Larissa Montenegro sempre acreditou que estava no controle.
Durante meses, ela entrou em restaurantes luxuosos ao lado de Rodrigo Albuquerque Hayes.
Recebeu presentes caros.
Frequentou lugares onde antes apenas observava outras pessoas.
Ela acreditava que sua vida estava prestes a mudar.
Na mente dela, Clara Vasconcelos era apenas um obstáculo que seria removido.
Mas depois da audiência no Fórum João Mendes, alguma coisa começou a mudar.
Pela primeira vez, Larissa percebeu que Rodrigo não era o homem poderoso que ela imaginava.
Ele estava assustado.
Estava pressionado.
E pior.
Ele estava escondendo coisas dela.
Naquela noite, Larissa foi até o apartamento onde Rodrigo costumava encontrá-la.
Ela entrou sem avisar.
O lugar estava escuro.
Ela encontrou Rodrigo sentado sozinho no sofá.
Na mesa havia documentos espalhados.
Relatórios financeiros.
Notificações jurídicas.
Cartas de bancos.
Nada parecia com a vida de um homem que estava prestes a vencer.
"Você mentiu para mim."
Rodrigo levantou o olhar.
Ele não esperava vê-la ali.
"Larissa, agora não."
Ela caminhou até a mesa.
Pegou alguns documentos.
"Agora sim."
Rodrigo tentou pegar os papéis.
"Isso não é assunto seu."
Ela afastou a mão dele.
"Não é assunto meu?"
Ela riu.
"Eu abandonei tudo acreditando que seria sua esposa."
O rosto de Rodrigo ficou sério.
"Baixe a voz."
"Por quê?"
Ela olhou ao redor.
"Porque seus vizinhos podem descobrir que o grande Rodrigo Hayes está perdendo tudo?"
Ele levantou.
"Você não sabe do que está falando."
Larissa jogou os documentos sobre a mesa.
"Eu sei que seus acessos foram bloqueados."
Silêncio.
"Eu sei que seus investidores estão abandonando você."
Mais silêncio.
"E eu sei que você não controla mais a NexusCore."
Rodrigo desviou o olhar.
Foi naquele momento que Larissa entendeu.
A verdade estava diante dela.
O homem que prometeu entregar um império estava tentando salvar o próprio nome.
"Você sabia."
A voz dela ficou baixa.
"Você sabia que podia perder tudo."
Rodrigo respirou fundo.
"Eu tinha uma estratégia."
"Uma estratégia?"
Ela se aproximou.
"Então eu era parte dessa estratégia?"
Ele ficou em silêncio.
E aquele silêncio respondeu.
Larissa sentiu o rosto esquentar.
Durante meses, ela acreditou que era escolhida.
Especial.
Única.
Mas talvez fosse apenas uma ferramenta.
"Você nunca me amou."
Rodrigo tentou responder.
"Larissa..."
"Não."
Ela levantou a mão.
"Eu quero ouvir a verdade."
Ele ficou irritado.
"Você quer a verdade?"
Ela encarou ele.
"Quero."
Rodrigo passou a mão pelo cabelo.
"Eu precisava de alguém dentro da empresa."
A frase destruiu tudo.
Larissa ficou imóvel.
"Como?"
Ele percebeu que tinha falado demais.
Mas já era tarde.
"Explica."
Rodrigo tentou corrigir:
"Não foi assim."
Ela sorriu sem emoção.
"Foi exatamente assim."
Ela pegou a bolsa.
"Você se aproximou de mim porque eu tinha acesso aos investidores."
Rodrigo não respondeu.
"Você usou minha influência."
Silêncio.
"Usou minhas informações."
Silêncio novamente.
E então ela entendeu.
Tudo.
As perguntas que ele fazia sobre reuniões.
Os nomes que ele queria saber.
Os relatórios que ela enviava.
Ele nunca estava apenas conversando.
Ele estava coletando informações.
"Você me transformou em uma espiã."
Rodrigo tentou se aproximar.
"Larissa, eu precisava sobreviver."
Ela recuou.
"E eu?"
Ele ficou parado.
Ela apontou para ele.
"Eu era o quê?"
Rodrigo não conseguiu responder.
Larissa saiu.
Mas naquela noite ela não voltou para casa chorando.
Ela voltou pensando.
Porque uma mulher como Larissa Montenegro não aceitava perder.
Se Rodrigo havia usado ela como peça de um jogo, então ela encontraria uma maneira de usar o próprio jogo contra ele.
No dia seguinte, Clara estava na sala de reuniões da mansão Vasconcelos.
Ela analisava novos documentos da NexusCore quando recebeu uma ligação inesperada.
Número desconhecido.
Ela hesitou antes de atender.
"Alô?"
A voz do outro lado era conhecida.
"Clara."
Ela ficou séria.
"Larissa?"
Augusto, que estava próximo, percebeu a mudança.
Clara fez sinal para ele esperar.
"O que você quer?"
Do outro lado, Larissa respirou fundo.
Pela primeira vez, não havia arrogância na voz dela.
Havia medo.
"Eu preciso conversar com você."
Clara ficou em silêncio.
"Por quê eu conversaria com você?"
A resposta veio rápida.
"Porque eu tenho provas."
Clara estreitou os olhos.
"Provas de quê?"
"Do que Rodrigo fez."
O silêncio ficou pesado.
Clara olhou para Augusto.
Depois respondeu:
"Venha falar pessoalmente."
Algumas horas depois, Larissa entrou na mansão Vasconcelos.
Era a primeira vez que ela estava naquele lugar.
O lugar onde Clara cresceu.
O lugar que ela imaginou ocupar.
Mas agora ela entrava diferente.
Sem confiança.
Sem vitória.
Apenas tentando sobreviver.
Clara estava sentada no escritório.
Larissa parou diante dela.
Durante alguns segundos, nenhuma das duas falou.
Eram duas mulheres ligadas pelo mesmo homem.
Mas de formas completamente diferentes.
Clara quebrou o silêncio.
"Você veio porque perdeu o controle."
Larissa aceitou.
"Sim."
"Não porque se arrependeu."
Larissa olhou para baixo.
"Talvez não."
Clara levantou uma sobrancelha.
Pela primeira vez, Larissa parecia honesta.
"Eu não vou fingir que sou inocente."
Ela continuou:
"Eu sabia que ele era casado."
"Eu sabia que estava machucando você."
Clara ficou em silêncio.
"Mas eu não sabia que ele estava usando todos nós."
A frase chamou atenção.
"Todos nós?"
Larissa abriu a bolsa.
Retirou um pen drive.
Depois alguns documentos impressos.
"Rodrigo me pediu para conseguir informações sobre investidores."
Clara olhou para os papéis.
"Que tipo de informações?"
"Movimentações financeiras."
"Contratos."
"Decisões internas."
Ricardo, que estava presente, pegou os documentos.
Ele começou a analisar.
O rosto dele mudou.
"Isso é importante."
Clara olhou para ele.
"O que encontrou?"
Ricardo respondeu:
"Registros de reuniões que nunca apareceram nos arquivos oficiais."
Larissa continuou:
"Eu também tenho gravações."
Clara ficou séria.
"Gravações de quê?"
"Conversas entre Rodrigo e pessoas que estavam ajudando ele."
Augusto cruzou os braços.
"Por que devemos acreditar em você?"
Larissa olhou para ele.
"Porque se Rodrigo cair, eu também caio."
A sinceridade daquela frase foi inesperada.
Ela não estava tentando parecer boa.
Ela estava admitindo que estava desesperada.
Clara pegou o pen drive.
"Se essas provas forem verdadeiras, você será investigada também."
Larissa assentiu.
"Eu sei."
"Então por que está fazendo isso?"
Ela demorou alguns segundos.
Depois respondeu:
"Porque eu descobri que para ele eu nunca fui uma pessoa."
Clara observou.
"Eu era apenas uma ferramenta."
A frase ficou no ar.
Mas Clara ainda não confiava nela.
"Você quer o quê em troca?"
Larissa respirou fundo.
"Proteção."
Augusto ficou sério.
"Você está pedindo proteção da família que tentou destruir?"
Larissa abaixou o olhar.
"Estou pedindo uma chance de não ser destruída junto com ele."
Clara pegou os documentos.
Ela sabia que aquela situação era perigosa.
Larissa era uma pessoa que participou da traição.
Mas também poderia ser a peça que faltava.
Naquela noite, Ricardo analisou todo o material.
Havia registros de transferências.
Conversas internas.
Planejamentos.
E uma gravação.
Uma gravação feita dentro de um restaurante em São Paulo.
Ricardo conectou o arquivo.
Todos ficaram em silêncio.
A voz de Rodrigo apareceu.
Clara fechou os olhos.
Era a voz do homem que ela amou.
A voz do homem que destruiu sua confiança.
No áudio, Rodrigo conversava com Larissa.
Ele parecia tranquilo.
Como se estivesse falando sobre uma simples negociação.
Até que disse:
"Clara nunca entendeu o lugar dela."
O coração de Clara apertou.
A gravação continuou.
Rodrigo riu.
"Ela achava que fazia parte da construção da NexusCore."
Um silêncio.
Então veio a frase que mudou tudo.
"Clara era apenas uma ferramenta no meu caminho para o sucesso."