“E onde está a ficha de registro?”
Marta hesitou.
Sofia continuou perguntando:
“Quando estranhos se mudam, a administração não retém a cópia do documento de identidade do proprietário, a procuração e o registro de confirmação de contato? Não verificaram o comprovante de propriedade do imóvel?”
Marta apertou os dedos sobre o livro de atas.
“Sobre isso... a situação era especial na época.”
Sofia deu um pequeno sorriso.
“Especial a ponto de dispensar a verificação do próprio proprietário?”
Marta ficou visivelmente desconcertada.
Beto franziu a testa.
“Quem é você? Tem lugar de fala aqui?”
Eu disse:
“Minha amiga, e também alguém que entende de leis.”
A sala ficou em silêncio por um breve momento.
Capítulo 9
Dalva deu um bufo.
“E daí que entende de leis? Entender de leis não permite transformar o preto em branco.”
Luma pegou o celular para gravar.
“Pai, não tenha medo. Ela só está tentando nos intimidar.”
Olhei para o celular dela.
“O que você está gravando?”
Luma levantou o queixo.
“Registrando como você nos trata mal.”
Concordei com a cabeça.
“Registre bem claro.”
Luma ficou estática.
Ela não esperava que eu não a impedisse.
Quem mais precisa criar uma narrativa é quem mais tem medo de que você não tenha medo.
Arthur baixou a voz.
“Elara, chega. O Sr. Beto não é alguém que você possa ofender. Ele conhece muita gente, se você causar esse escândalo, minha situação no trabalho ficará difícil.”
Foi a primeira vez que entendi.
Ele não temia que o casamento fosse arruinado.
Ele temia que seu próprio caminho fosse afetado.
Perguntei a ele:
“Então você entregou minha casa em troca de favores pessoais?”
O rosto de Arthur ficou pálido.
“Não fale de um jeito tão sujo.”
“O que é sujo é o ato, não as palavras.”
O Sr. Geraldo não aguentou ficar sentado.
“Elara, talvez seja melhor verificar a compensação financeira. Sr. Arthur, o senhor disse que o dinheiro foi recebido, tem recibo?”
Arthur abriu a boca, mas não respondeu.
Beto apressou-se a dizer:
“Entre conhecidos, por que tanta burocracia? O que vale é a confiança.”
Olhei para ele.
“Você me considera uma conhecida?”
Beto riu com desdém.
“Agora está fingindo que não nos conhecemos? Na hora de assinar o contrato não era assim.”
Ele estendeu o contrato de empréstimo sobre o centro da mesa.
“Todos vejam, preto no branco. Se ela chamar a polícia, eu a processarei por denúncia caluniosa. Ela diz que a caixa de joias sumiu, mas quem viu isso?”
Dalva endireitou a postura.
“Quando chegamos aqui, o quarto dela já estava uma bagunça.”
Luma completou:
“É verdade, nós nem tocamos em nada.”
O filho de Beto, Hugo, estava sentado no canto.
Com vinte e poucos anos, usando um boné e jogando no celular.
Ao ouvir isso, ele ergueu a cabeça, olhou para mim e abaixou-a rapidamente.
O gesto foi sutil.
Mas eu vi.
Ele não era ignorante sobre o assunto.
Ele apenas achava que, se ficasse em silêncio, sairia ileso.
Beto jogou a caneta sobre a mesa.
“Assine. Depois de assinar, cumpriremos os três meses e iremos embora. Se você não assinar, seguiremos o processo legal. Quando isso acontecer, você perderá o casamento e não terá paz na casa.”
Dalva riu com maldade.
“Uma mulher solteira, não vá se comportar de um jeito que ninguém mais te queira.”
Arthur não tentou impedi-los.
Ele chegou a sussurrar:
“Elara, assine logo.”
Olhei para ele.
O homem com quem namorei por três anos.
Que um dia me levava mingau à beira do leito da minha mãe.
Que um dia prometeu me proteger das tempestades.
Agora, ele estava no meio de um grupo de pessoas que ocupava minha casa, convencendo-me a aceitar as mentiras deles.
Algumas traições não acontecem de repente.
Elas já estavam escondidas em cada "não se preocupe com isso" que ele me dizia.
Sofia tocou levemente em meu braço.
Ela estava me alertando.
A hora havia chegado.
Baixei a cabeça e apertei o botão de chamada de emergência.
A ligação foi atendida.
Minha voz estava firme.
“Olá, gostaria de fazer uma denúncia.”
Todos os sons na sala cessaram.
Beto levantou-se num salto.
Arthur estendeu a mão para me impedir.
Recuei meio passo, evitando seu contato.
“Estava em treinamento fora por um mês e, ao chegar em casa, encontrei a família do meu vizinho, Beto, morando em minha residência sem minha permissão.”
Dalva interrompeu com um grito estridente:
“Quem não deu permissão? Nós temos um contrato!”
Olhei para ela e continuei, dirigindo-me ao atendente:
“A caixa de joias e os documentos da propriedade que estavam na gaveta do meu quarto sumiram.”
O celular de Luma ainda estava levantado.
A câmera apontada para mim.
Pronunciei cada palavra claramente:
“Entraram ladrões na minha casa.”
Capítulo 10
O rosto de Beto fechou-se.
“Elara, pense bem!”
Não olhei para ele.
“Por favor, venham atender a ocorrência.”
Após desligar o telefone, a sala pareceu ter sido esvaziada de qualquer som.
Poucos segundos depois, Beto riu.
Não era um riso de nervosismo, mas de desdém após atingir o limite da raiva.
“Tudo bem, chame a polícia. Quando eles chegarem, veremos quem está difamando quem.”
Marta apressou-se a tentar apaziguar.
“Srta. Elara, você está sendo muito impulsiva. Antes de apurarem os fatos, chamar a polícia afetará a harmonia entre vizinhos.”
Sofia abriu a pasta de documentos.
“Então vamos apurar os fatos.”
Arthur encarou aquela pasta, e seu olhar começou a se perder.
Peguei uma pilha de documentos das mãos de Sofia.
Não os espalhei imediatamente.
Beto continuava rindo.
Dalva estava de braços cruzados, como se esperasse me ver passar vergonha.
A lente do celular de Luma oscilou.
Coloquei os materiais sobre a mesa de centro.
Meus dedos pressionaram o recibo de cartório que estava no topo.
“Vocês não queriam provas?”
Empurrei o primeiro material para o centro da mesa.
O recibo de registro do cartório, com data, hora e número do documento, tudo perfeitamente claro.
O segundo material eram os prints do vídeo que gravei antes de partir.
A caixa de joias na gaveta, a cópia da escritura do imóvel e a fechadura da porta do quarto, tudo na mesma imagem.
O terceiro era o registro de abertura da fechadura do quarto.
No sétimo dia após minha partida, à uma e oito da manhã, a chave reserva foi utilizada.
O quarto eram as imagens gravadas pela câmera da sala.
Na mesma noite, à uma e vinte e um, Arthur entrou pela porta.
Logo atrás, Beto.
A sala ficou completamente silenciosa.
O sorriso nos lábios de Beto permaneceu estampado no rosto.
As mãos de Dalva desceram de seus braços.
Arthur encarou a expressão "chave reserva" e não disse nada.
Luma, segurando o celular, abaixou o pulso.
Beto foi o primeiro a reagir.
Ele estendeu a mão para pegar aquele registro.
Sofia pressionou o documento primeiro.
“Pode olhar, mas não pode levar.”
Beto riu com desdém.
“Acha que vou me assustar com uns pedaços de papel? Quem garante que não foram vocês que fizeram isso?”
Não discuti com ele.
Abri meu celular e projetei as imagens da câmera da sala na televisão.
A tela da TV brilhou.
O horário era exibido claramente.
Uma e vinte e um da manhã.
Arthur entrou primeiro.
Atrás dele, Beto.
Beto carregava uma maleta de ferramentas preta.
Dalva estava na entrada, carregando vários sacos vazios nos braços.
Luma espiou ao redor e disse, sorrindo:
“Esta casa é enorme, com certeza ficará linda nas fotos depois.”
No vídeo, Arthur abaixou o tom de voz.
“A chave do quarto está atrás do porta-canetas no escritório. Sejam rápidos, não toquem nos porta-retratos.”
Dalva perguntou: “A câmera não tinha sido desligada?”
Arthur respondeu: “Não mexa na da sala ainda, o ângulo não cobre o quarto. Quando eles trouxerem as coisas para mudar, aí sim, desconecte.”
Dez minutos depois, Beto saiu carregando uma caixa de joias de madeira.
Na tampa da caixa havia uma pequena inscrição feita por minha mãe.
Paz para Elara.
Dalva disse em voz baixa: “Essa caixa parece velha, tem algo dentro?”
Beto respondeu: “Guarde primeiro. Se ela causar confusão, diremos que ela nos deve as despesas da reforma.”
Quando a cena chegou a esse ponto, o desdém no rosto de Beto finalmente se despedaçou.
Dalva levantou-se num salto.
“Você nos gravou escondido!”
Sofia rebateu prontamente:
“A câmera está instalada na sala da residência particular de Elara e o equipamento já existia. Vocês entraram sem permissão na casa alheia e não podem, agora, acusar a proprietária de registrar cenas domésticas.”
O celular nas mãos de Luma pendia para baixo.
Ela ainda estava gravando.
Agora, a lente apenas focava no chão.
Hugo tirou o boné, com a testa suada.
Arthur recuou meio passo.
“Elara, deixe-me explicar.”
Não olhei para ele.
“Explique para a polícia.”
A campainha tocou.
Capítulo 11
Marta levantou-se como se tivesse sido picada por uma agulha.
“Eu vou abrir.”
Dois policiais entraram.
Entreguei a escritura do imóvel, o documento de identidade, o registro da ocorrência e as provas, um por um.
Tentei falar o mais claramente possível.
Não chorei.
Não discuti.
Adultos resolvem problemas sem precisar aumentar o tom de voz.