Durante alguns segundos, eu não senti nada.
Nem medo.
Nem dor.
Nem frio.
Era como se o meu corpo tivesse parado no tempo antes de entender que eu estava caindo.
O céu de Ilhabela ficou cada vez mais distante.
O rosto de Rafael desapareceu acima de mim.
O vento rasgava meus ouvidos enquanto meu vestido branco se agitava violentamente no ar.
Eu tentei gritar.
Mas minha voz não saiu.
Tudo aconteceu rápido demais.
O homem que segurou minha mão no altar.
O homem que beijou minha barriga todas as noites.
O homem que prometeu proteger minha filha.
Ele tinha acabado de me empurrar.
E naquele instante, a única coisa que importava não era a minha vida.
Era a vida de Helena.
Minha mão foi imediatamente para minha barriga.
"Minha filha..."
Foi a única palavra que consegui dizer antes de atingir a água.
O impacto contra o mar foi brutal.
Meu corpo inteiro sentiu como se tivesse batido contra uma parede de concreto.
A água gelada invadiu meu nariz, minha boca e meus pulmões.
A escuridão me cercou.
Eu não sabia onde era cima.
Eu não sabia onde era baixo.
Eu só sentia o peso da água me puxando cada vez mais fundo.
Meu vestido ficou pesado.
Minhas pernas estavam presas pelo tecido molhado.
Meu ombro bateu contra uma pedra escondida no fundo do mar.
A dor atravessou meu corpo.
Mas eu não podia parar.
Eu não podia desistir.
Não naquele momento.
Não com minha filha dentro de mim.
Eu movi os braços desesperadamente.
Cada movimento parecia impossível.
Meu corpo gritava para parar.
Minha mente gritava para continuar.
Então uma lembrança apareceu.
Minha mãe segurando minha mão quando eu era criança.
Ela dizendo que uma mulher podia perder tudo na vida, menos a coragem de continuar.
Eu pensei nela.
Pensei em Helena.
Pensei que minha filha ainda nem tinha conhecido o mundo.
Eu não podia deixar Rafael vencer.
Eu não podia deixar aquele homem apagar nossa existência.
Com todas as forças que ainda restavam, eu nadei em direção à luz acima de mim.
Minhas mãos alcançaram a superfície.
E finalmente eu consegui respirar.
Eu voltei para o ar gritando.
A água salgada queimava minha garganta.
As ondas violentas me jogavam contra as pedras do penhasco.
Eu tentei olhar para cima.
O Costão do Bonete parecia uma montanha impossível.
Muito alto.
Muito distante.
Rafael não estava mais lá.
Ele tinha ido embora.
Ele realmente acreditava que eu estava morta.
Enquanto eu lutava contra o mar, Rafael Montenegro Albuquerque caminhava tranquilamente de volta para a Pousada Costa Imperial de Ilhabela.
Ele não corria.
Não gritava.
Não chamava ajuda.
Ele apenas caminhava.
Como um homem que tinha acabado de terminar uma tarefa difícil.
Quando entrou no quarto do hotel, ele olhou para o espelho.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Depois respirou fundo.
Pegou o celular.
Apertou um contato.
"Está feito."
Do outro lado da linha, uma voz feminina respondeu:
"Você tem certeza?"
Rafael olhou para a janela.
O oceano estava distante.
Calmo.
Como se nada tivesse acontecido.
"Eu vi ela cair."
Houve alguns segundos de silêncio.
Depois a mulher perguntou:
"E agora?"
Rafael abriu uma garrafa de água.
Sua voz continuou fria.
"Agora começa a segunda parte."
Ele desligou.
Pouco tempo depois, saiu do quarto gritando.
"Socorro!"
Funcionários da pousada correram até ele.
"O que aconteceu, senhor Rafael?"
Ele levou as mãos ao rosto.
Sua expressão parecia destruída.
"Minha esposa..."
Ele respirou com dificuldade.
"Minha esposa caiu do penhasco."
As pessoas ao redor ficaram chocadas.
Uma funcionária colocou a mão na boca.
"Meu Deus."
Rafael caiu sentado em uma cadeira.
"Eu tentei segurar ela."
A voz dele tremia.
"Eu tentei salvar minha esposa."
Ninguém percebeu que nenhuma lágrima caiu dos olhos dele.
A notícia se espalhou rapidamente.
Uma mulher grávida havia desaparecido no mar de Ilhabela.
Equipes de resgate foram chamadas.
Barcos começaram a procurar pela costa.
Policiais da Delegacia de Polícia de Ilhabela chegaram ao local.
A Delegada Mariana Azevedo assumiu a investigação inicial.
Ela observava Rafael enquanto ele repetia a mesma história.
"Ela queria tirar uma foto."
"Eu disse para ela tomar cuidado."
"Quando percebi, ela perdeu o equilíbrio."
Mariana ficou olhando para ele.
Ela tinha anos de experiência.
Sabia reconhecer pessoas desesperadas.
Mas também sabia reconhecer pessoas que estavam atuando.
"Senhor Rafael, sua esposa estava grávida de quantos meses?"
"Seis."
"E o senhor estava exatamente onde quando ela caiu?"
Rafael respondeu sem hesitar.
"Atrás dela."
"Então o senhor viu tudo?"
Ele abaixou a cabeça.
"Vi."
Mariana ficou em silêncio.
Algo naquela resposta incomodava.
Um homem que acabava de perder a esposa parecia muito controlado.
Muito preparado.
Enquanto todos procuravam um corpo, Isabela continuava lutando.
O frio começava a dominar seu corpo.
Seus dedos estavam dormentes.
Sua visão ficava cada vez mais fraca.
Ela segurava uma pequena pedra com uma das mãos.
A outra protegia sua barriga.
"Helena..."
Sua voz era quase um sussurro.
"Você precisa ficar comigo."
Uma onda enorme atingiu as pedras.
Seu corpo escorregou.
Por um segundo, ela quase foi levada novamente para o mar aberto.
Mas então ouviu algo.
Um som distante.
Um motor.
Um barco.
Ela tentou gritar.
Mas sua voz não tinha força.
Tentou levantar o braço.
Poucos segundos depois, uma luz apareceu através da névoa.
"Tem alguém ali!"
Uma voz masculina gritou.
"Pare o barco!"
Era um pequeno barco de pesca.
Dois pescadores estavam voltando para a costa quando viram algo branco entre as pedras.
O pescador mais velho, Antônio Ribeiro, aproximou o barco.
"Meu Deus... é uma mulher."
O outro homem olhou assustado.
"Ela está viva?"
Antônio se aproximou.
Colocou a mão perto do rosto dela.
Ela ainda respirava.
"Está viva!"
Eles conseguiram puxar Isabela para dentro do barco.
Ela estava quase inconsciente.
Seus lábios estavam roxos pelo frio.
Mas quando abriu os olhos por um segundo, segurou o braço de Antônio.
"Minha filha..."
Antônio olhou para a barriga dela.
"Ela está grávida."
Isabela tentou falar.
A voz saiu fraca.
"Meu marido..."
Ela tossiu.
"Ele me empurrou."
Depois disso, perdeu a consciência.
A ambulância chegou rapidamente.
Isabela foi levada para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após a equipe médica confirmar que precisava de cuidados especializados.
Durante horas, médicos lutaram para estabilizar sua condição.
Dr. Lucas Almeida acompanhou o caso pessoalmente.
A situação era delicada.
A queda tinha causado vários ferimentos.
Mas o maior medo era o bebê.
Do lado de fora da sala de emergência, Teresa Ferreira chegou desesperada.
Quando recebeu a ligação dizendo que sua filha estava viva, ela quase não acreditou.
Ela entrou no hospital chorando.
"Minha filha..."
Quando viu Isabela desacordada, segurou sua mão.
"Eu sabia que você não tinha ido embora."
Poucas horas depois, Dr. Lucas saiu da sala.
Teresa levantou imediatamente.
"Doutor, minha filha?"
Ele respirou fundo.
"Ela sofreu uma queda muito grave."
Teresa começou a chorar.
"E o bebê?"
O médico sorriu levemente.
"Ela é uma guerreira."
Teresa levou a mão ao peito.
"Minha neta?"
Dr. Lucas confirmou:
"Helena está viva."
A emoção tomou conta do corredor.
Teresa fechou os olhos e agradeceu em silêncio.
Mas ainda havia uma pergunta.
Por que Isabela tinha caído?
Na pousada, Rafael recebeu a notícia de que as buscas continuariam.
Ele fingia preocupação.
Mas dentro dele, acreditava que tudo tinha terminado.
Naquela noite, sozinho no quarto, abriu o computador.
Entrou no sistema da seguradora.
A tela mostrava os documentos do seguro de vida de Isabela.
Um valor milionário.
Tudo preparado.
Tudo planejado.
Ele sorriu.
Mas naquele momento, seu celular tocou.
Era Helena Montenegro Albuquerque.
A voz da mãe veio fria.
"Rafael, precisamos conversar."
Ele fechou o computador.
"Sobre o quê?"
"Sobre o que aconteceu."
Ele ficou em silêncio.
Sua mãe continuou:
"Você precisa ter certeza de que não deixou nenhuma prova."
Rafael olhou para a câmera sobre a mesa.
Por um segundo, seu rosto perdeu a segurança.
Porque ele lembrou de algo.
Antes de sair para o Costão do Bonete, ele tinha conectado sua câmera ao sistema de armazenamento em nuvem.
Uma função automática.
Uma função que ele nunca desligou.
Pela primeira vez naquela noite, Rafael sentiu medo.
Ele pegou a câmera.
Ligou o equipamento.
A tela começou a carregar.
Um arquivo apareceu.
Uma gravação automática.
Data: manhã daquele dia.
Local: Costão do Bonete.
Rafael ficou imóvel.
Porque, pela primeira vez desde que empurrou Isabela do penhasco, ele percebeu uma coisa:
Talvez o mar não tivesse sido o único lugar onde sua esposa sobreviveu.