O bilhete na porta estava quase todo arrancado pelo vento, e as palavras "Fechado temporariamente" pendiam tortas na maçaneta.
Caio reduziu a velocidade ao passar de moto elétrica.
Já fazia quase um mês que aquela porta não abria.
Ele deu uma olhada lá dentro; muitas das flores já estavam secas, e as pétalas cobriam o chão.
No canto, aquele vaso de jasmim; o botão mais alto, que ainda não tinha tido chance de abrir, já tinha secado, transformando-se em uma casca castanha vazia.
Caio franziu a testa, sem evitar pensar: onde estava Lia?
O celular vibrou; era uma mensagem de Sofia.
[Não se atrase para o jantar de noivado desta noite.]
Caio encarou essa mensagem por muito tempo, em um transe.
Ele lembrou que, no dia do encontro, a primeira coisa que disse a Sofia foi, na verdade: "Desculpe, meu coração já pertence a outra pessoa".
Mas Sofia disse que, num encontro arranjado, não se espera falar de amor; casamento é apenas duas pessoas tentando conviver, desde que sejam compatíveis, está tudo bem.
Depois, o Sr. José insistiu, e Sofia tomou a iniciativa de convidá-lo várias vezes, mas ele nunca aceitou.
Foi apenas naquela noite no bar, quando confirmou que Lia realmente não voltaria atrás, que ele finalmente perdeu as esperanças e concordou em namorar Sofia.
No dia em que levou Sofia para entregar os doces a Lia.
No caminho de volta, Sofia perguntou sorrindo: "Essa é a ex-namorada que você não consegue superar? Mas, pelo que vejo, ela já te superou há muito tempo".
Ele não disse nada, mas seu coração amargava.
Até quem olhava de fora via que Lia não o amava mais, então por que ele insistia?
Caio respondeu: [Está bem.]
Depois, bloqueou o celular e guardou-o no bolso, olhando mais uma vez para a porta fechada da floricultura.
Ele pensou que Lia provavelmente tinha voltado para a metrópole.
Já deveria ter previsto; ela era alguém que queria voar para longe, e essa cidade pequena não poderia contê-la.
Ele acelerou, e a moto passou pela rua; a sombra dos plátanos deslizou sobre seus ombros, uma após a outra.
Ele não olhou mais para trás.
Ao chegar à funerária, o Sr. José o esperava na porta, segurando um cigarro na mão, sem acendê-lo.
O Sr. José olhou para ele, um olhar estranho, como se o observasse há muitos anos ou como se fosse a primeira vez que o via.
"Chegou um pedido; o falecido especificou você para o embalsamamento."
Caio hesitou: "Quem?"
O Sr. José silenciou por alguns segundos: "Você saberá quando entrar".
Caio congelou; sentiu um peso inexplicável no peito.
Era como se uma mão invisível apertasse seu coração, sem força, mas o suficiente para deixá-lo sem fôlego.
Ele vestiu o uniforme e entrou na sala de preparo.
Panos brancos, luzes brancas; o ar estava saturado com o cheiro de desinfetante e conservantes.
Caio fez três reverências profundas diante do corpo, pegou a ficha de embalsamamento e caminhou até a mesa para conferir os dados por rotina.
Ele abaixou a cabeça, puxou o pano branco e, então, viu Lia.
Capítulo 8
As lâmpadas fluorescentes da sala de preparo zumbiam acima de sua cabeça.
A mão de Caio, que havia puxado o pano branco, parou no ar.
Ele ficou ali, imóvel, com o olhar fixo na ficha de embalsamamento sobre a mesa.
[Lia, feminino, 26 anos. Causa da morte: câncer de estômago avançado. Data da morte: 17 de junho de 2026.]
Câncer de estômago avançado.
Ele encarou essas palavras como se estivesse sendo estrangulado.
Lembrou-se de que, em cada vez que encontrou Lia depois, ela parecia segurar o estômago, com o rosto tão pálido quanto papel.
Uma vez, ela estava agachada organizando baldes de flores; quando se levantou, cambaleou. Ele passava por ali, e ela riu dizendo: "Fiquei um pouco tonta por ter ficado muito tempo agachada".
Outra vez, ela tomava remédio na beira da estrada; quando a viu, ela escondeu o frasco atrás das costas e disse que eram vitaminas.
Quando ela dizia "está tudo bem", sua expressão era tão natural que ele acreditou.
No final, não era apenas dor de estômago.
Era câncer.
Mas ele não sabia de nada.
Ele chegou a odiá-la.
Odiou a forma como ela foi embora de modo tão decidido, odiou o fato de ela não ter dado uma única razão.
Ela o colocou na posição de cuidar de sua última jornada, sem lhe deixar uma única palavra de despedida.
As mãos de Caio apoiaram-se na borda da mesa, com os nós dos dedos brancos.
Preocupado, o Sr. José empurrou a porta e entrou para dar uma olhada.
"Caio..." a voz do Sr. José era pesada, "se estiver difícil, descanse um pouco; passo esse pedido para outra pessoa."
Caio balançou a cabeça, a voz saindo comprimida pela garganta: "Não precisa, eu dou conta, por favor, saiam."
O Sr. José hesitou, querendo dizer algo, mas contendo-se.
Por fim, soltou apenas: "Dê a ela uma despedida digna."
A porta se fechou.
Caio ficou diante da mesa por mais uns cinco minutos.
Então, respirou fundo, colocou as luvas e abriu o kit de ferramentas.
Seus movimentos eram firmes, sem diferença de quando preparava qualquer outro falecido.
Após terminar tudo, Caio não saiu.
Ele tirou as luvas, puxou uma cadeira para perto da mesa e sentou-se, olhando para o rosto dela.
"Quando você terminou comigo, não disse nada e foi embora arrastando a mala."
Sua voz tremeu, e ele abaixou a cabeça lentamente, encostando a testa no metal da mesa.
"Você... sempre carregou tudo sozinha. Passou pela doença sozinha, enfrentou a morte sozinha, e nem no final me contou. Lia, como você pode ser tão cruel?"
Houve um silêncio prolongado.
Ele levantou a cabeça; seus olhos estavam vermelhos, mas ele não chorou.
Ao chegar à porta, ele parou, sem olhar para trás, mas sua voz carregava um tom rouco:
"Desculpe. Quando você mais precisou de alguém ao seu lado, eu não estava."
Caio ficou na sala de preparo o dia inteiro.
Quando saiu, o céu já estava escuro.
Havia dezenas de chamadas perdidas no celular, todas de Sofia.
Caio retornou a ligação e, no momento em que ela atendeu, ele disse com a voz rouca: "Sinto muito, não poderei ir ao noivado, cancele tudo."
Sofia hesitou: "O que quer dizer? A família está esperando você..."
"Ela morreu."
Caio a interrompeu, a voz trêmula e tensa: "Lia não me deixou porque não me amava, ela estava com câncer de estômago, ela morreu..."
Do outro lado, o silêncio absoluto.
Após muito tempo, Sofia disse apenas: "Meus sentimentos".
E desligou.
O processo de cremação de Lia foi acompanhado por ele pessoalmente.
A urna também foi depositada por ele mesmo no depósito.
Então, ele estendeu a mão, retirou a urna da prateleira e abraçou-a.
Apoiou o queixo no topo da urna, fechou os olhos, e uma lágrima deslizou de seus olhos, caindo sobre a tampa.
"Espere por mim."
Senti como se estivesse afundando em águas profundas, muito profundas.
Então, ouvi alguém chamando meu nome, repetidas vezes.
Abri os olhos.
A luz do sol era tão forte que precisei levantar a mão para bloquear, e então percebi que estava em frente a uma lápide.
Túmulo de Lia.
Capítulo 9
Olhei para baixo, para mim mesma. A luz do sol atravessava meu corpo e não havia sombra no chão.
Havia um vaso de jasmim colocado diante da lápide.
Abaixei-me e estendi a mão para tocar, mas meus dedos atravessaram as pétalas; não senti absolutamente nada.
Então é assim que é estar morta.
Não senti medo.
Eu vinha me preparando para isso há mais de meio ano.
Passos ecoaram não muito longe.
Caio aproximou-se, vestindo aquele uniforme azul-marinho, e parou diante da lápide.
"Aquele vaso da floricultura não sobreviveu", disse ele. "Comprei outro, depois vou plantá-lo aqui para você."
Eu estava agachada ao lado da lápide, com o rosto levantado para vê-lo.
Ele não podia me ver. Ficou ali por um tempo e, então, deu meia-volta e foi embora.
Uma força vinda de trás me empurrou, envolvendo todo o meu ser e forçando-me a avançar.
Como uma folha seca, fui obrigada a segui-lo.
Depois de tentar me soltar algumas vezes sem sucesso, desisti.
Segui ao seu lado, observando-o ocupado, e não pude evitar flutuar para perto dele para reclamar.
"Caio, você está sendo um noivo muito incompetente; termina o trabalho e fica perguntando sobre a ex-namorada, mas quando chega a vez da atual noiva, por que não sabe nem enviar uma mensagem?"
Ao anoitecer, Sofia chegou.
Eu flutuava sob o teto do corredor e fui a primeira a vê-la.
Pensei: o que tinha que acontecer, aconteceu. A noiva apareceu, Caio, que a sorte te proteja.
Esperei que Sofia perdesse a paciência.
Ela caminhou direto para o escritório e parou diante dele.
"Ouvi dizer que você passou o dia todo aqui."
Ele assentiu: "Sim, os preparativos funerários dela acabaram de terminar."
Sofia silenciou por alguns segundos, e o tom de sua voz ao falar foi muito mais suave do que eu imaginava: "Já cuidei do cancelamento do noivado, você não precisa se preocupar."