havia uma palavra escrita que fez seu coração parar por alguns segundos.

O nome de Gabriel.

Helena aproximou o envelope do peito.

Ela sabia que Antônio havia escondido uma verdade durante vinte anos.

Mas ainda não sabia se aquela verdade iria unir sua família novamente...

Ou destruir tudo que restava dela.

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