“O que eles acham não muda os fatos.”
Arthur me encarou.
“O fato é que o Beto tem um contrato. A administração pode testemunhar. E eu também posso testemunhar que você concordou.”
Olhei para ele.
“Você também vai dar um falso testemunho?”
Ele puxou a gola da camisa.
“Não fale de um jeito tão feio.”
Contornei-o e segui em frente.
Ele agarrou a alça da minha mala.
Não puxou, apenas bloqueou o caminho.
“Assine, e ainda poderemos nos casar em paz.”
Parei.
“Arthur, o caminho que você está bloqueando hoje não é o meu.”
Olhei nos olhos dele.
“É o seu próprio caminho de volta.”
Ele soltou a mala.
Entrei no táxi.
Quando a porta fechou, ele estava parado na beira da estrada, com o celular encostado na orelha.
Seus lábios moviam-se rapidamente.
Como se estivesse avisando alguém.
Capítulo 7
Na tarde de sexta-feira, voltei ao distrito.
Sofia me esperava na rodoviária.
Ela vestia um casaco preto e segurava uma pasta de documentos.
“Exigi que a administração preservasse as gravações das câmeras públicas da sua porta através de uma notificação do advogado. Eles não gostaram, mas suas próprias câmeras e os registros da fechadura são suficientes.”
Entrei no carro.
“E a gaveta?”
“Há registros de abertura na porta do seu quarto. O fabricante pode emitir um laudo. Passe-me sua conta.”
Entreguei-lhe o celular.
Sofia verificou os registros e seu rosto escureceu.
“Olhe aqui. No sétimo dia após sua partida, à uma e oito da manhã, a porta do quarto foi aberta com uma chave reserva. Dez minutos depois, a câmera da sala teve a energia cortada.”
Fechei os olhos.
Havia apenas uma chave reserva.
Guardada em uma caixinha atrás do porta-canetas no escritório.
A única pessoa que sabia era Arthur.
No aniversário de morte da minha mãe, no ano passado, eu estava embriagada e, quando ele veio me trazer remédios, contei a ele uma vez.
Na época, ele até riu:
“Você esconde coisas como uma criança do primário.”
Sofia continuou:
“Calma. Quanto mais nojento for agora, mais completas serão as provas depois.”
Quando o carro entrou no condomínio, o segurança da portaria me olhou várias vezes.
Marta logo saiu da recepção da administração.
“Srta. Elara, você voltou?”
Seu sorriso era tenso.
Não perdi tempo com formalidades.
“Vou para a minha própria casa.”
Marta bloqueou o caminho para o elevador.
“A família do Sr. Beto está lá dentro. Antes de resolverem essa disputa de empréstimo, sugiro que não entrem em confronto direto.”
Mostrei o documento de propriedade.
“Eu sou a proprietária.”
Marta olhou, mas não saiu do caminho.
“A administração também tem medo de que algo aconteça.”
Sofia se aproximou e entregou a notificação extrajudicial e a documentação de autorização.
“Por favor, colaborem com a proprietária para que entre em seu próprio imóvel. Caso contrário, o ato de impedir uma moradora de voltar para casa também será registrado.”
O sorriso de Marta desapareceu.
Ela virou-se para o segurança.
O segurança baixou a cabeça e não se moveu.
As portas do elevador se abriram.
Luma saiu de lá.
Ela usava meus chinelos bege.
Aqueles que minha mãe tinha comprado para mim.
Havia uma pequena gardênia bordada no tecido.
Ao me ver, ela hesitou por um momento, mas logo levantou o queixo.
“Você é a tal Elara?”
Olhei para os chinelos em seus pés.
“Tire-os.”
Luma olhou para baixo e riu.
“É só um par de chinelos, não seja tão mesquinha.”
Não aumentei o tom de voz.
“Pegar as coisas dos outros sem permissão chama-se apropriação. E usá-los não os torna seus.”
Alguns moradores no saguão olharam para nós.
Luma ficou sem jeito, mas não deu o braço a torcer.
“Meu pai disse que temos um contrato. Se você está voltando agora para expulsar pessoas, isso é quebra de contrato.”
Entrei no elevador. Marta tentou bloquear novamente.
“Srta. Elara, o Sr. Beto disse que todos conversarão às sete da noite. Representantes dos moradores também virão, é melhor não subir agora.”
Olhei para o celular.
Seis e vinte.
Eles já tinham montado o palco.
Humilhação pública.
Para me forçar a assinar.
Para transformar um contrato falso em um fato real.
Guardei os documentos.
“Tudo bem.”
Marta soltou um suspiro de alívio.
“Então espere na sala de reuniões da administração?”
“Não.”
Olhei para os números do elevador.
“Vou esperar na porta da minha casa.”
Às sete em ponto, a porta da minha casa se abriu.
Um cheiro de carne com pimenta saiu lá de dentro.
Dalva colocou a cabeça para fora, vestindo meu casaco de pijama.
Ao me ver, sua primeira frase foi:
“Ora, a senhoria voltou? Pontual para entrar na própria casa, hein?”
Alguns vizinhos por perto riram.
Beto estava sentado na poltrona principal da minha sala.
Na mesa de centro, havia uma pilha de documentos.
Arthur estava parado perto da janela.
Marta colocou o livro de atas sobre a mesa.
O representante dos moradores, Sr. Geraldo, também estava lá.
Ele é o vizinho do andar de cima, geralmente calado, mas hoje estava claramente ali para ser testemunha.
Fiquei parada na porta.
Vendo minha casa familiar ser ocupada por eles.
O porta-retrato da minha mãe tinha sido jogado num canto do móvel da TV.
A porta do meu escritório estava entreaberta.
As gavetas do quarto tinham sido reviradas.
Beto apontou para o sofá.
“Sente-se, Srta. Elara. Vamos esclarecer as coisas hoje.”
Capítulo 8
Não me sentei.
“Primeiro, devolvam-me a caixa de joias da minha mãe.”
Dalva revirou os olhos.
“Assim que chega, já sai procurando coisas, como se alguém tivesse te roubado.”
Beto empurrou o contrato para a borda da mesa de centro.
“Assine um termo aditivo e todos sairão ganhando. Reconheça a relação de empréstimo e nós ficaremos os três meses completos. Os custos da reforma compensam o valor da estadia, e quanto ao que faremos com a casa nupcial, eu me entendo com Arthur.”
Olhei para Arthur.
Ele evitou meu olhar.
Ao notar isso, o sorriso de Beto tornou-se ainda mais profundo.
“Veja só, seu noivo não tem objeção alguma.”
O Sr. Geraldo franziu a testa e tentou me aconselhar.
“Elara, se o contrato realmente existe, é melhor seguir o que está nele. Entre vizinhos, não é bom chegar ao ponto de chamar a polícia.”
Olhei para todas as pessoas naquela sala.
Elas achavam que, por serem a maioria, poderiam transformar mentiras em verdades.
Mas uma casa não é um palco de teatro.
E ter gente numerosa não significa ter razão.
Entrei no quarto.
A gaveta estava vazia.
A caixa de joias havia sumido.
A cópia da escritura do imóvel havia desaparecido.
Voltei para a sala.
Dalva estava de braços cruzados.
“Já terminou de olhar? Nem pense em dizer que pegamos suas coisas. Quem ia querer aquele monte de tralha?”
Luma, sentada à mesa de jantar, riu baixinho.
“Algumas pessoas só querem dar calote.”
Marta apressou-se a dizer:
“Srta. Elara, não use palavras tão duras. A família do Sr. Beto instalou-se conforme o contrato.”
Arthur finalmente abriu a boca.
“Elara, não chame a polícia. Se você fizer isso agora, arruinará o casamento de nossas duas famílias.”
Olhei para ele.
“Quem arruinou o casamento, você sabe muito bem.”
Beto deu um tapinha no contrato.
“Ou você assina o termo aditivo hoje, ou me indeniza pelos prejuízos. Além disso, você diz que as coisas sumiram, onde estão as provas?”
Dalva juntou-se a ele, pressionando-me.
“Se não consegue provar, não difame as pessoas. Nossa família é limpa e honesta.”
A sala ficou tão silenciosa que só se sentia o cheiro da comida sendo refogada.
Todos olhavam para mim.
Baixei a cabeça e abri a tela de discagem do celular.
Meu dedo pairou sobre o botão de emergência.
Antes que eu pressionasse, Arthur aproximou-se e bloqueou a tela do meu celular.
“Elara, dou-lhe uma última chance.”
Sua voz não era alta.
Mas era o suficiente para que todos na sala ouvissem.
“Guarde o celular, assine o papel, e trataremos o ocorrido hoje como um mal-entendido.”
Ergui os olhos.
“Um mal-entendido?”
Ele puxou a gola da camisa.
“Você não estava em casa, e a família do Sr. Beto ajudou a cuidar do imóvel. Agora você chega e logo chama as pessoas de ladras, acha isso adequado?”
Dalva respondeu imediatamente.
“Exatamente. Ventilamos sua casa, limpamos tudo e até cuidamos das suas plantas. Você nem agradece e ainda quer chamar a polícia.”
Olhei para a varanda.
As folhas daquela roseira estavam espalhadas pelo chão, e havia água estagnada sob o vaso.
A limpeza que ela mencionava era, na verdade, amontoar minhas coisas dentro do depósito.
A ajuda que ela citava era usar o pijama que minha mãe me comprou enquanto cozinhava na minha cozinha.
Beto pegou o contrato sobre a mesa de centro.
“Srta. Elara, adultos usam provas. O contrato tem sua assinatura e a compensação tem uma testemunha.”
Perguntei:
“Quem é a testemunha?”
Marta pigarreou.
“Na época, o Sr. Arthur comentou sobre isso na administração.”
“Você viu com seus próprios olhos eu assinando?”
Marta desviou o olhar.
“A administração não é cartório, apenas cuidamos do registro.”
Sofia, parada atrás de mim, respondeu com firmeza: