O humor deprimido de Bianca suavizou-se um pouco: “Obrigada.”
O motorista riu alto: “Só depois percebi que a coisa que caiu acabou tornando minha vida mais interessante. Agora estou até me arrependendo de ter colocado um E novo lá!”
Bianca ficou atônita por um instante, olhando para o mar azul e o céu através da janela, e soltou um suspiro suave: “Acho que você tem razão.”
O passado é passado.
Já que decidiu partir, e como Marcelo nunca a amou, por que ela deveria continuar a persegui-lo?
Depois de conversar com os pais, ela dará as boas-vindas a uma vida nova que realmente lhe pertence.
Ao se despedir do motorista, Bianca percebeu que o “E” que ele disse ter adicionado era, na verdade, escrito com uma caneta marcador preta.
Ela deu um leve riso e encontrou a ala de internação A-901.
No momento em que abriu a porta.
Ao ver o pai sentado na cabeceira da cama lendo o jornal, Bianca correu em sua direção com os olhos vermelhos.
“Papai…”
Capítulo 15
O pai de Bianca suavizou o olhar e acariciou gentilmente o cabelo da filha.
“A viagem foi cansativa? Dez horas não são pouco, você deve estar muito exausta.”
Bianca balançou a cabeça, deixando escapar todas as mágoas acumuladas, sentindo-se como se tivesse voltado à infância.
“Minha filha querida, quanto tempo, por que você emagreceu tanto?”
O pai deu tapinhas leves em seu ombro e, após esperar insistentemente sem ver sinal de Marcelo, não pôde evitar franzir a testa.
“Marcelo não veio com você? Que falta de consideração.”
O coração de Bianca estremeceu; ela endireitou a postura, enxugou as lágrimas e disse com a voz rouca: “Ele não virá mais.”
Antes que o pai pudesse dizer algo, a mãe entrou apressada pela porta, visivelmente furiosa.
“Aquele canalha do Marcelo fez algo contra você? Conte tudo para o papai e para a mamãe!”
Bianca soltou um suspiro profundo e olhou hesitante para o pai.
“Mas o papai precisa de tranquilidade agora, não pode sofrer estresse.”
A mãe parou, lembrando-se de algo importante que ainda não havia contado à filha, e imediatamente bateu na coxa e a puxou para sentar.
“Ai, só de pensar nisso fico irritada!”
A mãe, com ar de desdém, tirou o celular e mostrou a Bianca a foto de um fungo silvestre estranho.
“Seu pai teve um diagnóstico errado de intoxicação alimentar. Ele ficou dois dias em coma, mas acordou logo depois, deu um susto enorme na gente! Eu estava tão ocupada respondendo às tias e primas que esqueci de te avisar.”
Bianca ficou atônita, confirmando, incrédula: “Você não está mentindo para mim, mãe?”
A mãe revirou os olhos e mostrou os exames médicos do pai e os relatórios de monitoramento dos últimos dias.
Todos dentro da normalidade, até melhores que a saúde de Bianca.
“Seu pai, aposentado e sem ter o que fazer, vive entrando na mata e trazendo para casa todo tipo de coisa estranha, está muito bem.”
Bianca olhou para o pai, que exibia um sorriso sem graça, e a névoa que pairava sobre seu coração dissipou-se; ela finalmente teve coragem de dizer tudo.
“Entre nós, o destino não permitiu um futuro…”
Quinze minutos depois.
A mãe, com os olhos vermelhos, abraçava Bianca, mal se atrevendo a tocar na orelha dela, sentindo-se irritada e culpada.
“Minha Bianca, por que você foi tão boba e não contou nada ao papai e à mamãe? Você deve ter passado por tantas injustiças…”
Bianca enterrou o rosto no peito da mãe, sentindo um alívio momentâneo: “Está tudo bem, já passou.”
A mãe conhecia a filha como ninguém; embora parecesse extremamente frágil por fora, ela escondia um coração resiliente.
Com lágrimas escorrendo, ela acariciou a cabeça da filha: “Você não culpa o papai e a mamãe por terem imigrado para a Austrália e deixado você sozinha no país por tanto tempo?”
Bianca balançou a cabeça imediatamente, sentindo-se em paz.
“Não, a escolha foi minha. Fui boba por não ter enxergado a verdadeira face de Marcelo.”
Na época, seus pais foram convidados a se estabelecer em Sydney como talentos de elite, e Bianca deveria ter ido junto.
Foi ela quem escolheu ficar no país para se aperfeiçoar em floricultura, conhecendo Marcelo e decidindo não imigrar.
“Que bobagem nada, foi aquele homem que é um mestre em fingir!”
A mãe ficava furiosa só de pensar, lançando um olhar afiado para o pai, que levou um susto com a intensidade da esposa.
Ela comandou: “Velho, sua filha está nesse estado, por que você ainda está hesitante? Cancele todos aqueles projetos!”
Bianca tentou conter a mãe, que batia os pés de raiva.
Temendo que ela passasse mal, Bianca a consolou: “Está tudo bem, mãe, não fique brava, faz mal à saúde. Nós já terminamos, não terei mais nenhuma relação com ele…”
“Não tente me impedir, vou ordenar agora mesmo que parem com as ações da família dele, aquele canalha não merece nada!”
Capítulo 16
Bianca sentiu os olhos marejarem com a proteção da mãe.
Seu coração estava preenchido por uma energia calorosa, repleto de afeto e gratidão.
Ela pensou em pedir ao pai que acalmasse a mãe, mas viu que ele segurava os óculos com uma das mãos enquanto digitava desajeitadamente no celular, parecendo também estar investigando os erros da família de Marcelo.
Bianca balançou a cabeça, resignada, e levantou-se para servir chá.
Ela sabia que seus pais escolheram ajudá-la a se vingar dessa forma, e não os impediria.
Não sentia a menor pena pelas perdas que Marcelo enfrentaria; pelo contrário, achava que era o castigo que ele merecia.
De qualquer forma, ele amava tanto aquela mulher, que a família dela que o ajudasse a preencher essas lacunas.
Vamos ver o quanto eles conseguem ajudá-lo.
Talvez, devido ao grande amor que Marcelo nutria pela mulher, ele não permitisse que a família dela arcasse com esse prejuízo.
Seja como for, Bianca não colocaria os assuntos dele como prioridade nunca mais.
Ela apenas o esqueceria cada vez mais e jamais voltaria atrás.
Vendo que os pais estavam ocupados, ela, que fora deixada de lado, sentou-se comportadamente à espera.
Bianca sempre esteve acostumada a ficar sentada à espera.
A mãe, vendo que a filha não tinha o que fazer, tirou um punhado de dólares australianos e a mandou comprar roupas novas.
Bianca assentiu, ciente de que aquela era a maneira de sua mãe demonstrar carinho.
Após a longa separação, eles nunca foram uma família excessivamente emotiva.
Sempre foram descontraídos e livres.
“Compre algumas peças novas e envie o resto para casa. À noite, quando seu pai sair do hospital, voltaremos juntos.”
A mãe disse suavemente, e Bianca a abraçou.
Após prometer diversas vezes, Bianca saiu.
O local ficava perto do centro da cidade, e ela logo encontrou uma loja de roupas.
Ao entrar, sentiu-se atraída pela variedade e hesitou um pouco.
O dono da loja era atencioso e entusiasta, trazendo vários estilos que serviram perfeitamente.
Bianca provou algumas peças e finalmente escolheu um sobretudo casual.
Nos últimos anos, ela economizou muito dinheiro através de competições e aulas, gastando quase nada.
Primeiro, porque na mansão onde morava havia uma empregada para cozinhar; segundo, porque seus hobbies eram flores e parques.
As roupas e joias que possuía foram todas presentes de Marcelo, e, exceto no dia do casamento, ela nunca mais as usou.
A única coisa que usou por mais tempo foi a corda vermelha que simbolizava o casal.
Depois que ela se partiu, Bianca não usou mais nada.
Ao lembrar da corda, Bianca sentiu uma pontada no peito; fora a coisa que ela mais prezara um dia.
Ela tocou suavemente o ventre vazio, suspirou e caminhou ao longo da costa, observando silenciosamente o mar azul profundo e as ondas brancas. A paisagem ali era linda e a ajudava a esquecer temporariamente suas preocupações.
Embora fosse inverno em Sydney, a brisa marinha levemente fria dissipou o mal-estar que Bianca sentia.
Ela perdeu o olhar no horizonte, sentindo o vento no rosto, e um sorriso apareceu naturalmente em seus lábios.
De repente, uma figura branca pousou em seu ombro.
Bianca levou um susto, paralisando sem ousar se mover; seu coração acelerou enquanto observava tensa aquele convidado inesperado.
A gaivota balançou levemente a cabeça, olhou para ela de lado e deu uma leve bicada em sua gola.
Bianca só então acalmou o coração, soltando um suspiro de alívio.
Era apenas um passarinho.
Infelizmente, ela não tinha nada para alimentá-lo.
Bianca hesitou, fazendo um gesto como se procurasse algo no bolso; ela queria que a gaivota partisse, mas não queria machucá-la.
“Pequena gaivota, não tenho nada de comer comigo.”
Ela disse suavemente à gaivota, esperando, tolamente, que ela entendesse.
A gaivota não entendia nada disso.
Inclinou a cabeça, agachou-se no ombro dela e permaneceu lá imóvel.
Bianca conteve o impulso de acariciar as penas, esperando por muito tempo sem ver sinal de que ela fosse voar.
Ao confirmar que o animal não estava doente, apenas observando os pedestres, ela curvou os lábios e continuou seu passeio pela costa.
Desta vez, acompanhada por uma pequena criatura, sentia-se muito melhor.