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《A Dona da Fazenda》Parte 2

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Isabela Maria Vasconcelos passou vários minutos parada na cozinha da Fazenda Santa Helena, segurando aquela carta antiga entre os dedos, sem conseguir desviar os olhos das palavras escritas à mão.

A vela que iluminava o cômodo tremia com o vento que entrava pelas frestas da parede.

O silêncio daquela casa parecia diferente.

Antes, era apenas o silêncio de um lugar abandonado.

Agora parecia o silêncio de alguém que guardava uma história há muitos anos esperando o momento certo para ser revelada.

Isabela respirou fundo e voltou a olhar para o interior do baú de metal.

A carta estava em cima de outros objetos cuidadosamente guardados.

Ela tinha esperado encontrar apenas dinheiro.

Talvez algumas moedas antigas.

Talvez algo que pudesse ajudá-la a comprar comida e materiais para reformar a casa.

Mas aquilo era diferente.

Era como se alguém tivesse deixado uma mensagem especialmente para ela.

Com cuidado, Isabela retirou a carta completamente do baú.

Logo abaixo encontrou pequenas bolsas de tecido envelhecido.

Suas mãos começaram a tremer quando abriu a primeira.

Dentro havia moedas douradas.

Não eram moedas comuns.

Eram antigas, pesadas, algumas com símbolos que ela nunca tinha visto antes.

Ela abriu outra bolsa.

Mais moedas.

Depois outra.

Mais moedas.

Isabela sentou-se lentamente na cadeira de madeira que estava encostada na parede.

Ela levou uma mão ao peito.

"Meu Deus... o que é isso?"

Durante toda a vida, ela tinha contado cada moeda que possuía.

Sabia exatamente quanto dinheiro havia guardado.

Sabia quanto custava cada alimento.

Sabia quanto precisava trabalhar para comprar uma simples peça de roupa.

Mas aquilo...

Aquilo parecia pertencer a outro mundo.

Um mundo onde pessoas escondiam riquezas dentro de casas antigas.

Um mundo muito distante da mulher que havia sido abandonada grávida poucos dias antes.

Isabela olhou para a barriga.

O bebê se mexeu.

Ela colocou a mão sobre ele.

"Filho... parece que essa terra estava esperando por nós."

Mas ainda havia mais dentro do baú.

No fundo, encontrou três cadernos antigos.

As capas estavam gastas pelo tempo.

Na primeira página havia um nome escrito com uma letra firme.

Antônio Joaquim Ribeiro.

Isabela repetiu o nome em voz baixa.

"Antônio Ribeiro..."

Ela não sabia quem era aquele homem.

Mas naquele momento sentiu que precisava descobrir.

Abriu o primeiro caderno.

As páginas estavam cheias de anotações.

Datas.

Desenhos da propriedade.

Informações sobre plantação.

Registros de colheitas.

Tudo escrito com uma organização impressionante.

Antônio não tinha apenas vivido naquela fazenda.

Ele conhecia cada pedaço daquela terra.

Cada árvore.

Cada nascente.

Cada canto escondido.

Em uma das páginas, havia uma frase que chamou sua atenção.

"Uma terra nunca morre quando existe alguém disposto a cuidar dela."

Isabela passou os dedos sobre a frase.

Aquelas palavras pareciam conversar diretamente com ela.

Ela continuou lendo.

Antônio contava que havia comprado a Fazenda Santa Helena quando era jovem.

Que havia transformado aquela terra seca em uma das propriedades mais produtivas da região.

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Falava sobre plantações de café.

Gado.

Produção agrícola.

Mas havia algo que não fazia sentido.

Se aquela fazenda tinha sido tão importante...

Por que estava abandonada?

Por que ninguém cuidava dela?

Por que todos diziam que era apenas uma propriedade velha e sem valor?

Isabela virou mais algumas páginas.

Então encontrou uma anotação diferente.

Mais recente.

A letra parecia mais cansada.

Como se Antônio tivesse escrito nos últimos anos de vida.

"Algumas pessoas acreditam que podem herdar uma terra apenas porque carregam o mesmo sangue. Mas uma terra não pertence a quem recebe um papel. Pertence a quem tem coragem de protegê-la."

Isabela sentiu um arrepio.

Ela não sabia por quê.

Mas aquela frase parecia um aviso.

Na manhã seguinte, Isabela acordou cedo.

Ela quase não havia dormido.

Passou a noite lendo os cadernos de Antônio.

Quanto mais descobria, mais perguntas apareciam.

Ela precisava entender quem era aquele homem.

E por que ele havia escondido aquelas coisas.

Naquele mesmo dia, enquanto estava limpando o quintal, ouviu uma voz do outro lado do portão.

"Olá? Tem alguém aí?"

Isabela se virou.

Uma senhora idosa estava parada diante da entrada da fazenda.

Ela tinha cabelos brancos presos em um coque, vestido simples e um olhar forte.

Não parecia uma pessoa perdida.

Parecia alguém que conhecia aquele lugar.

Isabela caminhou até o portão.

"Posso ajudar?"

A mulher observou a casa durante alguns segundos antes de responder.

"Meu nome é Helena Ferreira. Moro aqui perto, no Sítio Boa Esperança."

Isabela abriu o portão.

"Dona Helena, prazer."

A senhora entrou devagar.

Mas seus olhos não estavam olhando para Isabela.

Estavam olhando para a casa.

Para o quintal.

Para as paredes.

Como se estivesse vendo alguém que não estava mais ali.

"Faz muitos anos que eu não entro nessa fazenda."

Isabela percebeu a emoção na voz dela.

"A senhora conheceu o antigo dono?"

Dona Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois respondeu:

"Conheci Antônio Joaquim Ribeiro."

O coração de Isabela acelerou.

"Ele era uma pessoa importante?"

Dona Helena olhou diretamente para ela.

"Você realmente não sabe quem era o homem que morava aqui?"

Isabela balançou a cabeça.

"Eu comprei a fazenda porque precisava de um lugar para morar. Disseram apenas que estava abandonada."

Dona Helena soltou um pequeno suspiro.

"Abandonada..."

Ela repetiu aquela palavra como se fosse difícil aceitar.

"Essa palavra não combina com essa terra."

Isabela ficou confusa.

"Como assim?"

A senhora caminhou até uma árvore antiga no quintal.

Passou a mão no tronco.

"Antônio cuidou dessa fazenda durante quase quarenta anos. Ele construiu tudo isso com as próprias mãos."

Isabela olhou para a casa.

"Mas disseram que ele morreu sozinho e que ninguém queria essa propriedade."

Dona Helena virou o rosto.

"Porque muitas pessoas preferiram esquecer o que essa fazenda realmente era."

O vento passou pelo quintal.

Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

Então Dona Helena perguntou:

"Você encontrou alguma coisa dentro da casa?"

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Isabela ficou imóvel.

A pergunta parecia simples.

Mas havia algo no olhar daquela mulher.

Como se ela já soubesse a resposta.

Isabela hesitou.

Ela ainda não confiava o suficiente para contar sobre as moedas.

Nem sobre os cadernos.

"Encontrei algumas coisas antigas."

Dona Helena observou seu rosto.

Depois apenas respondeu:

"Eu imaginei."

Isabela franziu a testa.

"Como a senhora sabia?"

A senhora sorriu levemente.

"Porque Antônio sempre dizia que um dia alguém encontraria aquilo."

O coração de Isabela bateu mais forte.

"O quê?"

Dona Helena aproximou-se dela.

"Você não sabe o que comprou, Isabela."

Aquelas palavras ficaram no ar.

Isabela sentiu um frio percorrer o corpo.

"Do que a senhora está falando?"

Dona Helena olhou para a fazenda inteira.

"A Fazenda Santa Helena não era uma simples fazenda."

Ela fez uma pausa.

"Essa terra já foi o começo de um dos maiores negócios agrícolas do interior de São Paulo."

Isabela ficou sem palavras.

"Mas por que ninguém me contou isso?"

Dona Helena respondeu com tristeza:

"Porque algumas pessoas ganham muito quando uma história permanece enterrada."

Naquele momento, Isabela percebeu que a compra daquela fazenda talvez não tivesse sido uma coincidência.

Talvez ela tivesse comprado muito mais do que uma casa velha.

Talvez tivesse comprado uma guerra.

Enquanto isso, em outro lugar de Campinas, Rafael Henrique Almeida segurava um documento sobre uma mesa de escritório.

Ele havia recebido uma ligação naquela manhã.

Uma ligação que mudou completamente sua expressão.

"Você tem certeza disso?"

Do outro lado da linha, um homem respondeu.

"Tenho. A Fazenda Santa Helena foi vendida."

Rafael ficou em silêncio.

"O quê?"

"O comprador é uma mulher. O nome dela é Isabela Maria Vasconcelos."

O rosto de Rafael mudou.

Pela primeira vez desde que abandonou a esposa, ele parecia preocupado.

"Você sabe o valor real daquela propriedade?"

O homem respondeu:

"Agora eu sei. E pelo jeito, ela ainda não descobriu."

Rafael olhou para a janela.

Durante semanas, ele acreditou que Isabela estava perdida.

Que sem ele ela não conseguiria sobreviver.

Mas aquela notícia mudava tudo.

A Fazenda Santa Helena não era uma ruína.

Era uma chave.

Uma chave para algo que muitas pessoas procuravam há anos.

Ele fechou os olhos.

Então pegou o telefone.

O número de Isabela ainda estava salvo.

Ele hesitou.

Depois sorriu.

"Talvez seja hora de voltar."

Naquela mesma noite, na Fazenda Santa Helena, Dona Helena segurava uma das antigas fotografias encontradas nos arquivos de Antônio.

Ela olhava para Isabela com uma expressão séria.

"Existe uma coisa que você precisa saber."

Isabela sentiu o coração apertar.

"O quê?"

Dona Helena respirou fundo.

E respondeu:

"Seu marido não foi embora porque não tinha dinheiro."

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