Ele sabia, melhor do que ninguém, o quanto aquele objeto era importante para ela.
Mas agora, ele dizia tais palavras.
A dor no coração superou instantaneamente todas as injustiças e a raiva, tornando-a entorpecida.
Ela não disse mais nada, apenas cerrou os dedos sobre os cacos, deixando as bordas afiadas penetrarem em sua pele.
Lucas olhou para o olhar morto dela e seu peito teve um espasmo involuntário.
No final, ele desviou os olhos à força, empurrou-a e saiu com Beatriz.
Depois daquele dia, Clara não saiu mais de casa.
Até que recebeu um telefonema do pai de Clara, exigindo um encontro.
Ela foi à cafeteria e, como esperado, a primeira coisa que ele fez foi pedir dinheiro.
— Eu não tenho tanto dinheiro.
A voz de Clara estava fria.
O pai de Clara mudou de expressão instantaneamente: — Está mentindo para quem? Se não tem dinheiro, por que faz caridade? Mesmo que você não tenha, o Lucas deve ter, certo? Ele tem uma fortuna; o que sobra entre os dedos dele já seria suficiente para eu viver várias vidas.
— Se você me der o dinheiro, eu vou falar com os repórteres e limpar sua barra; caso contrário, toda aquela saliva venenosa lá fora acabará te afogando cedo ou tarde.
— Diga o que quiser, não me importo.
Ela levantou-se para sair, mas a expressão de seu pai tornou-se cruel.
— E você também não se importa com o Lucas?
Ele ameaçou com total impunidade: — Se você não me der o dinheiro, vou contar tudo o que o Lucas fez por mim naquela época. Digamos que um respeitável CEO de uma empresa de capital aberto tenha contratado alguém para matar... você acha que essa notícia seria bombástica o suficiente?
O coração de Clara contraiu-se bruscamente, sua respiração parou.
Ela baixou a voz e gritou: — Não diga bobagens!
Na época em que ela foi aprovada na universidade, o pai de Clara, para impedi-la de estudar, rasgou sua carta de aprovação e a trancou em casa.
Mais tarde, ele ainda a internou à força em um hospital psiquiátrico, alegando que ela estava mentalmente instável.
Foi Lucas quem a encontrou e lutou para resgatá-la.
Ele lhe disse que havia resolvido tudo e que o pai dela nunca mais a incomodaria.
Ela não sabia como ele tinha conseguido.
Mas, pelos dez anos seguintes, o pai de Clara realmente pareceu ter evaporado da face da terra.
Foi apenas nesta mesma época, na vida passada, que ele reapareceu, e ela descobriu a verdade.
Naquela época, Lucas, para acabar com o problema de uma vez por todas, revelou o paradeiro do pai de Clara para os agiotas que o perseguiam; o pai de Clara foi espancado até ficar gravemente ferido, e por isso se escondeu por muitos anos.
Uma vez exposto, isso inevitavelmente afetaria o Lucas.
Clara cerrou os punhos e respirou fundo.
— Cinquenta milhões não é uma quantia pequena; me dê uma semana, e eu te darei o dinheiro.
Ela acalmou o pai temporariamente.
Na vida passada, uma semana depois, o pai de Clara foi preso por causa de jogos de azar.
Naquela época, ela poderia resolver esse problema definitivamente.
Depois de sair da cafeteria, Clara tinha dado apenas alguns passos quando sentiu um golpe pesado na nuca.
Tudo ficou escuro e ela desmaiou.
Ao acordar novamente, ela estava acorrentada a uma cama fria, cercada por paredes pálidas e janelas com grades de ferro soldadas.
Ela conhecia muito bem aquele ambiente.
Era um hospital psiquiátrico.
O pânico invadiu todo o seu corpo; ela gritou com voz rouca: — Me tirem daqui!
Ninguém respondeu, e só muito tempo depois a porta se abriu e uma silhueta entrou.
Era Beatriz.
— Não perca seu tempo. Este é o hospital psiquiátrico com a vigilância mais rigorosa da cidade. Sem a autorização de um familiar, você não escapará nem com asas.
Beatriz sorriu, aproximou-se dela lentamente e a olhou de cima a baixo.
— Foi você quem me colocou aqui?!
Os olhos de Clara brilharam de raiva.
Beatriz riu e balançou a cabeça: — Eu não tenho tal capacidade. Foi ideia do Lucas. Não se esqueça de que vocês ainda não se divorciaram; ele ainda é seu familiar.
— Ele disse que, já que você não quer se divorciar, essa é a única solução. Se você for diagnosticada como mentalmente instável, não precisa do seu consentimento; ele pode encerrar o vínculo matrimonial de vocês.
— Impossível, você está mentindo! Eu não acredito, ele jamais faria isso!
— Não acredita, é? — Beatriz pegou o celular e reproduziu uma gravação.
A voz de Lucas vinha claramente dali.
— Se ela ainda se recusar a se divorciar, então use métodos forçados. Ela já esteve em um hospital psiquiátrico anteriormente; já foi comprovado que ela tem problemas mentais...
Clara não ouviu mais nada depois disso.
Sua mente ficou vazia, e um zumbido constante ecoava em seus ouvidos.
Além de seu pai, apenas Lucas sabia que ela tinha estado em um hospital psiquiátrico.
Depois que Beatriz saiu, Clara foi forçada a receber injeções e passar por tratamentos.
Cada dor intensa provocada pelos choques a fazia se sentir como se voltasse aos pesadelos daqueles anos.
Após três dias de tortura, ela encontrou uma chance de pular da janela do terceiro andar enquanto ia ao banheiro durante um exame.
Depois de escapar desesperadamente, ela desmaiou completamente.
Ao acordar novamente, já estava no hospital.
Lucas estava ao seu lado.
Ao vê-lo, todo o medo, injustiça e raiva que Clara acumulou explodiram instantaneamente.
Ela forçou seu corpo a se sustentar e fixou o olhar nele: — Foi você... me enviar para o hospital psiquiátrico foi ideia sua?
Lucas ficou paralisado de repente, um lampejo de choque passou por seus olhos, mas ele logo o disfarçou.
Ele evitou o olhar dela e admitiu com voz fria e rígida: — Fui eu.
As pupilas de Clara se dilataram bruscamente.
Um desespero infinito a dominou instantaneamente; ela olhou para Lucas como se visse um completo estranho.
Ele, que outrora a resgatara do abismo repetidas vezes, agora se tornara o seu próprio abismo.
Que irônico.
— Muito bem, muito bom mesmo... — ela deu uma risada baixa, enquanto lágrimas escorriam incessantemente de seus olhos. — Lucas, você não precisa se preocupar. Daqui a alguns dias, eu finalmente vou embora da sua vida...
Capítulo 7
Essa fala não terminou, sendo interrompida por um toque de celular urgente.
Lucas franziu a testa ligeiramente; ele não conseguiu ouvir o que Clara disse por último.
Ele estava prestes a insistir na pergunta quando Clara apontou diretamente para a porta, ordenando que ele fosse embora.
No final, Lucas não disse mais nada e saiu do quarto.
Após receber alta, Clara comprou uma passagem para a Cidade Portuária.
Para sua surpresa, Lucas descobriu.
Ele apertou o bilhete e a questionou: "Dia dezessete de janeiro, para onde você vai?"
"Não é da sua conta."
Clara tentou retomar o bilhete, com um tom calmo e distante.
Lucas rasgou a passagem em pedaços e afirmou: "Você não vai a lugar nenhum nesse dia!"
Ele estava emocionalmente alterado, e Clara, percebendo algo estranho, fixou o olhar nele.
"Você não vive querendo que eu vá embora? Estou fazendo o que você deseja, por que ainda está me impedindo?"
"Você pode ir embora em qualquer outro dia, menos nesse."
"Por que nesse dia não?"
Clara deu um passo à frente, e aquele pensamento absurdo voltou à sua mente.
Na vida passada, foi exatamente nesse dia que eles sofreram o naufrágio na Cidade Portuária.
Será que Lucas também se lembrava da vida anterior?
"Lucas, o que você quer dizer com isso?"
O coração de Lucas saltou; ele percebeu que tinha falado demais.
Ele forçou suas emoções a se acalmarem e desviou o olhar: "Aquele dia é aniversário de Beatriz; ela fez questão da sua presença. Da última vez você a agrediu e ela não levou em conta, agora você deve realizar um desejo dela."
O motivo era forçado, e Clara ficou dividida entre a dúvida e a suspeita.
No entanto, como não encontrou uma explicação mais lógica, acabou desistindo.
Até chegar o dia dezessete de janeiro.
Clara aceitou o destino com serenidade; vestiu um vestido branco simples e preparou-se para sair.
Mas foi bloqueada na porta do quarto pelos guarda-costas enviados por Lucas.
"Senhora, o senhor ordenou que a senhora não pode sair."
O coração de Clara afundou drasticamente.
Hoje era o prazo final estabelecido em seu acordo com a Deusa do Destino; ela precisava ir até o local do acidente da vida passada e seguir o mesmo caminho, cumprindo o destino final.
Se ela não morresse hoje, nem ela nem Lucas sobreviveriam.
Ela não podia falhar na última etapa.
Clara fingiu subir as escadas e, aproveitando um descuido dos guardas, saltou pela janela do segundo andar.
Pegou um carro para a Cidade Portuária.
Ao chegar à praia onde ocorrera o acidente na vida passada — local onde Lucas fora engolido pelo mar ao tentar salvá-la —, Clara fechou os olhos, com as memórias de suas duas vidas sobrepostas.