Essas palavras, como uma lâmina afiada, cortaram profundamente o coração de Clara.
Instantaneamente, seus olhos ficaram vermelhos.
Outrora, seu pai também a expulsara de casa como se ela fosse lixo.
Desde que sua mãe partiu, ela nunca mais teve um lar.
E Lucas sabia muito bem o quanto ela ansiava e se apegava à ideia de ter uma família.
Anos atrás, quando ele comprou aquela mansão e a pediu em casamento, segurou suas mãos com força e prometeu, cheio de afeto: "Clara, de hoje em diante, aqui é o nosso lar. Eu lhe darei um lar sempre caloroso, um lar que nunca a abandonará."
Mas hoje, ele queria retirar tudo aquilo.
Sendo até mais cruel do que o próprio pai dela fora no passado.
Em um transe, os empregados já haviam empurrado as malas e caixas para fora da porta.
— Parem! — Ela avançou bruscamente para detê-los, voltando-se para Lucas. — Lucas, esta também é a minha casa! Não se esqueça de que o nome no documento de propriedade também é o meu, por que você exige que eu vá embora?
Lucas tinha um olhar sombrio e estava prestes a dizer algo.
De repente, uma voz feminina suave soou ao lado: — Lucas, deixe a senhorita Clara morar aqui. Ela não encontrará um lugar para ficar tão cedo, e eu não suportaria vê-la vagando pelas ruas. Deixe-a ficar aqui por enquanto, para mim não tem problema.
Ao ver Beatriz se aproximar, o olhar de Lucas suavizou-se instantaneamente. Ele abraçou a cintura dela e disse com tom de piedade: — Isso é pedir demais de você.
Imediatamente, ele ergueu a cabeça e olhou friamente para Clara.
— Pelo bem de Beatriz, vou lhe dar mais quinze dias. Quando o tempo acabar, se você ainda não quiser ir embora, não me culpe por não considerar nosso passado.
Dito isso, ele partiu levando Beatriz.
Beatriz instalou-se na mansão e, naquela mesma noite, cozinhou pessoalmente uma refeição.
Clara não queria enfrentá-los e virou-se para sair.
Mas foi puxada com força pelo pulso por Lucas, que a forçou a sentar à mesa de jantar.
— Sente-se. Assistir a nós dois apaixonados não é a coisa que você mais gosta de fazer nos últimos seis meses? — disse Lucas, com tom de escárnio.
Clara cerrou os dedos silenciosamente, sem dizer nada.
Durante o jantar, Beatriz estava radiante e colocou um camarão frito em sua tigela.
— Irmã Clara, prove minha comida.
Clara olhou para aquele camarão sem tocar nos talheres.
— O que houve, irmã Clara? Não gosta da minha comida? — Beatriz piscou, demonstrando um traço de mágoa.
O olhar penetrante de Lucas varreu o ambiente imediatamente, fixando-se em Clara.
— Coma.
Clara levantou os olhos para ele, sentindo o peito como se estivesse bloqueado por algo.
— Eu sou alérgica a camarão, você esqueceu?
O olhar de Lucas vacilou por um momento, ele evitou o contato visual dela e sua voz soou fria e rígida:
— Faz tempo que esqueci.
As poucas palavras a feriram novamente.
Antigamente, ele lembrava-se de todas as suas preferências, desgostos e tabus melhor do que ela mesma.
Durante os anos em que estiveram juntos, nunca houve nada que ela não gostasse na mesa de jantar.
E agora, ele dizia que já não se lembrava mais.
Uma onda de impulso autodestrutivo surgiu em seu coração; ela pegou o camarão.
No momento em que estava prestes a levá-lo à boca, ouviu-se um estrondo: a taça de vinho ao lado de Lucas caiu.
Ele parecia impaciente.
— Chega! Olhar para você desse jeito me tira o apetite — disse ele, com a testa franzida e semblante carregado. — Vamos comer fora.
Ele se levantou bruscamente, pegou a mão de Beatriz e saiu.
A refeição terminou em desarmonia.
Depois que Beatriz se mudou para a mansão, Lucas parecia decidido a causar-lhe repulsa, mantendo uma intimidade absoluta com Beatriz bem na frente dela.
Abraços, beijos, carícias, sussurros; ele usava de todos os meios possíveis.
À noite, sons ambíguos ecoavam do quarto principal, que tinha um excelente isolamento acústico.
Clara forçava-se a não olhar e a não ouvir.
Mas, não importava o que fizessem, Lucas exigia rigidamente que Clara participasse de tudo.
Neste dia, Beatriz sugeriu ir ao Templo Lingyan, fora da cidade, para fazer orações, e Lucas a obrigou a ir junto novamente.
— Hoje é o aniversário da morte da minha mãe, eu preciso ir ao cemitério.
Clara tentou resistir, mas Lucas a interrompeu com rispidez: — Você pode ir ao cemitério a qualquer dia, mas hoje você tem que acompanhar Beatriz nas orações. Agora que você vive de favor aqui, sua única utilidade é fazer Beatriz feliz. Se não fosse por ela, você acha que eu a teria mantido aqui até agora?
Suas palavras eram como estacas de gelo que a perfuravam.
No final, ela foi forçada a ir com eles.
No templo, os três pararam sob uma árvore antiga coberta de amuletos de oração.
De repente, um amuleto caiu aos pés de Beatriz. Ela o apanhou e, por acaso, viu o nome de Clara escrito nele.
— Lucas, então este foi o amuleto que a irmã Clara escreveu para o seu futuro...
Beatriz abriu o papel, mas Lucas arrancou-o de suas mãos e jogou-o diretamente na fogueira do incensário.
— Não existe mais futuro entre mim e ela.
As palavras soaram como agulhas venenosas no coração de Clara, fazendo seus olhos arderem, quase transbordando em lágrimas.
Aquele amuleto fora escrito por eles na juventude, com a promessa de que viriam abri-lo quando estivessem velhos, para ver se os desejos se realizaram.
Mas agora, não havia mais chance.
Ela e Lucas realmente não tinham mais futuro.
Clara cerrou os punhos com força e, bruscamente, arrancou outro amuleto ali perto, onde estava escrito o nome de Lucas, jogando-o também nas chamas.
— Você tem razão — disse ela com voz calma e um olhar morto. — Éramos jovens demais naquela época para acreditar nessas coisas. Agora percebo que tudo isso não tem sentido algum.
Lucas viu sua ação e seu semblante congelou por um instante.
Mas, no fim, não disse nada.
Na volta, Lucas jogou as chaves do carro para Clara, enquanto ele e Beatriz sentavam-se no banco de trás.
Já era tarde e a estrada montanhosa era sinuosa e difícil de dirigir.
Em uma curva fechada, um veículo todo-terreno surgiu de repente, vindo em alta velocidade na direção oposta.
Clara não teve tempo de reagir e, sem conseguir desviar, colidiu diretamente contra a parede da montanha.
Acompanhada por um enorme estrondo, o mundo girou vertiginosamente diante de seus olhos.
No último segundo antes de perder a consciência completamente, ela pareceu ouvir um grito desesperado e lancinante.
— Clara!
Capítulo 3
A dor intensa fez Clara mergulhar na escuridão.
Em um transe, ela pareceu retornar à vida passada; naquele mesmo dia, na estrada de volta do cemitério, um carro desgovernado também colidiu diretamente com ela.
Naquela época, Lucas estava do outro lado da rua e correu rapidamente para protegê-la, recebendo a maior parte do impacto.
Naquela ocasião, ele ficou em coma por quase meio mês antes de acordar.
Mas, nesta segunda chance, o acidente ainda era inevitável.
Clara lutou para abrir os olhos, com uma dor de cabeça lancinante.
À sua frente, o teto do quarto de hospital; não havia ninguém ao seu redor.
Preocupada com a situação de Lucas, ela forçou-se a levantar e sair da cama.
Assim que chegou ao posto de enfermagem, ouviu algumas enfermeiras comentando em voz baixa:
— Aquela Clara no quarto VIP, que sofreu o acidente de carro, que relação ela tem com as duas pessoas no quarto 06? No dia em que foram trazidos, aquele senhor Lucas estava com os olhos vermelhos de preocupação, gritando como um louco para o diretor organizar a melhor equipe de especialistas para operá-la.
— É verdade. Naquele dia, ele vigiou do lado de fora da sala de cirurgia a noite toda, mesmo com seus próprios ferimentos sangrando, ele se recusou a ser atendido, insistindo em ficar até que a cirurgia terminasse.
— Mas o estranho é que, depois que ela saiu do perigo, ele nunca mais foi vê-la uma única vez, preferindo ficar o tempo todo protegendo a mulher chamada Beatriz, no quarto 06.
— Esse relacionamento é muito confuso. Você acha que aquela do quarto VIP é a amante? A esposa oficial estaria no 06, por isso ele não ousa ficar por lá abertamente?
Essas palavras fizeram o corpo de Clara estremecer.
Lucas a vigiou durante toda a noite?
Por quê?
Ele não vivia dizendo que não a amava mais?
Com a mente confusa, ela caminhou direto para o quarto 06, mas, antes que pudesse abrir a porta, Lucas saiu.
Ao vê-la, sua expressão tornou-se severa instantaneamente.
— O que você ainda veio fazer aqui?
Ele a empurrou para longe do quarto. — Se não fosse pela sua imprudência ao dirigir, Beatriz não estaria ferida. Você ainda tem a coragem de aparecer aqui? Volte para o seu quarto, não quero te ver agora.