Abri.
Havia três pessoas na porta.
Beto, Dalva e a gerente Marta.
Marta segurava o celular, olhando para baixo, sem saber o que fazer.
Dalva batia na porta enquanto dizia a Beto:
— Arthur não disse que a senha não tinha mudado?
Beto falava com a voz abafada.
— Tente mais uma vez.
A imagem mostrava apenas a área da entrada.
O som não era alto.
Mas dava para ouvir perfeitamente.
Não liguei imediatamente.
Salvei aquele vídeo.
E anotei o horário.
Só depois de salvar tudo, liguei para Arthur.
Capítulo 3
Ele atendeu devagar.
Ao fundo, ouvia-se o som de talheres em uma mesa de jantar.
— O que foi?
Perguntei:
— Você contou a senha da minha casa para o Beto?
Ele hesitou.
— Não.
— Às dez e doze da noite, eles estavam na minha porta tentando a senha.
Ele respondeu prontamente:
— Deve ser o reparo da administração.
— E precisa da Dalva junto para um reparo?
O tom de Arthur ficou mais duro.
— Não fique achando que todo mundo é mau. O Beto está com as paredes em reforma, os idosos realmente não têm onde morar, eles só estavam perguntando.
Eu estava sentada à mesa do alojamento.
Com os materiais de treinamento espalhados.
De repente, senti um cansaço profundo.
— Arthur, vou repetir: minha casa não é para empréstimos.
Do outro lado da linha, ouvi o som de um copo sendo colocado sobre a mesa.
— Elara, não seja tão inflexível. Quando você se casar e vier morar aqui, também precisará lidar com os vizinhos.
Segurei firme o celular.
— Eu vou casar com você, não com o prédio inteiro.
Ele soltou um riso.
— Você está ficando cada vez mais difícil de lidar.
A chamada foi encerrada.
Olhei para a tela preta e, paradoxalmente, senti-me lúcida.
No dia seguinte, ao meio-dia, tirei um tempo para ligar para o suporte da fechadura.
Exigi o histórico completo do último mês.
Após confirmar minha identidade, o atendente pediu que eu preenchesse uma solicitação.
Em seguida, contatei o suporte da câmera para configurar o salvamento permanente das imagens da casa.
Quando Sofia ouviu tudo, explodiu:
— Não deixe apenas no celular, leve a cartório. Registros da fechadura, vídeos, gravações de chamadas, guarde tudo.
Perguntei:
— Se eles realmente invadirem e morarem lá, o que isso configura?
Sofia trabalha como escrivã no tribunal distrital e vê todo tipo de desastre diariamente.
Ela não tentou me assustar.
— Primeiro, veremos como eles entraram. Invadir a casa dos outros sem permissão, ocupar os bens alheios, falsificar assinaturas... cada uma dessas coisas é suficiente para causar muitos problemas para eles. Não discuta com eles em particular, a primeira coisa a fazer ao voltar é chamar a polícia.
Eu disse:
— E se eles apresentarem um suposto contrato?
Sofia silenciou por dois segundos.
— Melhor ainda. A assinatura no contrato, a data da assinatura, quem intermediou... tudo isso são pontas soltas para eles.
Antes de desligar, ela acrescentou:
— Elara, não tenha medo de que digam que você está exagerando. Muitas grandes perdas começam por termos vergonha de nos impor.
Naquela noite, alguém postou fotos no grupo do condomínio.
Na foto, havia uma mesa de jantar redonda.
Em cima da mesa, um hot pot, e na janela, cortinas bege.
A legenda foi postada por Luma, filha de Beto.
— Primeira refeição no nosso novo ninho, papai e mamãe, parabéns pelo esforço.
Ampliei a foto.
Aquela mesa redonda era a minha.
As cortinas eram as que minha mãe escolheu antes de falecer.
Até o vaso de rosas no canto da varanda foi trazido por mim da casa antiga da minha família.
Luma ainda respondia aos comentários de outras pessoas.
— Não é alugado, é uma casa vazia de parentes, vamos morar aqui por enquanto.
Alguém elogiou logo abaixo.
— A planta dessa casa é ótima, ventilação cruzada.
Luma respondeu com um emoji sorridente.
— Venham tomar um chá aqui depois.
Tirei prints.
Salvei um por um.
Marta logo respondeu no grupo.
— Como a casa do Beto está em reforma, eles estão morando temporariamente na casa de vizinhos, todos devem ser compreensivos.
Alguém perguntou:
— A proprietária concordou?
Marta enviou um áudio.
— Claro que concordou, o próprio noivo dela veio pessoalmente à administração dizer isso.
O grupo ficou em silêncio por alguns segundos.
Alguém disse:
— Então está tudo bem.
Olhei para a frase "então está tudo bem".
Essa é a vantagem de ser o primeiro a contar a história.
Eles contam a história primeiro, e se você tentar explicar depois, soará como uma desculpa esfarrapada.
Não respondi no grupo.
Enviei uma mensagem formal para Marta.
— Sou Elara, a proprietária do imóvel. Nunca autorizei ninguém a morar na minha casa. Por favor, exijo que a administração impeça imediatamente a entrada de pessoas não autorizadas e que preservem todos os registros de entrada e das câmeras das áreas comuns.
Marta só respondeu dez minutos depois.
— Srta. Elara, a família do Sr. Beto disse que foi organizado pelo seu noivo. Por favor, resolvam a comunicação interna da família de vocês primeiro, não cabe à administração intervir.
Respondi:
— Meu noivo não é o proprietário.
Marta não respondeu mais.
Capítulo 4
Meia hora depois, Arthur ligou.
Assim que atendi, começou com uma acusação.
— O que você está fazendo para arrumar confusão com a administração?
Coloquei no viva-voz e acionei a gravação.
— Apenas notifiquei a administração de que, sem o meu consentimento, ninguém tem permissão para morar lá.
A voz de Arthur continha uma raiva contida.
— Eles já estão lá dentro. Se você expulsá-los agora, como eu vou ficar perante as pessoas?
Questionei:
— Como eles entraram?
Ele hesitou.
— A administração abriu a porta.
— E por que a administração abriria a minha porta?
— Eu disse a Marta que você tinha concordado.
O quarto ficou em silêncio, apenas com o barulho do ar-condicionado.
Ouvi minha própria voz, muito firme.
— Então você admite que foi você quem os deixou entrar na minha casa?
Arthur mudou de tom imediatamente.
— Não foi isso que eu quis dizer. Eu disse que, como somos todos conhecidos, eles ficariam apenas alguns dias.
— Alguns dias?
— No máximo um mês.
Dei uma risada seca.
— Um mês é chamado de "alguns dias"?
Ele perdeu a paciência.
— Elara, é só uma casa, não faça disso algo feio. O Beto tem muitos contatos no distrito, vamos precisar dele para resolver nossas coisas no futuro.
Olhei para o manual de treinamento sobre a mesa.
De repente, achei tudo irônico.
Durante o dia, aprendo como servir ao povo.
À noite, ouço meu noivo inventando desculpas para que outros arrombem a minha porta.
Eu disse:
— Arthur, vou voltar mais cedo.
Ele ficou tenso instantaneamente.
— Você não estava ocupada demais com o treinamento?
— Então foi por isso que vocês escolheram esse período para entrar?
O silêncio tomou conta da ligação.
Segundos depois, ele mudou o tom.
— Pode voltar se quiser, mas não chame a polícia. A família do Beto não é estranha, chamar a polícia estraga a convivência.
Desliguei o telefone.
Em seguida, salvei a gravação.
A primeira peça do jogo já estava plantada.
No décimo dia, Beto transformou minha sala em um modelo de decoração.
Postou fotos no grupo do condomínio.
A legenda dizia:
— Casa antiga, vida nova; a confiança entre vizinhos é o maior dos valores.
Abri as nove fotos.
A primeira era a minha sala.
A segunda, o meu quarto principal.
A terceira, a porta do meu escritório.
Ele não fotografou a gaveta do quarto.
Mas minha estante havia sido mudada de lugar.
Naquele momento, minhas mãos ficaram geladas.
Enviei para Sofia.
Ela respondeu apenas com quatro palavras:
— Continue reunindo provas.
Perguntei:
— Posso chamar a polícia agora?
Sofia respondeu:
— Pode. Mas como você está fora, é difícil controlar o local. Faça duas coisas primeiro. Primeiro, envie uma notificação extrajudicial. Segundo, remova remotamente as permissões da fechadura para que eles mesmos exponham a verdade sobre a ocupação.
Às oito da noite daquele dia, acessei o sistema da fechadura.
Limpei todas as senhas temporárias, biometrias e permissões de abertura remota.
Dez minutos depois, o grupo do condomínio explodiu.
Luma enviou uma mensagem:
— Quem mudou a senha da porta? Meus pais não estão conseguindo entrar em casa.
Alguém perguntou logo abaixo:
— A casa de vocês?
Luma apagou a mensagem rapidamente.
Eu já tinha feito o print.
Dalva enviou um áudio no grupo:
— Elara, qual é a sua? Nossas roupas ainda estão lá dentro, o que significa nos trancar do lado de fora?
Não respondi.
Marta me chamou no privado:
— Srta. Elara, isso é longe demais. Uma família de três pessoas parada na porta à noite, isso afeta a ordem do condomínio.
Respondi a ela:
— Ocupar um imóvel sem o consentimento da proprietária afeta a minha segurança residencial. Por favor, entre em contato com eles para que saiam e registre a situação no local.
Ela enviou um áudio longo.