Naquele dia, Marcelo soltou sua mão de repente, deixando-a sozinha na sala de reabilitação com a desculpa de uma reunião urgente.
Do dia até o anoitecer, Bianca ligou para ele várias vezes para pedir que a buscasse.
A sala de reabilitação era fria e vazia; em um devaneio, ela pareceu retornar ao dia em que foi abandonada pelo amigo de infância, sozinha no palco.
Marcelo atendeu por 2 segundos e desligou, enviando uma mensagem meia hora depois: “Estou ocupado.”
Na verdade, ele estava ocupado “cuidando” de Júlia.
Bianca tentou suprimir a amargura em seu coração e forçou um sorriso.
“Você não tem medo que eu conte para Dante?”
Júlia riu com desdém, arrancou o cordão vermelho, jogou-o no chão e disse em tom baixo: “Aqui, nenhum dos dois homens te quer; que credibilidade sua palavra tem?”
“Mesmo que eu te bata, terei razão.”
Bianca ficou atônita por um segundo, e no instante seguinte recebeu um tapa violento de Júlia no rosto.
Ela bateu contra a mesa, e uma torre alta e pesada de champanhe desmoronou.
Gritos ecoaram, e Marcelo atravessou a multidão para chegar lá.
Bianca estava toda desgrenhada, sangue misturado a vinho, e a parte inferior de seu corpo parecia ter perdido a sensação.
Júlia chorava em tom de queixa: “Desculpe, Bianca, se você não tivesse vindo pegar meu cordão, eu não teria te empurrado...”
“Eu não fiz isso...”
Antes que pudesse terminar, Júlia gritou: “Minha barriga! Marcelo, minha barriga dói tanto, será que o bebê...”
Marcelo teve sua atenção atraída instantaneamente pelo choro de Júlia; ele olhou para Bianca com frieza, apoiou Júlia e chamou o médico da família.
Olhando para as costas dos dois, a última ponta de calor em Bianca desapareceu.
Contrações fortes ocorriam em seu ventre, e líquidos escarlates se misturavam à sujeira.
Bianca se apoiou para chamar o administrador e, sob os olhares de nojo de todos, foi levada para a sala de descanso.
Ao abrir a porta, ouviu o mordomo falar enxugando o suor frio: “Há apenas um médico da família aqui; a Sra. Bianca também está sangrando, receio que seja um aborto...”
Marcelo hesitou e, ao abrir a boca, Júlia encheu os olhos de lágrimas piedosas: “Estou bem, deixe a Bianca fazer a cirurgia primeiro; já estou acostumada com ela fingindo dor para me intimidar.”
Sentindo uma dor aguda e constante no ventre, Bianca entrou em pânico, agarrando o mordomo com olhos vermelhos e implorando: “Meu bebê vai morrer, por favor, salvem-no!”
Marcelo afastou a mão dela e disse friamente: “O bebê dela não é importante, primeiro salve o bebê de Júlia!”
O tempo passou, e quando chegou a vez dela, o médico da família tentou fazer uma transfusão, mas balançou a cabeça sem paciência: “Cinco minutos mais cedo e teria dado para salvar; agora é tarde demais.”
Bianca desesperou-se totalmente, perdendo todas as forças, e colocou as mãos trêmulas sobre o ventre gelado.
Seu bebê tinha ido embora...
Aquele que ela tanto custou a conceber.
Bianca fechou os punhos com força, sentindo uma dor aguda nas palmas das mãos.
Mas a dor física não era nem um milésimo da dor em seu coração.
Ela saiu da enfermaria entorpecida, vendo Marcelo e Dante cuidando de Júlia, cada um de um lado.
Ao ver Bianca sair, Marcelo ficou com uma expressão sombria e lhe deu um tapa violento: “É tudo culpa sua, o bebê de Júlia não foi salvo, peça desculpas a ela!”
Um som seco de “tapa” ecoou.
O ouvido esquerdo de Bianca ficou dormente, e todos os sons caóticos pareceram desaparecer naquele instante.
A última centelha de emoção em seu coração também foi aniquilada pelo líquido morno que escorria de seu ouvido.
Bianca disse suavemente: “A culpa é minha, cuide dela, estou indo embora.”
Ir embora significava nunca mais voltar.
Capítulo 7
Marcelo estacou, percebendo de repente que, nos olhos de Bianca, não havia nada além de um vazio absoluto.
Ao olhar para a marca escarlate em seu ouvido, seu coração deu um solavanco, e até a palma de sua mão esquerda, que pendia ao lado do corpo, começou a formigar, quente e dormente.
O clima estava opressor de um jeito terrível, com trovões ecoando abafados no horizonte.
Marcelo deu um passo à frente para examinar a orelha esquerda de Bianca, mas foi repelido pelo movimento de recuo dela.
Ele recolheu a mão bruscamente; embora soubesse que Bianca lia lábios, não conseguiu evitar suavizar o tom de voz.
“Eu fui impulsivo. Vamos voltar, eu te levo para cuidar do ouvido.”
Uma pontada aguda surgiu no coração de Bianca, e seus olhos ficaram vermelhos em silêncio: “Marcelo, eu…”
Nesse momento, Júlia, com os olhos lacrimejando, apoiou-se no ombro de Marcelo e o chamou:
“Marcelo, minha barriga dói tanto, você pode me levar lá para dentro?”
Marcelo franziu a testa, hesitou por um instante, mas acabou caminhando em direção a Júlia, voltando-se para dar uma última instrução:
“Bianca, vá para casa primeiro. Amanhã eu vou te buscar.”
A despedida que ela não chegou a pronunciar ficou presa na garganta e nunca foi dita.
Marcelo, eu não vou te esperar até amanhã.
Bianca observou tristemente as costas deles e virou-se para partir.
O castelo privado ocupava todo o topo da colina, e ela levou uma hora caminhando sozinha até chegar à base.
Ao chegar à mansão, a equipe de vendas de usados já a esperava.
“Senhorita Bianca, tem certeza de que quer vender tudo isso? A aliança de noivado, o colar de casal…”
Bianca assentiu sem hesitar: “Sim, vendam tudo. O valor arrecadado, doem integralmente para crianças carentes.”
O responsável assentiu repetidamente, esvaziando a casa de tudo o que pertencia a Bianca.
O motorista, que aguardava ao lado, notou o diamante rosa de 21 quilates que brilhava quando ela assinava os documentos e não pôde deixar de aconselhá-la.
“Brigas de casal se resolvem no travesseiro. Seu marido te deu um anel tão grande assim, tem mesmo necessidade de levar isso tão longe?”
Bianca tocou suavemente sua orelha esquerda surda, sentindo-se seca e quebradiça por dentro.
Ela retirou a aliança e, ao ver o nome “Júlia” gravado na parte interna, achou a situação irônica.
“Se você gosta, pode levar.”
O senhor segurou o anel com as mãos trêmulas, engoliu suas palavras e não a aconselhou mais.
O tempo passava minuto a minuto.
As badaladas das 12 horas soaram, e Marcelo não voltou para casa.
Bianca estava parada na porta esperando o táxi, pegou o telefone e discou aquele número familiar pela última vez.
Marcelo saiu do quarto de Júlia, olhando confuso para a chamada de “Bianca”.
O aparelho auditivo quebrado ainda estava em seu bolso; como Bianca poderia ligar para ele se não podia ouvir?
Uma inquietação espalhou-se pelo seu peito; Marcelo atendeu, hesitando antes de falar.
“Bianca, é você?”
Bianca forçou os olhos ardentes a piscarem, deixando a garoa cair sobre seu rosto.
“Eu sempre quis te contar, agora eu posso ouvir.”
A mente de Marcelo ficou em branco. Antes que pudesse organizar as palavras, ela continuou:
“Marcelo, você não precisa mais ser meus ouvidos. A liberdade que você tanto queria, eu estou te devolvendo.”
A expressão de Marcelo mudou instantaneamente, e sua voz subiu de tom: “O que você quer dizer com isso?”
O motorista saiu do carro e pegou a mala de Bianca.
“Final da placa 1952, boa noite. O destino é o aeroporto, correto?”
Ao ouvir as palavras do motorista, um arrepio percorreu as costas de Marcelo, e sua máscara habitual de frieza desmoronou completamente.
“Bianca, para onde você vai? Eu não te permito ir…!”
“Tu-tu-tu…”
Bianca desligou o telefone sem qualquer hesitação e entrou no táxi.
A chuva continuava do lado de fora. Ela fechou a porta do carro, quebrou o chip do celular e jogou-o pela janela.
Adeus, Marcelo. Nunca mais nos veremos.
Capítulo 8
“Tu-tu-tu…”
Bianca desligou o telefone sem qualquer hesitação e entrou no táxi.
A chuva continuava do lado de fora. Ela fechou a porta do carro, quebrou o chip do celular e jogou-o pela janela.
Adeus, Marcelo. Nunca mais nos veremos.
…
Trovões rugiam no céu.
A cidade estava coberta por densas nuvens escuras, trazendo uma sensação sufocante que dificultava a respiração.
No corredor de uma mansão majestosa, Marcelo ligava para Bianca repetidas vezes.
No entanto, do outro lado da linha, ninguém atendia. A ansiedade anormal acumulava-se sobre ele a cada tentativa.
“Desculpe, o número discado não atende no momento…”
O lembrete mecânico repetitivo ecoava nos ouvidos de Marcelo.
Parecia zombar impiedosamente da inutilidade de seus esforços.
Bianca nunca o tratou assim antes…
Após sete anos juntos, como ele poderia não conhecê-la?
A palma da mão que desferira o tapa em Bianca agora parecia queimar, como se estivesse cauterizando sua mente inquieta e agitada.
“Marcelo?”
Júlia esperou do lado de fora do quarto por um longo tempo e, ao ver que ele não entrava, chamou-o com voz doce.
Ao ouvir a voz, Marcelo interrompeu suas ações.
Enviou mais uma mensagem para Bianca, respirou fundo para esconder suas emoções e entrou no quarto para fazer companhia a Júlia.