Flutuando num canto, fiquei paralisada.
Eles cancelaram o noivado? Foi por minha causa?
A voz de Caio era baixa, com um quê de rouquidão: "Muito obrigado, desta vez falhei com você."
Sofia balançou a cabeça: "Na verdade, só ficamos noivos para nos acomodarmos um ao outro, não há nada pelo que pedir desculpas."
Então, entre eles, não havia sentimentos?
Suspirei.
Já estou morta, por que ainda sinto esse aperto no peito?
Aquele nó doloroso estava preso na garganta; não descia nem subia.
Sofia sentou-se à sua frente e baixou o tom de voz: "O que você pretende fazer agora?"
Os dedos de Caio se contraíram, ele não respondeu.
Flutuando ao lado, senti o nariz arder.
Ele usou o método mais estúpido para tentar me fazer voltar, e eu, a cada vez, dava um passo para trás.
Mas o que eu poderia fazer?
Alguém que está prestes a morrer, que direito tem de pedir que ele volte?
Sofia sentou-se por mais um tempo, disse algumas palavras como "meus sentimentos" e "cuide-se", levantou-se e foi embora.
Ao sair, ela olhou para trás uma última vez na porta, abriu a boca, mas não disse nada e fechou a porta.
No escritório, só restou Caio.
E eu, uma "eu" que ele não podia ver.
Ele permaneceu sentado na cadeira, encarando a mesa, imóvel.
A luz lá fora passou de clara para escura, as sombras alongaram-se, e ele nunca mudou de postura.
Sr. José entrou uma vez para perguntar se ele não iria embora, e ele disse que ficaria mais um pouco.
Sr. José não insistiu e saiu.
Ele ficou perdido em pensamentos por muito tempo.
Quando a noite caiu completamente, ele se levantou e pediu alguns dias de folga ao Sr. José.
O Sr. José olhou para ele e assentiu.
A casa de Caio ficava em um beco da cidade velha.
Flutuei atrás dele ao passar pela porta de segurança. Na sala, a Sra. Chen, mãe dele, estava sentada no sofá; ao vê-lo entrar, largou o tricô.
"Chegou?" Sua voz soou tensa.
Caio trocou os sapatos e respondeu.
"Sobre... sobre o caso de Lia", a voz da Sra. Chen baixou, "ouvi a esposa do Sr. José comentar. Câncer de estômago... avançado?"
Caio não disse nada.
"Essa criança, que triste. Os pais se foram cedo, a avó também, ficou sozinha... como pôde pegar essa doença?"
Pensei que Caio fosse explodir de raiva ou questioná-la sobre o porquê de ter me procurado naquela época para dizer aquelas coisas.
Mas ele não disse nada.
Trocou os chinelos, passou pela Sra. Chen e sua voz era plana: "Vou para o meu quarto."
A porta se fechou.
Flutuei junto.
E então, parei.
No canto do quarto, havia várias caixas de papelão com o logotipo da floricultura.
Eram minhas coisas.
Minhas roupas, meus livros, tudo dobrado com cuidado por ele.
Ele trouxe todos os meus pertences para o seu próprio quarto.
Virei-me e vi uma pequena caixa de metal na mesa de cabeceira.
A tampa não estava bem fechada, revelando um pedaço de algo vermelho.
Aproximei-me para ver.
Era um cordão vermelho, trançado em três partes, com a cor desbotada para um tom escuro de ferrugem, exatamente igual ao que dei à minha avó.
Ele disse que tinha jogado fora há muito tempo.
Encarei aquele cordão e meus olhos se encheram de lágrimas de repente.
"Mentiroso", murmurei.
Ele não podia me ouvir.
Ele estava sentado na beira da cama, abaixou a cabeça, abriu a gaveta e tirou uma foto antiga do fundo.
Foi tirada há muito tempo; meus olhos brilhavam como luas crescentes ao sorrir, ele estava atrás de mim, com um leve arco nos lábios.
Ele virou a foto.
No verso, duas linhas escritas.
Minha caligrafia: Lia e Caio, juntos para sempre.
Abaixo, a dele: Para sempre, sem se separar.
Ele baixou a cabeça, o polegar acariciando meu rosto na foto.
"Lia", disse ele, a voz muito baixa, "você é uma mentirosa."
Minhas lágrimas caíram novamente.
Flutuei diante dele, a menos de um braço de distância.
Queria estender a mão e tocá-lo, mas não podia fazer nada.
Abri a boca e disse baixinho: "Para sempre é longe demais. Caio, por favor, esqueça-me e comece uma nova vida."
Capítulo 10
Ele ficou ali sentado, acariciando a foto repetidas vezes, sem parar.
Flutuei diante dele, estendi a mão, mas ela atravessou seu ombro.
O choro não tinha som, as lágrimas não deixavam vestígios.
Ao amanhecer, ele finalmente largou a foto.
Guardou-a cuidadosamente na gaveta, levantou-se e saiu do quarto.
Ao entrar no banheiro, deixou a torneira aberta por um longo tempo.
Quando saiu, seu rosto estava seco e seus olhos não estavam mais vermelhos.
Ele trocou de roupa e saiu.
Pensei que fosse à funerária, mas ele foi ao shopping.
Flutuei atrás dele enquanto o via entrar em uma alfaiataria, medir as roupas e escolher um tecido azul-marinho.
"Quando posso retirar?" perguntou.
"Em quinze dias."
Ele assentiu e pagou o sinal.
Nos dias seguintes, passou a sair com frequência.
Às vezes sozinho, às vezes com Sofia.
Iam aos hotéis, olhavam os salões de festa, folheavam cardápios.
Sofia o ajudava a escolher as coisas, mas sua expressão sempre trazia uma hesitação indescritível.
Certa vez, ao sair de um hotel, Sofia segurou sua manga.
"Caio", a voz de Sofia baixou, "será que isso... vale a pena?"
Ele mantinha a expressão neutra, sem mudanças, apenas carregada de teimosia.
"Se vale ou não, quem decide sou eu."
Sofia suspirou, soltou sua manga e o seguiu.
Flutuando sobre eles, não entendia nada do que diziam.
Passados mais alguns dias, quando Sofia foi procurar Caio, sua expressão não era das melhores.
Ela colocou um catálogo sobre a mesa, sem abri-lo, e ficou em pé diante dele com os braços cruzados.
"Caio, posso te ajudar com o casamento, mas há coisas que preciso dizer."
Caio levantou os olhos para ela.
Sofia mordeu o lábio: "Sua mãe tem idade, não pode sofrer choques. Não faça nenhuma loucura."
Os dedos de Caio hesitaram, e ele respondeu sem levantar a cabeça:
"Fique tranquila, não pretendo fazer nenhuma loucura."
Ele se levantou, pegou o catálogo e folheou: "A iluminação deste salão não estaria escura demais?"
Sofia olhou para ele com os olhos um pouco vermelhos.
Abriu a boca para dizer algo, mas acabou engolindo as palavras.
Baixou a cabeça e apontou com o dedo para um lugar no catálogo.
"Este salão tem uma iluminação melhor", disse ela, com a voz abafada.
Flutuando ao lado, senti um nó no coração.
Casamento? Ele vai celebrar um casamento? Com quem?
No dia em que o terno foi entregue, ele o provou diante do espelho.
Azul-marinho, corte ajustado, ele tinha emagrecido muito.
Tirou aquele cordão vermelho do bolso, amarrou-o no pulso esquerdo e apertou o nó com os dentes.
Depois, pegou uma pequena caixa do armário e a abriu; dentro, duas alianças.
Aros de prata simples com nomes gravados no interior. Aproximei-me para ver.
"Lia" e "Caio".
Fiquei paralisada.
Ele tirou a feminina, olhou-a contra a luz por um longo tempo, guardou-a de volta, fechou a caixa e a colocou no bolso.
Flutuei diante dele, observando-o.
"Caio, o que você pretende fazer?"
Ele não podia me ouvir.
Nos dias que se seguiram, Sofia continuou a ajudar, mas a cada visita trazia aquele ar de quem tinha algo a dizer, mas não conseguia.
Às vezes ela parava de folhear o catálogo de repente e olhava para Caio, perdida em pensamentos.
Na manhã do último dia do mês, Caio vestiu aquele terno azul-marinho e arrumou o cabelo.
Sofia veio buscá-lo, vestindo um vestido cor de champanhe e maquiagem leve.
Mas ela segurava um lenço com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Olhou para o cordão vermelho no pulso de Caio e desviou o rosto.
"Vamos", disse ela.
Entrei no carro com eles. Dirigiram por uma hora.
Flutuei para fora da janela do carro e, ao olhar para cima, vi o portão da funerária.
O salão de despedidas tinha sido decorado.
Cortinas de gaze branca pendiam do teto, tudo estava repleto de flores frescas.
Lírios, rosas brancas, camomilas e aquele vaso de jasmim, do qual haviam brotado algumas pequenas flores brancas.
Duas fileiras de cadeiras estavam dispostas com poucas pessoas sentadas.
Sr. José, alguns colegas da funerária; a Sra. Chen não veio.
Sofia caminhou até o assento dos convidados e sentou-se.
Baixou a cabeça e pressionou o canto dos olhos com o lenço.
Caio estava na frente de todos. Diante dele não havia um cerimonialista, apenas uma fotografia.
Minha fotografia.
Capítulo 11
"Hoje é o dia do nosso casamento."
Sua voz não era alta, mas era firme, como se ele tivesse repetido essa frase mil vezes em seu coração.
Flutuando no ar, meu corpo inteiro paralisou.
Ele vestia aquele terno azul-marinho, com o cordão vermelho desbotado amarrado ao pulso, parado diante da minha fotografia.
Caio tirou um papel do bolso e o desdobrou.
As bordas do papel estavam gastas e os vincos tão profundos que haviam ficado esbranquiçados.
Ele começou a ler.
"Lia, eu, Caio, hoje me comprometo voluntariamente a me unir a você em matrimônio."